Eleições e sacerdócio

O padre pode entrar na política?

Antes de tudo, é preciso deixar uma coisa clara: a Igreja não proíbe o padre de se interessar pela vida política

Pelo contrário. Um padre precisa conhecer a realidade do seu povo, preocupar-se com a justiça, com os pobres, com a dignidade da pessoa humana e com o bem comum. O problema começa quando se deixa de ser pastor de todos para se tornar homem de partido, candidato ou agente direto do poder político.

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O próprio Direito Canônico coloca limites muito claros nesse sentido

O cânon 285 §3 determina que os clérigos não assumam cargos públicos que impliquem participação no exercício do poder civil. O cânon 287 §2 acrescenta que eles não devem tomar parte ativa em partidos políticos, salvo alguma situação excepcional em que a autoridade eclesiástica competente julgue isso necessário para a defesa dos direitos da Igreja ou para a promoção do bem comum. Portanto, a regra da Igreja é bastante clara: o ministério sacerdotal e a militância político-partidária pertencem a esferas diferentes.

Mas eu gostaria de ir além da questão meramente canônica. O que me interessa aqui é perguntar pelo movimento interior que leva um sacerdote a desejar abandonar o exercício do ministério para entrar na política. E, antes disso, é importante recordar uma coisa fundamental: a Igreja não transforma aquele que foi ordenado sacerdote em um escravo. Deus não escraviza ninguém. Em Deus existe liberdade.

No Evangelho segundo São João, Jesus apresenta justamente essa imagem do pastor que entra pela porta, enquanto o ladrão e o salteador procuram entrar por outro lugar. E as ovelhas entram e saem. Há liberdade. A ação de Deus não aprisiona o homem interiormente; ao contrário, liberta-o.

Por isso, um homem é chamado ao sacerdócio livremente e também é chamado a permanecer no ministério livremente. A vocação não pode ser vivida apenas por medo, pressão ou obrigação externa – e isso precisa estar claro desde a formação inicial. Naturalmente, a ordenação sacerdotal deixa uma realidade sacramental permanente, a ordenação validamente recebida não simplesmente desaparece, mas isso não significa que a Igreja negue a liberdade concreta da pessoa. O próprio Direito Canônico prevê, em determinadas circunstâncias e por meio da autoridade competente, a perda do estado clerical.

A pergunta que me interessa, portanto, não é simplesmente: “Um padre pode deixar o ministério?”. Sabemos que existem situações em que isso acontece. A pergunta é outra: do ponto de vista espiritual e moral, quando faz sentido deixar o exercício do ministério sacerdotal?

Penso que a palavra fundamental aqui seja impossibilidade

Há situações humanas nas quais permanecer no ministério pode tornar-se verdadeiramente impossível ou extremamente difícil. Imaginemos, por exemplo, um sacerdote acometido por uma depressão gravíssima. Ele procurou ajuda médica, psicológica e espiritual, percorreu seriamente os caminhos razoavelmente disponíveis e, apesar disso, chegou a uma condição na qual o exercício diário do ministério representa para ele um sofrimento quase insustentável. Se a permanência naquela condição coloca seriamente em risco sua própria vida ou sua integridade, é evidente que isso precisa ser discernido com extrema seriedade. A vida da pessoa não pode ser tratada como algo secundário.

Outro exemplo poderia ser o de alguém que, depois de um longo processo de discernimento, percebe uma ruptura interior tão profunda com o exercício sacerdotal que sua permanência se torna humanamente insustentável. Poderíamos imaginar ainda outras situações graves. Cada história é uma história e precisa ser examinada concretamente, sem julgamentos fáceis.

Nesses casos, compreendo que se possa chegar à conclusão de que existe uma impossibilidade real de continuar exercendo o ministério. Mas aí chegamos justamente ao problema que quero discutir. Se um padre deixa o ministério para ser político, qual é exatamente a razão da saída? Porque são duas coisas diferentes. Uma coisa é perceber que não se consegue mais permanecer no ministério. Outra é dizer: “Vou deixar de ser padre para me tornar político”. Se o ministério sacerdotal se tornou realmente impossível para aquela pessoa, então ela provavelmente precisaria afastar-se dele ainda que nunca existisse a possibilidade de entrar na política. A impossibilidade deveria existir antes da nova profissão.

É por isso que o sacerdote precisa fazer uma pergunta muito séria a si mesmo: Por que estou deixando o ministério? Estou deixando porque realmente não consigo mais vivê-lo ou estou deixando porque surgiu outra coisa que agora me atrai mais? Essa diferença é enorme. Pode existir, por exemplo, a questão financeira. Evidentemente, seria injusto afirmar que todo padre que deseja entrar na política esteja procurando dinheiro. Não se pode julgar a intenção de alguém dessa maneira. Mas é uma possibilidade que a própria pessoa precisa examinar diante de Deus.

Se o dinheiro tiver se tornado uma motivação decisiva, vale recordar a advertência de Cristo: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida?”. E vale recordar também a parábola do rico e de Lázaro. O problema do rico não era simplesmente possuir bens, mas fechar-se de tal maneira em si mesmo que já não enxergava o homem pobre diante da própria porta. Dinheiro, prestígio e poder são coisas perigosas justamente porque conseguem apresentar-se ao coração humano com aparência de grandeza. Existe ainda outra justificativa possível. O sacerdote poderia pensar: “Como político eu conseguirei fazer muito mais pelo povo do que consigo fazer como padre”. Aqui, para quem possui verdadeiramente a fé católica no sacerdócio e na Eucaristia, surge um problema profundo.

