entenda

A urgência da educação afetivo-sexual na sociedade¹

A sexualidade abrange a pessoa humana por inteiro. O impulso sexual é uma condição básica da vida humana; é “uma das energias estruturantes do ser humano, que perpassa toda a realidade humana”2 com forte influência na personalidade do indivíduo.

Semelhante a todo processo evolutivo, a sexualidade possui etapas, evolui, mas não necessariamente de forma linear. Em virtude de alguns fatores condicionantes – ambiente familiar, educação, cultura, religião, questões psicológicas, meios de comunicação etc. –, ocasionalmente os resultados esperados em uma das etapas podem não ser alcançados. Por isso, esse caminho evolutivo precisa ser acompanhado cuidadosamente por uma formação séria, uma educação verdadeira e honesta, apropriada para cada fase da vida e que respeite os valores que promovam a pessoa e sua dignidade.

Na educação sexual é preciso saber que os fatores condicionantes citados anteriormente não são determinantes, podendo ser alterados por modificações do meio onde vive o jovem. Portanto, são elementos considerados maleáveis.
Existem também os elementos considerados estáveis, chamados de “sexo genético” (dimensão biogenética, sexo hormonal, dimensão cerebral), que são difíceis de serem mudados e podem influenciar de modo quase determinante no comportamento pessoal.

A urgência da educação afetivo-sexual na sociedade¹

Foto ilustrativa: robeo by GettyImages

Existe determinismo sexual?

Entretanto, não podemos afirmar que existe determinismo sexual, porque há os elementos mais maleáveis que podem ser trabalhados, sendo eles os que mais interessam no campo da educação sexual e que apelam para a nossa responsabilidade e compromisso enquanto pessoas. Desse modo, é fundamental que pais e educadores conheçam esses elementos, para que tenham condições de ajudar o “formando” no desenvolvimento da sua maturidade sexual.

Caso o jovem apresente algum distúrbio de ordem biogenética, o responsável pela sua formação deverá estar atento e encaminhá-lo a algum profissional da área para uma avaliação genética, hormonal, a fim de ajudar este jovem no processo de maturidade sexual. Já no âmbito dos fatores mais maleáveis, como o ambiente familiar, a educação
recebida, os meios culturais etc., o educador (pai, mãe, catequistas) deverá promover condições favoráveis para que o jovem apresente um desenvolvimento sexual sereno, harmonioso, integrado, a fim de atingir a maturidade sexual e o equilíbrio necessário para ter uma vida feliz em resposta à vocação de uma vida para o Reino de Deus, no amor e na oblação.

O instinto sexual necessita da ordenação, conduzida pela própria racionalidade da pessoa, para que alcancemos uma vida casta. A ordenação sexual, ou o equilíbrio da vida afetiva-sexual, é importante não só para o que se refere diretamente à sexualidade, mas também para a maturidade ou equilíbrio da pessoa. Sexualidade desintegrada pode
gerar personalidades desintegradas.

A sexualidade na espécie humana

Reduzir a educação sexual à sua dimensão biológica-fisiológica ou às questões simplesmente na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DSI) ou mesmo para evitar gravidez, é ser desonesto com os nossos adolescentes ou jovens, é reduzir a sexualidade humana ao estágio mais ínfimo, ou seja, considerar a sexualidade no
mesmo nível dos animais. Na espécie humana, a sexualidade chega ao grau último de evolução: entra no nível da consciência.

É evidente que não podemos desconsiderar a sua base biológica. Para estabelecer uma ética sexual segura, é necessária fundá-la também sobre a base do conhecimento biológico preciso. No entanto, em se tratando de sexualidade humana, o nível da consciência mostra que o comportamento sexual é um comportamento vivenciado e
tornado comportamento humano. A sexualidade humana deve ser olhada como uma realidade da totalidade da pessoa e sua influência tem repercussão em todas as manifestações da vida pessoal.

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Responsabilidade dos pais

Os pais são os primeiros responsáveis, por direito e dever, da educação sexual de seus filhos. Também a escola, a sociedade, a Igreja, o Estado são responsáveis, no entanto, o direito/dever dos pais existe independentemente da responsabilidade das outras instituições.

Sente-se a falta de uma educação, pastoral da juventude e da catequese empenhadas em resgatar e construir nos jovens e adolescentes a verdadeira dignidade e o verdadeiro amor, por meio de um anúncio mais positivo da sexualidade capaz de levar os jovens e adolescentes a respeitar a si mesmos e aos outros.

Sexualidade em harmonia

É preciso libertar a sexualidade das amarras da visão individualista, pois ela é um ato voltado para o outro e para o “nós”, comunidade e sociedade; e “humanizá-la” para tornar uma pessoa feliz, por meio da construção de uma personalidade capaz de integrar a sexualidade na vida com um suficiente autoconhecimento e por uma visão positiva do prazer honesto. Ao contrário disso, uma sexualidade em desarmonia cria pessoas infelizes, e torna-se uma força de destruição da pessoa e da sociedade.

