Bioética

O que a Igreja diz sobre a teoria da evolução?

Reflita, através dos pensamentos da Igreja, sobre a origem da vida

Na Encíclica “Fides et ratio” (1998), o Papa São João Paulo afirma que “a fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou, no coração do homem, o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, conhecê-Lo, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio”. O Papa estimula um diálogo honesto e aberto entre a fé e a ciência, e que não pode haver contraposição, pois buscam a verdade e, de modo diferente, devem chegar a Deus. Graças à investigação científica, compreendemos muito melhor a grandeza do universo e a presença de Deus. A Igreja Católica é “apaixonada” pelas diversas ciências.

A teoria da evolução é um tema relevante nos debates em torno da vida e mais especificamente, do início da vida humana, e envolve questões científicas, filosóficas e teológicas, cada uma com sua especificidade e autonomia. Deve-se haver uma aproximação entres os diferentes campos de investigação sem a sobreposição de um sobre o outro. Não podemos fazer uma leitura materialista e redutiva nem mesmo leituras espiritualistas sobre a origem do ser humano. A Igreja acredita que não existe, a priori, contraposição entre fé e a ideia da evolução, ainda que o Papa Bento XVI não compartilhe das teorias que explicam a existência da humanidade só como resultado do acaso e que, para São João Paulo II, Darwin não bastasse para explicar a origem do homem. No entanto, as autoridades religiosas encorajam um diálogo franco e respeitoso com os saberes e a cultura científica do nosso tempo.

O que a Igreja diz sobre a teoria da evolução

Foto Ilustrativa: altmodern by Getty Images

Em sua Encíclica “Humani generis” (1950), Pio XII afirmava que “o magistério da Igreja não proíbe que nas investigações e disputas entre homens doutos de ambos os campos se trate da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente (pois a fé nos obriga a reter que as almas são diretamente criadas por Deus), segundo o estágio atual das ciências humanas e da sagrada teologia, de modo que as razões de uma e outra opinião, isto é, dos que defendem ou impugnam tal doutrina, sejam ponderadas e julgadas com a devida gravidade, moderação e comedimento”.1 Pio XII encorajava um confronto “sério, moderado e temperado”, porém, o Pontífice insistia em afirmar que “a fé católica manda defender que as almas são criadas imediatamente por Deus no momento da concepção”.

Com os avanços científicos, as novas descobertas neste campo e a exegese bíblica, levam ao reconhecimento da teoria da evolução como mais do que uma hipótese. Esta teoria tem sido mais aceita pelos pesquisadores, fundamentados em uma série de descobertas em vários campos do conhecimento e com argumentos significativos na defesa dessa teoria.

O que disse os papas?

Em 22 de outubro de 1996, São João Paulo II fez um discurso na Pontifícia Academia das Ciências afirmando que a evolução “já não era uma mera hipótese, mas uma teoria”. O Papa declarou que a Igreja estava interessada diretamente na questão da evolução, porque esta influi na concepção do homem, “sobre o qual a Revelação mostra que foi criado à imagem e semelhança de Deus”. Continua o Papa: “Não basta a evolução das espécies para explicar a origem do gênero humano, como não basta a casualidade biológica para explicar por si só o nascimento de uma criança”.

Papa Bento XVI afirma que chegamos à fé por meio da razão, apoiando o diálogo entre fé e ciência. O Pontífice não concorda, no entanto, com o evolucionismo radical. Em visita à Alemanha, em setembro de 2006, criticou o que chamou de “essa parte da ciência que se empenha em buscar uma explicação do mundo na qual Deus é supérfluo”. Joseph Ratzinger considerou, na ocasião, “irracionais” as teorias que consideram a existência da humanidade um “resultado do acaso” e destacou que, para os cristãos, “Deus é o criador do céu e da terra, e que para entender a origem do mundo é preciso ter Deus como ponto de referência”.

