🌳 Amadurecimento

A arte de envelhecer: do descarte ao crescimento interior

A  “cultura do descarte”, um problema que surge com o envelhecimento

Se perguntarmos para pessoas de diferentes idades o que vem à mente quando ouvem sobre envelhecimento, o mais provável é que boa parte das respostas sejam relacionadas com: perda de utilidade, declínio de vigor, perda de beleza, desaceleração, lentidão ou esquecimento. O mundo contemporâneo, obcecado pela atividade, velocidade, produtividade contínua e por uma estética de juventude perpétua, parece não ter consciência da passagem do tempo.

Crédito: Joyce Diva by Getty Images.

O Papa Francisco denunciou, com muita lucidez, o fenômeno denominado “cultura do descarte”, cuja essência é a mentalidade utilitarista que tende a avaliar seres humanos como avalia objetos e sua utilidade. O que já não produz com a eficiência desejada, o que exige um pouco mais de cuidado ou o que desacelera corre o risco de ser empurrado para a invisibilidade.

A existência humana: a reduzi-la à sua utilidade e a capacidade de produção

No entanto, haverá forma mais empobrecida de olhar para a existência humana do que reduzi-la à sua utilidade e questionada capacidade de produção?

Há, entretanto, uma maneira de olhar para a vida por outra perspectiva: é bem antiga, mas muito atual. No livro de Eclesiastes (3,1-8), um poema de beleza atemporal nos lembra que “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de colher o que se plantou”. O tempo não é um inimigo que nos consome, mas é o tecido onde nossa história é bordada. O envelhecimento não é um defeito, erro de percurso ou um desmonte gradual, mas o resultado na natureza com a oportunidade de amadurecimento, contribuição social pela experiência, o tempo para a colheita do ser humano.

O leme e a força discreta do piloto

No ano de 44 a.C., o pensador romano Marco Túlio Cícero escreveu o clássico ensaio Saber Envelhecer. Nessa obra, Cícero defendia a maturidade e rebatia os preconceitos de quem acreditava que os mais velhos não tinham papel na vida pública e para ilustrar o seu argumento, ele recorreu a uma metáfora interessante: a navegação.

A ideia era imaginar um grande navio enfrentando o mar. No convés, os marinheiros jovens correm ruidosamente, sobem pelos mastros, manuseiam as velas e puxam as cordas pesadas, aplicando força física e agilidade. No entanto, em um determinado local da embarcação, abrigado e em silêncio, encontra-se o velho piloto. Ele não faz o trabalho braçal, mas é ele quem segura o leme. É sua mão, guiada pela experiência e pela serenidade, que decide o rumo do navio diante da tempestade.

A lição permanece muito atual: a maturidade não nos afasta da ação, mas altera a natureza da nossa contribuição. Saímos do domínio da força física e agilidade para o discernimento, autoridade moral e conselho. O vigor da juventude pode até mover as velas, mas é a sabedoria que governa o leme.

A fenologia e a arte de “crescer para dentro”

Se olharmos para a natureza, a biologia nos oferece um conceito inspirador: a fenologia, o estudo dos ciclos biológicos dos seres vivos e de como eles se articulam com o ritmo das estações do ano. Uma árvore não tenta produzir frutos na primavera, porque sabe que aquela é a hora de desabrochar em flores; tampouco se desespera ao perder as folhas no outono.

Pensemos na imagem de uma árvore durante o inverno. Para o observador apressado, ela pode parecer morta, seca e desprovida de utilidade. A cultura do descarte diria que ali já não há vida. No entanto, o olhar da ciência sabe exatamente o que acontece naquela fase: sem a necessidade de gastar energia expandindo folhas e galhos para fora, a árvore realiza o movimento mais vital da sua existência: ela cresce para dentro.

No inverno, as raízes da árvore se aprofundam na terra, buscam água e nutrientes em locais mais profundos e se fixam com maior firmeza no solo. É um crescimento invisível, interior e silencioso durante o inverno que garante que a árvore permaneça firme diante das intempéries e volte a florescer no momento oportuno.

