Compreendendo as mudanças da adolescência
Muitos pais me procuram com a mesma frase: “Meu filho dormiu de um jeito e acordou de outro”. Aquela criança que era amorosa, que gostava de estar perto, que conversava, parece ter sido substituída da noite para o dia por uma pessoa nova: alguém que prefere o quarto, o silêncio, as respostas monossilábicas e a companhia dos amigos à da família.
Antes de qualquer coisa, é preciso entender: isso faz parte da história do seu filho. Esse afastamento é parte do processo de amadurecimento. As reflexões que trago aqui não são fórmulas mágicas, nem modelos prontos para aplicar. São placas sinalizadoras, uma visão geral para você se guiar, usando a percepção que tem do seu filho e a proximidade que tem com ele.

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O primeiro olhar deve ser para dentro
Quando a adolescência chega, uma enxurrada de perguntas nasce em nós: “Será que falhei? Será que não estive presente? Será que estou errando num mundo onde tudo é permitido?” Sim, vamos falhar, e muito. Mas nossas falhas não determinam se o filho vai ou não passar por essa fase de afastamento. A maioria dos jovens passa por ela, uns em grau maior, outros menor.
É preciso também não reagir com imaturidade: nada de revolta, agressividade ou cobranças exageradas de conversa e carinho. Lembre-se: o amor é livre. Amar exige liberdade, mas isso não significa ser permissivo: a obediência aos valores da casa é essencial e inegociável, mas significa compreender o processo para se portar bem diante dele.
Vale perguntar, ainda: o que está lhe machucando mais? A revolta do filho ou a vergonha de que ele não se comporte como esperado diante dos parentes e amigos, de que a família não se encaixe no padrão das redes sociais? Somos todos pecadores e falhos. As humilhações que colhemos das nossas falhas (e das falhas dos filhos) podem ser exercício de humildade, de reconhecimento daquilo que somos.
A adolescência é uma metamorfose
As transformações são físicas e psicológicas, e elas não acontecem em paralelo. O corpo muda de forma visível, mas a alma e o cérebro seguem outro ritmo: enquanto o córtex pré-frontal (a parte ligada à razão, à lógica e ao planejamento) ainda se desenvolve, a parte ligada às emoções está fervilhando. O resultado é uma insegurança que o jovem também sente, mesmo sem conseguir expressar. É como se ele se levantasse todos os dias perguntando: “Quem sou eu? Por que sinto isso?”
E há também a alma. O adolescente começa a perceber o vazio existencial, em que nenhuma emoção, nenhuma conquista o preenche. Santo Agostinho já dizia: Deus nos fez para Ele, e nosso coração não descansa enquanto não repousa n’Ele. É por isso que o afastamento, tantas vezes, não é fuga: é uma busca de identidade. O jovem precisa olhar para si mesmo, construir o caminho para ser quem ele é, e isso exige distância, e não abandono.
Aqui está uma grande chave: mude a pergunta. Deixe de perguntar “o que está errado com meu filho?” e pergunte: “o que está acontecendo com meu filho?”.
Autonomia e privacidade
Duas palavras essenciais. Autonomia: o jovem precisa caminhar com as próprias pernas, mas não pode ficar só. Ele busca aprovação e acolhimento; se não os encontra em casa, pessoas inadequadas podem ocupar esse lugar. Privacidade: a porta do quarto precisa ser negociada, sem excessos, e com a clareza de que privacidade não é segredo. O filho precisa de um canto seu (muitas vezes até um espaço pequeno, com seus adesivos e suas coisas), mas não pode viver num casulo. Ele precisa de um lugar para ser ele mesmo, sem deixar de ser parte da família.
O silêncio em casa e o barulho lá fora
Há adolescentes que em casa são monossilábicos e, com os amigos, são expansivos, líderes do grupo. O que fazer? Aquele remédio antigo, que dá muito fruto: a discrição. São Felipe Néri nos ensina a estar próximos sem invadir. Leve e traga seu filho, deixe-o conversar com os amigos no carro, seja ali quase um motorista invisível. Você não é amiguinho dele: é pai. Mas quanto mais imperceptível você for estando junto, mais vai conhecer o seu filho de uma maneira indireta.
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Os grupos e as redes sociais
Se o seu filho tiver que arrumar uma confusão, ele vai arrumá-la dentro de casa, porque dentro de casa ele sabe que é amado. Lá fora, o grupo é cruel: isola, pune, humilha. O jovem precisa de distância de você para ser aceito pelo grupo: é o clássico “me deixa um quarteirão antes da escola”. Entenda e equilibre: autonomia, privacidade, liberdade com os amigos, mas sempre com responsabilidade e presença.
Há ainda um segundo mundo crescendo em paralelo: as redes sociais. Elas podem gerar uma vida completamente paralela, suprindo carências afetivas de forma desordenada, com riscos graves como a pornografia. Esteja atento sem entrar em paranoia; quanto mais você se comportar como perseguidor, mais seu filho vai fugir de você.
As guerras silenciosas e a hipocrisia
Muitas vezes o problema que dizemos estar no filho não está no filho. Casais que vivem guerras silenciosas, discutindo e se desrespeitando, acham que o adolescente não percebe. Ele percebe, e reage. O adolescente é um detector de hipocrisia: se você exige oração e não reza, exige honestidade e não é honesto, exige respeito e não respeita, ele vai repetir isso com toda a intensidade.
Seja honesto. Não precisa contar tudo (seu filho não é seu confessor nem seu terapeuta), mas partilhe suas lutas: “estamos passando por dificuldades, mas estamos caminhando, lutando”. Assim como ele percebe a hipocrisia, ele percebe a luta sincera. E isso o torna menos agressivo.
No próximo artigo, veremos como responder a tudo isso na prática: a presença, o porto seguro, a escuta, a firmeza amorosa e os sinais de alerta que pedem ajuda.