Para Bento XVI, a fundação do cosmos e sua evolução estão na sabedoria divina, isto é, “não quer dizer que a criação só tem a ver com o começo do mundo e da vida”…, implica também que Deus abarca essa evolução e a apoia, a sustenta continuamente, completou o Papa na Pontifícia Academia das Ciências. Para o Papa não há oposição entre “a fé da compreensão da criação e a evidência empírica da ciência”. Em uma homilia do Papa Bento XVI, na Solenidade da Epifania do Senhor, quinta-feira 6 de janeiro de 2011, lemos: “Não deveríamos deixar limitar a nossa mente por teorias que chegam apenas a um certo ponto e que, se olharmos bem, não estão de modo algum em concorrência com a fé, mas não conseguem explicar o sentido derradeiro da realidade. Na beleza do mundo, no seu mistério, na sua grandeza e na sua racionalidade não podemos deixar de ler a racionalidade eterna, e não podemos deixar de nos fazer guiar por ela até ao único Deus, Criador do céu e da terra”.

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O que podemos concluir?

Sabemos que a Bíblia não pretende explicar cientificamente a criação do mundo. Os relatos do Gênesis são uma história religiosa que fala de todas as criaturas, que afirma que todas têm origem em Deus e na Sua palavra criadora.

A Igreja reconhece a existência de um processo evolutivo, mas também insiste em afirmar “o envolvimento de Deus” nesse processo. Para a Igreja, ter fé não significa ser contra a teoria da evolução, desde que seja entendido que esta evolução foi querida por Deus, programada e executada por Ele. Podemos falar de projeto inteligente de Deus, ou seja, a inteligência divina fez com que as coisas mudassem com a intervenção de Deus direta, gradual, pedagógica e providencial.

O magistério católico não aceita a teoria da eternidade do universo, pois faria dele um absoluto, um deus. Só Deus é eterno; só Deus não teve começo e não terá fim. O eterno é perfeito, não evolui. O universo evolui, teve início e terá fim. Admitimos um evolucionismo teísta, ou seja, que tem Deus como origem, condução e fim. Deus revela-se na criação. É bom e útil para nós deter-nos a contemplar a grandeza e as maravilhas de Deus nas suas obras pequenas e grandes. Devemos compreender que admitir a evolução não significa não acreditar na alma humana, imortal e racional, criada diretamente por Deus e colocada no momento da concepção do ser humano.

A Igreja entende a visão científica da evolução como “causas materiais”. A teoria da evolução, por exemplo, explica como as espécies vieram a ser e como, em determinados contextos, elas deixaram de ser. Como o Papa João Paulo II observa, na mensagem à Pontifícia Academia das Ciências, a teoria da evolução não explica a natureza do ser humano, dotado de uma alma intelectual que anseia por sobreviver à morte do corpo. A natureza do ser humano é mais que biológica, vai além do material. Entender o ser humano na complexidade de sua natureza que não se reduz à matéria é tarefa da filosofia e da teologia, e não dos cientistas. A teoria científica da evolução não oferece explicações da iniciativa de um Deus que cria o cosmos por amor, a partir do nada. Origem da matéria é uma coisa, porém da alma é tema da filosofia e teologia.

Toda teoria científica que nega a imaterialidade da alma humana ou que afirma que a teoria da evolução exclui a noção de um Deus criador não está de acordo com a fé católica, tanto no campo científico quanto no filosófico e no teológico. A Igreja está sempre aberta ao diálogo com as teorias da evolução que ajudam a explicar os aspectos materiais do universo.

1 Cf. Alocução à Academia das Ciências, 30 nov 1941; AAS, 33(1941), p.506.


Padre Mário Marcelo

Mestre em zootecnia pela Universidade Federal de Lavras (MG), padre Mário é também licenciado em Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque (SC) e bacharel em Teologia pela PUC-RJ. Mestre em Teologia Prática pelo Centro Universitário Assunção (SP). Doutor em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana de Roma/Itália. O sacerdote é autor e assessor na área de Bioética e Teologia Moral; além de professor da Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP). Membro da Sociedade Brasileira de Teologia Moral e da Sociedade Brasileira de Bioética.

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