A maturidade e o envelhecimento são o nosso inverno existencial. Longe de ser uma fase de escassez, esse momento da vida é um convite para o crescimento interior. Um tempo para aprofundar as raízes no autoconhecimento, na espiritualidade, no cultivo das memórias e na celebração dos afetos essenciais.

Não nascemos prontos: o impulso vital da transformação

Uma das armadilhas mais comuns da longevidade é a resignação expressa em frases como “já estou velho demais para mudar” ou “eu nasci assim e morrerei assim”.

Mário Sérgio Cortella, no texto, Não Nascemos Prontos!, faz um alerta importante sobre essa ilusão. Coisas e objetos saem da fábrica prontos e, a partir daí, apenas se desgastam até virarem sucata. Seres humanos, no entanto, não são objetos. Nós não nascemos prontos; nós fomos feitos para o inacabamento e vamos nos construindo ao longo de toda a jornada.

Essa intuição filosófica encontra eco direto na Psicologia Humanista desenvolvida por Carl Rogers, por meio do conceito de Tendência Atualizante. Rogers identificou que existe, em todo organismo vivo, uma força inata e subterrânea que o empurra em direção ao desenvolvimento, à autonomia e à realização das suas potencialidades.

Essa força não se aposenta nem se apaga com a idade. O corpo pode desacelerar os seus passos, mas o impulso de se atualizar permanece intacto. Na maturidade, essa tendência apenas muda o seu foco de orientação, deixando de priorizar conquistas externas, tais como títulos, status social ou acúmulo material para se concentrar na integração da própria história. A tendência atualizante se expressa no idoso que decide aprender algo novo, tocar um instrumento, que se dedica à leitura, que se reconcilia com o passado por meio do perdão ou que se dispõe a ouvir e orientar as gerações mais jovens.

O resgate do sentido e a grande pergunta

Existe um momento inesquecível no filme O Resgate do Soldado Ryan que sintetiza a angústia e a nobreza da busca por sentido no envelhecimento. Nesse filme, que foi ambientado na Segunda Guerra Mundial, um capitão morre em combate para salvar a vida de um jovem soldado chamado James Ryan. Nos seus últimos momentos de vida, o capitão se aproxima do rapaz e sussurra uma orientação que soa como um testamento existencial: “Faça por merecer”.

Anos mais tarde, o filme nos transporta para o presente e mostra Ryan idoso, de cabelos brancos, caminhando entre as cruzes de um cemitério militar na Normandia. Parado diante do túmulo do homem que deu a vida por ele, tomado por uma emoção profunda, o velho Ryan se vira para a esposa e faz uma pergunta carregada de significado: “Diga-me que eu fui um bom homem”.

Essa cena toca em um ponto fundamental da condição humana. Na juventude, a nossa pergunta interior costuma ser: “O que eu vou conquistar?”. Na maturidade, a pergunta muda, e passa a ser: “Quem eu me tornei?” e “Como honrei o tempo que me foi concedido?”.

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O envelhecimento não é o fim da vida; é o privilégio de crescer para dentro

A velhice não precisa ser um período de resignação passiva perante o tempo. Como nos ensina a sabedoria de Eclesiastes, há uma estação apropriada para cada dimensão da vida. Contra a lógica do descarte, cabe-nos reafirmar a dignidade inalienável de cada história vivida.

A juventude é um presente oferecido gratuitamente. Mas uma maturidade lúcida, serena e consciente é uma obra de arte construída quando não tememos o inverno, quando permitimos que as nossas raízes se aprofundem no solo da existência e quando assumimos o leme da nossa história. O envelhecimento, afinal, não é o fim da vida; é o privilégio de crescer para dentro.

Prof. Dr. Antônio Siqueira
Casado, logoterapeuta, palestrante e especialista em Counseling, Mentoring e Análise Existencial.