Uma das normas vigentes na moral sexual cristã é a de que “todo ato genital humano deve ser mantido dentro do matrimônio”. A liberdade sexual fora do matrimônio é uma ameaça aos valores próprios da vida em família. O matrimônio não significa simplesmente a aquisição do bilhete para a legitimação da relação sexual, está longe disso, mas é a capacidade de formar comunhão pelo significado unitivo inscrito na própria natureza da união sexual dos esposos. A instituição do matrimônio e da família, querida e criada por Deus, pedem por si mesmas a estabilidade e a indissolubilidade necessitadas pelas relações entre esposo e esposa, entre pai-mãe e filhos.

Sexualidade como produto

Segundo Marciano Vidal: “as expressões usadas pelo Gênesis, ao falar da parceria conjugal, não deixam lugar a dúvidas: a visão bíblica do matrimônio inclui uma comunhão completa e total, na qual a dimensão sexual está necessariamente presente: “osso de meus ossos e carne de minha carne”, “dois em uma só carne”. A Bíblia aponta para uma comunidade de vida entre o homem e a mulher, baseada na igualdade, na participação plena e no mútuo respeito e apoio. A sexualidade é um âmbito imprescindível para essa comunhão plena de vida conjugal”.3

Será que somos obrigados a aceitar que o mundo contemporâneo continue a nos enganar com uma visão da sexualidade como produto “de compra e venda”, de consumo oferecido a pessoas massificadas por uma compreensão distorcida do erótico? Não será esta ideia de consumismo sexual que faz crescer o número de estupros, abusos sexuais, exploração de menores, tráfico de mulheres, turismo sexual e a prostituição?

Por sermos pessoas adultas, responsáveis e inspiradas pelos valores éticos devemos abominar tudo isso, além de também discordar das propagandas que valorizam unilateralmente a genitalidade do encontro sexual (exagero da relação genital). É um reducionismo da compreensão da sexualidade. Quem perde nessa história é a visão mais
completa da sexualidade e o verdadeiro amor.

Incentivo a uma sexualidade desordenada

Favorecer atitudes que transformam pessoas em objeto não é uma prestação de serviços à humanidade. Usar pessoas para encontrar o prazer é degradante e um desrespeito a própria intimidade e a dos outros.

As propagandas destinadas aos jovens com o fim de induzi-los a buscar o prazer sexual sem compromisso são muito sutis, atraentes, bem feitas, mas enganosas. São comparáveis a um verdadeiro bombardeio. Além disso, a distribuição de preservativos sem controle pode sugerir que é lícito o sexo livre, provocando a falsa ideia de que é
permitido manter relações sexuais promíscuas com plena legitimidade, desde que se tomem as cautelas necessárias para evitar consequências “desastrosas”. O uso de preservativos, uma vez que induz a uma vida sexual desordenada, reduzindo a sexualidade a mero bem de consumo e insinuando que o comportamento sexual, quando seguro, é eticamente lícito, pode causar muito mais danos à vida dos jovens que ajudá-los.

Pelo bem que podemos fazer, vale a pena investir na formação por um erotismo sadio, bonito, leal, respeitoso. Os jovens merecem ser tratados com respeito, amor, lealdade. Eles não precisam nem devem ser obrigados, por falta de melhor opção, a fazer experiências frustrantes e não construtivas.

É necessário acompanhar a caminhada deles, pois são desafiados a uma luta “violenta” para conquistarem o ideal da castidade. As falhas e quedas contam menos que a vontade e a determinação de continuar buscando. Mais uma vez o Evangelho tem razão: “O Reino dos Céus é dos violentos” (Mt 11,12).

Referências:

1 Mário Marcelo Coelho. Sexualidade: O que os jovens sabem e pensam. São Paulo: Canção Nova, 2010. Você poderá adquirir este livro acessando – ebook: https://bit.ly/2QR2WAf
Também importante consultar: CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, orientações educativas sobre o amor humano: linhas gerais para uma educação sexual. 1° de Novembro de 1983.

2 Congregação para a Doutrina da Fé. Declaração sobre algumas questões de ética sexual – Persona humana. 29 de dezembro de 1975, n.1.

3 Marciano Vidal. O matrimônio: entre o ideal cristão e a fragilidade humana. São Paulo, Aparecida: Santuário, 2007, p. 200.

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Padre Mário Marcelo, scj

Mestre em zootecnia pela Universidade Federal de Lavras (MG), padre Mário é também licenciado em Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque (SC) e bacharel em Teologia pela PUC-RJ. Mestre em Teologia Prática pelo Centro Universitário Assunção (SP). Doutor em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana de Roma/Itália. O sacerdote é autor e assessor na área de Bioética e Teologia Moral; além de professor da Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP). Membro da Sociedade Brasileira de Teologia Moral e da Sociedade Brasileira de Bioética. Membro do grupo Interdisciplinar de Peritos (GIP) da Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Autor de livros publicados pela Editora Canção Nova.

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