Obras de misericórdia e cuidado com o enfermeiro
No dia 21 de setembro, o mundo volta sua atenção para o Dia Mundial de Conscientização do Alzheimer , um dado essencial para lançarmos luz sobre as demências e compreendermos a importância do diagnóstico precoce. No Brasil, estimativas do estudo ELSI-Brasil apontam que aproximadamente 83,1% dos idosos que preenchem critérios para demência não possuem um diagnóstico médico prévio. Esses altos índices de subdiagnóstico demonstram a urgência de educar a sociedade e as famílias sobre a identificação dos primeiros sinais da doença.

Foto ilustrativa: Daniela Jovanovska-Hristovska por Getty Images
Para nós cristãos, cuidar daqueles que enfrentam a perda da memória e das capacidades cognitivas vai além de um dever de saúde pública: é uma vivência concreta do Evangelho. Na doutrina católica, o acolhimento ao idoso enfermo e o suporte aos seus cuidadores traduzem o cumprimento da obra de misericórdia corporal de “visitar e cuidar dos enfermos”, enxergando a dignidade da pessoa humana em todas as fases da vida.
Os sinais iniciais do Alzheimer: entender para diagnosticar
O envelhecimento traz transformações naturais ao corpo e à mente. No entanto, existe uma confusão frequente ao acreditar que qualquer perda de memória ou confusão mental seja “coisa da idade”. É fundamental: o declínio cognitivo associado ao Alzheimer não é parte normal do envelhecimento. O envelhecimento saudável (senescência) acontece com todos os idosos em maior ou menor grau, mas o Alzheimer e outras demências afetam indivíduos específicos — logo, são patologias que desabilitam investigação e cuidado.
Para auxiliar os familiares e cuidadores a identificar a necessidade de uma avaliação médica, destaque-se os principais sinais iniciais da doença:
• Falas e perguntas repetidas: o idoso faz a mesma pergunta ou repete a mesma história várias vezes em um curto espaço de tempo, esquecendo-se do que acabou de fazer aquele comentário.
• Esquecimento de fatos e compromissos recentes: Uma pessoa não registra o que comeu no almoço, os recados recém-recebidos ou os compromissos agendados para o dia, embora possa se lembrar, com riqueza de detalhes, de fatos ocorridos há décadas.
• Esquecimentos que impactam a rotina: Pequenas falhas de memória começam a prejudicar a autonomia, como esquecer o fogão ligado, errar o pagamento de contas ou perder-se em caminhos antes conhecidos.
• Dificuldade para realizar tarefas habituais: o idoso passa a ter complicações para executar atividades que antes fazia com facilidade e rapidez, como manusear aparelhos domésticos, seguir uma receita tradicional ou vestir-se de forma adequada.
Ao notar a presença contínua desses sinais, o encaminhamento para um médico geriatra, neurologista ou psicogeriatra torna-se indispensável para a realização de uma avaliação multidimensional.
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A importância do diagnóstico precoce na qualidade de vida
Procurar ajuda médica aos primeiros sinais de doença traz benefícios para o idoso e sua família. O diagnóstico precoce permite:
- Tratamento Medicamentoso e Não Medicamentoso: Uma instituição de terapias farmacológicas e de disciplinas como a estimulação cognitiva e exercícios físicos ajuda a desacelerar a progressão dos sintomas e preservar a funcionalidade por mais tempo.
- Planejamento Familiar e de Cuidados: Permite que uma família organize uma rotina de assistência, adapte o ambiente doméstico para evitar quedas e acidentes e planeje o suporte financeiro e jurídico com antecedência.
- Reserva de Autonomia e Vontades do Idoso: Quando o diagnóstico é feito na fase inicial, o próprio idoso pode participar das decisões sobre o seu futuro, impondo suas preferências de cuidados e diretrizes antecipadas de vontade.
A visão cristã do acolhimento ao enfermo e ao cuidador
Diante do avanço do Alzheimer, a fé cristã nos convida a contemplar o mistério da vida e o valor inalienável de cada ser humano. Mesmo quando a memória falha e as lembranças do passado parecem se apagar, a identidade da pessoa diante de Deus permanece intacta. O idoso enfermo continua sendo um templo do Espírito Santo, merecedor de amor, paciência e até dignidade no seu último suspiro.
O Papa Francisco reforçava, com frequência, que “os idosos são um tesouro na sociedade” e nos alertava contra a “cultura do descarte”. Cuidar de um familiar com demência é uma oportunidade de exercer a gratidão e a gratuidade, devolvendo o afeto recebido ao longo de gerações. Entretanto, a Igreja também lança seu olhar compassivo sobre os cuidadores familiares e profissionais. A literatura científica demonstra que uma rotina prolongada de cuidados gera altos níveis de sobrecarga física e estresse emocional. Muitas vezes, o cuidador enfrenta sentimentos de solidão, tristeza e esgotamento .
A comunidade cristã e a sociedade devem atuar como redes de apoio para esses cuidadores, oferecendo ajuda prática, momentos de descanso, escuta empática e oração. Validar as dificuldades de quem cuida e oferecer ajuda concreta nas tarefas do dia a dia é também uma forma sublime de viver a caridade cristã.
Que este Dia Mundial de Conscientização do Alzheimer nos motiva a superar o preconceito, a buscar o diagnóstico precoce e renovar nosso compromisso com o Acolhimento fraterno a todos os enfermos e aos que se dedicam a cuidar deles.
Referências
• BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa . 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. • FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Lígia (organizadora). Tratado de Geriatria e Gerontologia . 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
• GOMES, Hévila Nascimento; BEZERRA, Maria Iracema Capistrano. A percepção do cuidador sobre a atuação do fisioterapeuta no atendimento domiciliar de pacientes acamados. Revista Fisioterapia & Saúde Funcional , Fortaleza, v. 2, pág. 23-32, atrás./dez. 2016.
• MATTOS, Emanuela Bezerra Torres; OLIVEIRA, Jéssica Paloma; NOVELLI, Márcia Maria Pires Camargo. As demandas de cuidado e autocuidado na perspectiva do cuidador familiar da pessoa idosa com demência. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia , Rio de Janeiro, v. 3, e200189, 2020.
• MIGUEL, Andrew Christopher Claro et al. Desigualdades no Diagnóstico de Demência: Evidências do Estudo ELSI-Brasil. In: Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil). Osasco, 2024.
• ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). ICOPE: Manual de cuidados integrados para idosos: Orientações para avaliação centrada na pessoa e percursos nos cuidados primários . 2. ed. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 2024.







