Redes sociais

Por que adolescentes se submetem a desafios perigosos na internet?

Os adolescentes querem pertencer, encontrar um lugar no mundo, sentir que fazem parte de algo e considerar-se entre seus pares

Isso não é propriamente uma novidade dos adolescentes da geração atual. Cada geração atravessou a adolescência buscando referências para construir sua identidade, experimentando limites, questionando valores adquiridos e explorando aquilo que ainda desconhecia.

Crédito: nadia_bormotova/GettyImages

O que mudou foi o território onde a parte importante dessa experiência acontece

Se, para muitos pais, a juventude foi vivida predominantemente na rua, na escola, na praça, na igreja ou na casa dos amigos, hoje, uma parcela significativa das relações também acontece no ambiente digital. O grupo não termina quando o adolescente chega em casa. Ele continua no celular, nas redes sociais, nos jogos, nos vídeos e nas inúmeras comunidades às quais ele pode ter acesso.

Por isso, quando nos perguntamos por que um adolescente se submete a um desafio ou a riscos absurdos na internet, essa pergunta nos convida a olhar para além do comportamento em si. Ao perguntar “por que ele faria uma coisa disso?”, precisamos compreender também: o que ele acredita que poderá encontrar ao fazer isso?

Muitas vezes, a resposta é em algo profundamente humano: pertencimento, reconhecimento e validação.

A adolescência constitui um período particularmente especial às relações sociais. A influência dos pares ganha força, e ser aceita ou rejeitada pelo grupo pode adquirir um peso muito grande nas decisões. Pesquisas em Psicologia do Desenvolvimento e Neurociência mostram, inclusive, que a presença e a avaliação dos pares podem aumentar a sensibilidade do adolescente às recompensas e influenciar sua disposição para assumir riscos. Isso não significa que o adolescente seja incapaz de pensar ou compreender consequências; significa que suas decisões são especialmente atravessadas pelo contexto social e emocional.

É justamente aí que o ambiente digital encontra um terreno fértil.

Quando o like significa mais do que um like

Uma curtida parece algo pequeno, por exemplo. Para quem está construindo sua identidade, entretanto, ela também pode funcionar como um sinal social: “viram você”, “aprovaram você”, “você pertence”. Isso, por sua vez, gera no adolescente uma recompensa que alimenta esse ciclo.

Antes, certos limites eram experimentados diante de um grupo relativamente pequeno. Hoje, um adolescente pode ultrapassar um limite diante de centenas, milhares ou até milhões de pessoas. Aquilo que começou como brincadeira pode permanecer registrado, ser compartilhado, transformado em constrangimento ou levar à necessidade de ir ainda mais longe para continuar recebendo a mesma atenção.

É nesse ponto que o desejo de pertencer pode encontrar o risco.

O grupo também ajuda a construir uma identidade

Durante a adolescência, ocorre um importante movimento de diferenciação em relação aos pais e de aproximação dos pares. O jovem começa a perguntar: Quem sou eu? Em que eu acredito? A qual grupo eu pertenço? Que tipo de pessoa quero me tornar?

É natural que os amigos adquiram importância. O problema surge quando o adolescente encontra no grupo, sobretudo em determinados ambientes digitais, sua única fonte de reconhecimento e referência.

Se você exigir limites constantes, aquilo que inicialmente causa desconforto pode, progressivamente, ser normalizado.

Podemos pensar, por exemplo, no contato com conteúdos pornográficos. Alguns adolescentes chegam a esse universo movido pela curiosidade, pela exposição acidental, pela descoberta distorcida da sexualidade ou até mesmo pela influência de seus pares. Em alguns casos, esse contato pode evoluir para padrões problemáticos de consumo, associados a diferentes fatores psicológicos e sociais, podendo gerar sofrimentos e prejuízos em diferentes áreas da vida, além de prejudicar sua dignidade humana.

O exemplo é importante porque revela algo maior: uma curiosidade pode abrir uma porta antes mesmo que o adolescente tenha recursos suficientes para compreender aquilo que encontra do outro lado. E isso vale para pornografia, desafios perigosos, exposição excessiva da intimidação, apostas, comportamentos autolesivos, consumo de substâncias ou outras experiências que possam circular e ganhar força nos grupos digitais.

Por isso apenas proibir dificilmente responde a toda a questão.

O jovem precisa encontrar um lugar antes que a internet lhe ofereça qualquer lugar

Família, escola, líderes religiosos e demais adultos de referência possuem aqui uma responsabilidade importante. Se queremos adolescentes capazes de dizer “não” diante de determinados convites, precisamos ajudá-los, muito antes desses convites aparecerem, a construir critérios para escolher — “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” (1Cor 6,12).

Isso passa pela formação de valores, caráter, responsabilidade, autonomia, capacidade crítica e, sobretudo, por vínculos seguros.

Aqui, as relações familiares participam desse processo e podem atuar tanto como fatores de risco quanto de proteção. Talvez precisemos conversar menos com nossos adolescentes somente depois que algo dá errado e conversar mais enquanto eles ainda estão tentando compreender o mundo.

Uma família que transmite valores não precisa ser uma família em que o jovem nunca “questiona”. Pode ser justamente aquela em que ele sabe que pode contar e até assumir um erro sem perder seu lugar dentro de casa.

Porque, no fundo, muitos adolescentes não estão procurando o “perigo” pelo perigo. Estão procurando reconhecimento, identidade, conexão e um lugar ao qual possam pertencer.

E talvez essa seja uma das tarefas mais importantes dos adultos diante da juventude contemporânea: não apenas ensinar aos jovens quais lugares devem ser evitados, mas ajudá-los a construir dentro de critérios suficientemente sólidos para reconhecer quais lugares merecem ser ocupados.

Porque, muitas vezes, eles não mergulham nesse mundo porque acreditam que ali é o seu lugar. Mergulham porque ainda não encontraram um lugar em que sintam que cabem.