bem comum

Homens e mulheres comprometidos com a civilidade

É preciso resgatar a civilidade

No passado era muito comum ouvir elogios destinados às pessoas reconhecidamente civilizadas, qualidade que define homens e mulheres comprometidos com a conduta ilibada e honesta, dedicados ao exercício da cidadania de forma admirável. Importante sublinhar: ser civilizado não é apenas dominar o conjunto de formalidades e etiquetas exigidas em certos ambientes. Trata-se de, orientar a própria conduta a partir de parâmetros humanitários cultivados na consciência humana. E é, exatamente, esse sentido de civilidade que está faltando na sociedade contemporânea.

Foto: fotostorm by Getty Images

Assim, a cidadania fica comprometida, pois há carência de um sólido embasamento antropológico, para o exercício da civilidade. Falta clareza a respeito da origem, destino e missão de todo ser humano, da responsabilidade de cada um na construção de uma sociedade justa e fraterna.

Busca do bem comum

Os acelerados avanços tecnológicos, não são acompanhados pelo cultivo da civilidade. As muitas oportunidades para intercâmbios, partilhas de informações e a beleza de poder se comunicar com pessoas diferentes, em todo o mundo, coabitam com equivocados modos de agir do ser humano, que se mostra descomprometido com a tarefa de compor e integrar equipes, de formar laços para trilhar um itinerário em busca do bem comum.

A perda de civilidade alimenta a delinquência, que toma conta das muitas dinâmicas da sociedade contemporânea, manifestando-se de diferentes maneiras e intensidades. Contempla a loucura dos atiradores que avançam sobre multidões, os atentados terroristas, a incontrolável violência dos contextos urbanos e, também, os diferentes “assaltos” ao erário, praticados por quem busca a satisfação doentia de aumentar o patrimônio com aquilo que pertence ao povo.

Civilização do amor

Um tipo de conduta que torna ainda mais distante o sonho de alcançar a civilização do amor. Aspiração que, para se tornar realidade, depende da eficácia de processos educativos fundamentados em princípios antropológicos capazes de possibilitar o reconhecimento do verdadeiro sentido da vida no contexto contemporâneo. Se a vida perde sentido, a liberdade é exercida para alimentar delinquências. Prevalece o “vale tudo”, com as conveniências egoístas que desconsideram a existência das outras pessoas, particularmente dos mais pobres, indefesos e inocentes.

Nesse cenário, perde-se a noção de pátria e de pertencimento. Muitos passam a considerar retrógrados os princípios e valores que sustentam a civilidade. Acham-se no direito de passar por cima de tudo para alcançar, mesquinhamente, certos interesses. Uma postura que gera incompetência para a vida em coletividade, perdendo-se muitas oportunidades para a qualificação da cidadania. A própria liberdade torna-se ameaçada, pois no “vale tudo”, a premissa do respeito mútuo é desconsiderada.

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Incivilidade

Perde-se a segurança de ir e vir, a capacidade para se relacionar, harmonicamente, com o semelhante; e particularmente o compromisso de dedicar-se à solidariedade. Esse fenômeno preocupante da perda do sentido de civilidade, gera ainda a incapacidade para ouvir críticas, ou mesmo elaborá-las com o objetivo de promover mudanças que signifiquem aprimoramento. Aos poucos, convive-se com a superficialidade de uma sociedade, que ocupa território de riquezas extraordinárias, mas não sabe o que fazer para promover o bem de todos. A incivilidade na sociedade brasileira atrasa novos passos, a saída das crises, mata alegrias e esperanças.

Por isso, é preciso recuperar a civilidade aprendida nos lares, e cultivada nas muitas escolas da vida. Sem civilidade, não há valorização do amor como norma suprema na vida social, nos âmbitos político, econômico e cultural e nem os gestos que levam em consideração o respeito às diferenças, às pessoas, aos momentos e aos ritos. O esquecimento da civilidade permite as discriminações e a confirmação de elitismos que envenenam a sociedade.

É preciso resgatar a civilidade, seu conjunto de normas e práticas, que contribui para modular consciências, o caminho para qualificar as relações humanas, viver como autodoação em benefício da sociedade, autênticos servidores e cidadãos comprometidos. É preciso trabalhar muito, dos pequenos gestos à nobreza de grandes atos, para se resgatar a civilidade.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br

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