Ambiente familiar

Como construir um aconchego familiar em tempos sombrios?

Como construir um aconchego familiar em tempos sombrios, ou seja, diante desse cenário de pandemia e incertezas que estamos vivendo?

O mundo está vivendo algo nunca esperado pela geração atual. Acostumada com a facilidade que se obtém as coisas e a ênfase no ter, de repente essa pandemia obriga todos a se isolar, o que diminui drasticamente o processo compulsivo de comprar, competir e viver a exterioridade. A família é chamada a conviver, partilhar e interiorizar-se.

Como construir um aconchego familiar em tempos sombrios

Foto Ilustrativa: by Getty Images / RgStudio

Esse vírus foi mais letal nas relações familiares do que na saúde – claro que muitas vidas foram dizimadas, e junto com isso o sentimento de nunca ter tempo para aqueles que morreram, e hoje são percebidos como importantes. Somado a isso, as pessoas estão sendo confrontadas com a finitude da vida e a impossibilidade de realizar rituais que ajudam no luto; por outro lado, pode ser usado como um momento de grande aprendizado. Num mundo onde as mulheres são chamadas a trabalhar, muitas estão aprendendo a fazer uma pequena refeição para os filhos. Estes, acostumados a ter tudo na mão, estão aprendendo a realizar tarefas domésticas e a valorizar as pessoas que sempre fizeram isso por eles. Os homens, acostumados a não assumir a rotina doméstica, podem descobrir a importância de brincar ou ensinar um dever para o filho.

Aconchego da presença

Talvez o maior benefício dessa pandemia seja que as famílias estão sendo obrigadas a descobrir o verdadeiro conceito de “família”. O excesso de horas fora de casa foi substituído pelo aconchego da presença. Só que muitas famílias não estavam acostumadas a relacionar-se, por isso descobriram que são estranhos vivendo juntos. Diante dessa realidade, dois caminhos são considerados: abandonar tudo e recomeçar individualmente, deixando um rastro de dor e desamor, ou enfrentar a verdadeira face da família e reconstruir juntos aquilo que foi prometido no altar: na saúde e na doença, na alegria e na tristeza.

Para aqueles que querem recomeçar, está constado que as pessoas que desenvolvem uma espiritualidade têm mais armas para enfrentar esse momento, as pesquisas mostram que quanto mais você tiver envolvimento religioso, menor são as possibilidades de depressão, suicídio e problema com drogas. Portanto, é um momento propício para as famílias participarem juntas de programas que envolvem esse tema, além de desfrutar da companhia um do outro. A atividade de participar de uma Missa pela TV, ler a Bíblia e fazer orações em família, cria vínculos e aumenta a resistência diante do sofrimento.

Pensar na imortalidade ajuda-nos a redefinir prioridades, e Deus pode ser descoberto nessa nova definição. A Psicologia tem ajudado muitas famílias a socializar-se, a descobrir que o bem-estar familiar faz-nos sentir felizes. Tente lembrar-se de um momento muito feliz da sua vida e verá que foi quando se sentiu amada por você ou por outras pessoas. Aprender a curtir os momentos de isolamento em família pode ser mais uma lição de vida, porque o engajamento familiar num jogo, numa atividade de organização ou num propósito de vida traz o sentimento de felicidade, lembrando que ninguém é feliz permanente. Aconchegar é abraçar, acolher a fala, dar conforto ao outro, agasalhar quando o frio entra na alma e propiciar bem-estar. Não há fórmulas, cada um descobre como fazer no cotidiano.

Leia mais:
.: Pais e filhos: cultive os bons hábitos para o amadurecimento pessoal
.: Como viver a virtude da esperança em meio à pandemia
.: O que podemos aprender com a pandemia?
.: Home Office, saúde e equilíbrio: o que fazer?

Aconchegue os seus

Amigos que também vivem o isolamento têm encontrado, nestes tempos difíceis, momentos para conversar pelo telefone e redescobrir aqueles que o tempo tinha encarregado de separar. Isso mostra para os filhos a importância de ter uma visão mais ampliada e ajudar quem precisa. Sabemos que as aulas on-line trouxeram um estresse e um trabalho extra para os pais, mas como é gostoso vê-los conversando sobre as tarefas dos filhos, mesmo que isso custe menos horas de sono. Os pais estão sendo obrigados a enfrentar o isolamento dos filhos no celular, e o que era motivo de sossego, agora percebe-se que a dependência deles aos jogos é preocupante.

Tempos sóbrios sempre existiram e vão continuar a acontecer; alguns irão sucumbir e outros se fortalecerão, a diferença sempre é baseada na atitude que cada um toma diante das situações. Sua casa pode ser um inferno ou um céu, depende de como você está reagindo diante das situações. A decisão de desenvolver laços familiares, cuidar um do outro, dividir brincadeiras, comprometer-se com as tarefas de casa, responsabilizar-se para ajudar o outro a ser feliz, aproveitar para construir relações amáveis e, diante de tantas incertezas, tornar o lar um porto seguro para si e para os outros, pode mudar a realidade de muitos lares. Não podemos mudar tudo o que está acontecendo no mundo, mas podemos aconchegar os nossos para que cada possa ser e fazer o outro mais feliz, e também aqueles que podemos ajudar. Essa decisão é sua e de mais ninguém.


Angela Abdo

Mestre em Ciências Contábeis pela Fucape, pós-graduada em Gestão de Pessoas pela FGV, Gestão de Pessoas pela Faesa, graduada em Serviço Social pela Ufes e psicanalista. Consultora e Executiva na área de RH e empresa hospitalar. Foi coordenadora do grupo fundador do Movimento Mães que Oram pelos Filhos da Paróquia São Camilo de Lellis, em Vitória (ES) e do grupo de Amigos da Canção Nova de Vitória. Atualmente, é coordenadora nacional e internacional do Movimento Mães que Oram pelos Filhos. Escritora dos livros “La Salette, o grito de uma Mãe!” (2018), “Superação x Rejeição: Aprendendo a ser livre” (2017), “Ser Mulher À Luz da Bíblia: Porque Deus Pode Tudo!” (2016) e “Mães que Oram pelos Filhos” (2016). Participa do programa “Papo de Mãe que Ora”, no canal Mães que Oram pelos Filhos Oficial, e do “Mães que Oram pelos Filhos”, na Rádio América.  Autora de livros publicados pela Editora Canção Nova.

comentários