O sacerdote precisa lembrar-se de quem ele é

Quando celebra a Eucaristia, ele não está realizando simplesmente uma cerimônia religiosa ou presidindo uma reunião comunitária. A doutrina da Igreja afirma que o sacerdote age in persona Christi Capitis, na pessoa de Cristo Cabeça. É Cristo quem age sacramentalmente por seu ministério. E, pela consagração, o pão e o vinho tornam-se verdadeiramente o Corpo e o Sangue do Senhor. Isso muda completamente a perspectiva. É claro que um político pode fazer coisas imensas. Pode criar políticas públicas, defender os pobres, melhorar hospitais, construir escolas, combater injustiças e contribuir profundamente para o bem comum. Tudo isso possui enorme dignidade. Mas a missão própria do sacerdote pertence a outra ordem. O padre absolve pecados, anuncia o Evangelho, acompanha quem sofre, reconcilia pessoas com Deus, permanece junto de alguém na hora da morte e, sobretudo, celebra a Eucaristia. Por isso, seria espiritualmente estranho imaginar que o sacerdócio precisasse ser abandonado simplesmente porque se encontrou uma atividade “maior”. Para a fé católica, o valor sobrenatural daquilo que acontece no ministério sacerdotal não pode ser medido pelos critérios de eficiência, visibilidade ou influência social.

Um sacerdote desconhecido, numa pequena paróquia, celebrando fielmente a Missa, atendendo confissões, visitando um doente e vivendo silenciosamente o seu celibato por amor a Cristo pode produzir frutos que jamais serão medidos por pesquisas, votos ou números. Talvez ninguém fale dele. Talvez nunca seja entrevistado. Talvez nunca tenha milhares de seguidores. Mas isso não significa que sua vida seja pequena. Existe uma grandeza escondida no sacerdócio. Quando um padre renuncia à constituição de uma família própria, procura viver a castidade, oferece sua vida ao povo, celebra os sacramentos, anuncia a verdade e tenta viver a caridade, tudo isso por amor a Deus, existe ali uma fecundidade que não pode ser comparada simplesmente com influência política. Isso não diminui a política. Coloca apenas cada vocação em seu lugar. Um bom político pode fazer um bem extraordinário à sociedade. Precisamos deles. Mas o político deve fazer aquilo que pertence à política, e o sacerdote aquilo que pertence ao sacerdócio.

Voltemos então à pergunta inicial

Quando faria sentido um sacerdote deixar o exercício do ministério e posteriormente assumir outra profissão, inclusive uma carreira política? Primeiro seria necessário constatar honestamente que sua permanência no ministério se tornou realmente impossível ou gravemente inviável. Somente depois viria a pergunta sobre aquilo que ele fará da própria vida. E aqui aparece outra questão bastante concreta.

Tomemos novamente o exemplo daquele sacerdote que está numa depressão profunda. Ele buscou tratamento, procurou diferentes caminhos e chegou à conclusão de que uma das razões pelas quais não consegue mais suportar o ministério é o peso permanente de lidar com pessoas: cobranças, conflitos, exposição, responsabilidades e contato constante com o público. Mas então precisamos perguntar: a vida política resolveria isso? Provavelmente não.
O político também lida diariamente com pessoas. Também é criticado. Também recebe cobranças. Também precisa enfrentar conflitos. Talvez sofra ainda mais exposição pública do que um sacerdote. Terá adversários, redes sociais, imprensa, campanha eleitoral, decisões difíceis, disputas internas, julgamentos constantes e pressão popular.

Então, se justamente a exposição e o contato intenso com o público tornaram o ministério insustentável, é preciso perguntar seriamente por que a carreira política seria uma solução. Talvez o mesmo impedimento continue ali. Talvez até de maneira mais intensa. É por isso que essas decisões não podem ser tomadas superficialmente. A pergunta não deveria ser simplesmente: “Quero ser político?”. Antes dela existe uma pergunta muito mais profunda: O que aconteceu comigo para que eu já não consiga permanecer no ministério sacerdotal? E depois outra: Aquilo que me impede de ser padre desaparecerá se eu me tornar político?

Se a resposta for não, talvez o problema não esteja propriamente no sacerdócio nem seja resolvido pela política

Talvez exista alguma questão humana, espiritual, afetiva ou psicológica anterior que ainda precise ser enfrentada. No fundo, portanto, esta reflexão não pretende condenar quem deixou o ministério nem julgar a consciência de ninguém. Somente Deus conhece completamente a história interior de uma pessoa. O que ela pretende afirmar é algo mais simples: não existe proporção entre abandonar o sacerdócio apenas porque se acredita ter encontrado na política uma missão maior.

Se existe uma impossibilidade verdadeira de continuar no ministério, essa impossibilidade precisa ser reconhecida, discernida e tratada como tal. Mas, se ainda existe a possibilidade real de permanecer padre e viver santamente o sacerdócio, então é preciso pensar muito antes de trocar o altar pela tribuna, a estola pelo palanque e a missão de pastorear todos pela inevitável divisão própria da disputa partidária. Porque talvez o mundo não precise tanto de mais um político. Talvez precise de um padre santo.