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Para a vida pós-quarentena: novo ardor e maior zelo

Creio que, a maioria de nós se deu conta de que, durante um bom tempo, praticamente a metade da população do planeta ficou de quarentena por conta da pandemia ligada à covid-19. As consequências desse fato – econômicas, sociais e psicológicas – poderão ser sentidas ao longo de meses ou até de anos; creio até que, essa crise deixará marcas que não mais serão apagadas, como mudanças profundas na nossa maneira de viver (“o tempo dirá”). Mas o que você pode falar já, de imediato, sobre as consequências da epidemia na sua vida espiritual?

Sem esquecer o drama vivido por muitas famílias que perderam entes queridos ou que tiveram problemas de violência doméstica, ou ainda, para quem faltou comida em casa entre tantos outros problemas graves, tenho ouvido testemunhos muito bonitos de pessoas e famílias que viveram um tempo de renovação humana e espiritual.

Acreditamos que de um mal Deus pode tirar um bem ainda maior. Ainda que seja ligada a uma catástrofe, essa quarentena trouxe ensinamentos importantes: muitos souberam aproveitar essa ocasião para viver coisas mais essenciais e sair do supérfluo, valorizando e a buscando o que realmente importa. De fato, não adiantava roupa de marca, maquiagem, ou um belo corte de cabelo, já que não podíamos sair muito de casa.

Para a vida pós quarentena: novo ardor e maior zelo

Foto ilustrativa: flyparade by Getty Images

Não adiantava ter o carrão do ano, já que ele ficava quase o tempo todo na garagem. Não adiantava ter dinheiro para sair e gastar, já que o comércio, bares, restaurantes, cinemas e afins estavam fechados. E poderia continuar citando outros exemplos.

O que restou?

Restou viver a simplicidade das relações e, quem sabe, crescer no amor uns pelos outros, ainda que tão difícil seja em alguns casos. Restou viver um cristianismo mais simples e mais autêntico e íntimo; alguns em casa sozinho, outros com a igreja doméstica, que é a família. Restou esperar e confiar – esperar que este tempo passe e que possamos em breve nos reunir com amigos e irmãos na fé novamente; e, sobretudo, esperar e confiar em Deus, já que nos demos conta de quão pequeninos somos em meio à crise.

E de agora em diante?

De agora em diante, não podemos deixar esses e outros valores assimilados para trás. Pelo contrário, é tempo de crescer e aprimorar aquilo que conseguimos aprender em meio ao caos. De agora em diante, devemos rever as desculpas esfarrapadas que damos para não fazer o que devemos fazer e que nos impedem de crescer.

De um ponto de vista da prática espiritual, sabe aquelas desculpas para não confessar, não ir à missa, não ir aos grupos de oração, não rezar o terço, e não ir para a capela para adorar o Senhor presente na Eucaristia? Aquelas desculpas para não ir às formações, confraternizações, reuniões, retiros e encontros? Ou aquelas outras desculpas para não exercer a caridade nem realizar uma bela obra pelo bem comum? Pois bem, de agora em diante, lembre-se do tempo que você teve de ficar em casa e não podia fazer praticamente nada disso. De agora em diante, pense bem antes de dar uma desculpa do tipo “não tenho tempo”, “não quero”, “estou com raiva de fulano”, “não dormi direito”, “não posso, pois vou receber visita”, “não gosto do padre” etc.

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Essa mensagem é também para você que lendo esse texto tem a impressão de que perdeu o tempo assistindo todas as lives possíveis de axé e de sertanejo, viu séries e não aproveitou de nada que foi proposto pelas paróquias e comunidades para crescer na intimidade com Deus nem no cuidado para com você mesmo, menos ainda para com o seus familiares e amigos: o seu “castigo” é o de se dar conta de que o seu problema não é falta de tempo, e sim falta de organização e de disposição – e isso só pode ser mudado se você rever quais são as suas prioridades (e ninguém pode fazer isso no seu lugar!). De agora em diante é tempo de um novo ardor e de um maior zelo.

Deixo dois versículos para sua meditação pessoal:

“Ainda que exteriormente se desconjunte nosso homem exterior, nosso interior renova-se de dia para dia” (2 Co 4,16).

“Portanto, irmãos, cuidai cada vez mais em assegurar a vossa vocação e eleição. Procedendo desse modo, não tropeçareis jamais” (2 Pedro 1,10).

Deus abençoe você e sua família.


Padre André Favoretti

Natural de Vitória – ES, foi ordenado sacerdote dia 25/06/2017, na diocese de Fréjus-Toulon, onde atua como missionário. Antes de ser padre, concluiu uma licenciatura em Geografia (UFES), foi professor e fez uma pós-graduação em filosofia (UFOP).

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