A infância em Florença e a juventude em Roma
São Filipe nasceu em Florença, em 1515, filho de Francisco de Neri e Lucrécia Soldi; teve outros irmãos: Catarina, Elisabete e Antônio. É muito difícil falar deste santo em apenas um artigo. Escrevi um livro sobre sua vida e obra.
Ele foi um jovem alegre e otimista por temperamento, tanto que mereceu o apelido de “Pipo”, o bom. Um dia, para reprimir o seu gênio vivo, a mãe lhe disse: “Filipe, senta-te aqui e não te mexas mais”.
O menino ficou imóvel, como uma plantinha no seu cantinho, aguardando a ordem da mãe para poder brincar com suas pequenas irmãs. Atarefada pelos afazeres domésticos, a mãe esqueceu-se da ordem dada ao pequeno Filipe. Ficou muito admirada quando, num cantinho do quarto, viu o menino que, em silêncio, aguardava o convite da mãe para deixar aquela posição.

Estátua de São Filipe Néri, localizada em Praga, capital da República Checa. Créditos: Jaroslav Zastoupil / Wikimedia Commons.
Quando os amigos o chamavam para brincar, ele dizia: “Deixem-me primeiro fazer uma visitinha a Jesus na Eucaristia, na Igreja de São Marcos; depois, estarei com vocês”.
Um dia, o pai quis doar-lhe a árvore genealógica da ilustre e nobre família Neri. Filipe olhou bem aquele papel e, com desprezo, após tê-lo dilacerado, exclamou: “Oh! Quanto vale mais estar escrito no livro da vida eterna!”.
Filipe tentou várias profissões, entre as quais a de comerciante em São Germano, perto de Monte Cassino; aos dezoito anos, estudou em Roma, mas, decepcionado com os pecados da juventude romana, abandonou os estudos, vendendo os livros para dedicar-se totalmente às atividades beneficentes.
O Pentecostes de Filipe e o coração dilatado
Um fato foi marcante na vida dele: foi na festa de Pentecostes de 1544. Ele tinha 29 anos e havia se preparado nas Catacumbas de São Sebastião. Naqueles lugares, marcados pelo sangue glorioso dos primeiros mártires, ele se sentia queimar de amor a Deus e meditava o maravilhoso prodígio de Pentecostes. De repente, o seu coração foi invadido por uma grande alegria e uma luz misteriosa o iluminou. Filipe ergueu o olhar e viu um globo descer do alto, uma chama que, pousando em sua boca, o penetrava no peito, produzindo-lhe efeitos admiráveis.
O seu coração, em contato com aquela chama viva, dilatou-se de improviso. O peito não podia mais contê-lo. Dobraram-se duas de suas costelas, que se arcaram até quebrarem. Teve um forte tremor por todas as partes do corpo e, fora de si pela alegria, apertou fortemente as mãos sobre o coração que sentia queimar e bater violentamente. Transbordando de amor, exclamou: “Basta, ó Senhor, nunca mais, nunca mais!”. O Divino Espírito Santo tinha descido ao coração de Filipe, dilatando-o milagrosamente. As duas costelas ficaram, por toda a vida, arqueadas para fora e atrás do coração.
Na oração, Filipe experimentava grandes emoções, êxtases e alegrias espirituais, que chegavam a ponto de quase morrer, e exclamava: “Afastai-vos, Senhor, porque a minha fraqueza mortal não resiste diante de tanta alegria divina”. Foi o seu “batismo” no Espírito Santo.
Roma será o campo de apostolado de Filipe, apesar de ele ter desejado ser missionário entre os índios, como São Francisco Xavier. O santo religioso eremita Agostinho Ghettino lhe disse: “As tuas índias são Roma”. A profecia do santo religioso realizou-se porque Filipe foi escolhido por Deus para se tornar o “Apóstolo de Roma”.
O oratório e o legado de santidade
São Filipe Néri recolheu consigo os meninos turbulentos dos subúrbios de Roma e os educava divertindo-os. Para ajudar os mais necessitados, não hesitava em pedir esmolas nas estradas. Um dia, um indivíduo, sentindo-se importunado, deu-lhe um soco. “Este é para mim – foi a resposta sorridente do santo – agora me dê algum dinheiro para os meus meninos.”
A grande obra deste santo foi a criação da “Congregação do Oratório”, no ano de 1558, na igreja São Girolamo da Caridade. Ali, Filipe, para assistir e servir melhor aos jovens e adultos, reunia-os diariamente para a oração e, nos dias festivos, para a instrução dialogada. Esta nova e revolucionária instituição de Filipe provocou curiosidade no começo, e até oposição e interesse depois.
No Oratório, os jovens sentiam-se à vontade para brincar e para viver o amor a Deus e entre si. Ali, São Filipe introduziu, além dos exercícios normais de piedade e de oração da noite, a leitura explicada e meditada da Palavra de Deus e o movimento do “Voluntariado Assistencial”. Era uma pequena comunidade de vida cristã. Era uma Congregação religiosa de padres, empenhados de modo particular na educação dos jovens.
Dom Bosco se espelhou nele para criar os Oratórios Salesianos. Foi ordenado padre aos 36 anos. Ele queria ver a Deus em toda a essência, manifestada no universo e nas criaturas. A pureza foi o caminho mais simples e fácil para se encontrar com Ele. Desde a infância até a morte, ele cultivou a virtude da pureza; procurou sempre, na fuga, o amparo da sua castidade, porque dizia que “as armas e a coragem de um bom soldado da pureza não são a luta ou a resistência, mas só e unicamente a fuga, para refugiar-se em Deus”.
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Ensinamentos de São Filipe para os jovens, buscando a pureza e castidade
O fruto da sua vida pura e casta são as cinco breves lembranças dadas aos jovens para se manterem puros:
1 – Fugir às más companhias;
2 – Não nutrir delicadamente o próprio corpo;
3 – Fugir ao ócio;
4 – Frequentar a oração;
5 – Frequentar os sacramentos, sobretudo a confissão.
Ele dizia que, para adquirir a castidade, era preciso mortificar a carne. A todos lembrava que o grande guarda da castidade era a humildade. Diante das quedas de alguém, usava sempre compaixão e nunca desprezo. Dizia: “O coração puro se santifica e santifica os outros. O coração impuro se perverte e destrói os outros também. A impureza rebaixa até ao demônio. A pureza eleva até Deus”.
Em pleno clima de Reforma Protestante, o santo expressou sua opinião a respeito com uma frase muito eficaz: “É possível restaurar as instituições com a santidade, e não restaurar a santidade com as instituições”.
São Filipe tinha uma sólida cultura: promoveu os estudos de história da Igreja, encaminhando a esta disciplina um dos seus grandes sacerdotes, o famoso Cardeal Cesare Barônio (1538-1607), que foi historiador.
Para o santo, a humildade era a virtude mais importante. Um dia, o Papa pediu que ele fosse verificar a santidade de uma freira que diziam ser santa. São Filipe foi lá no mosteiro da freira; quando ela lhe atendeu, ele pediu se ela poderia limpar suas botas sujas de barro, ao que a freira disse-lhe que não se tornou religiosa para limpar as botas de padre. Ele apenas se despediu dela e disse ao Papa: “Ela não é santa, não é humilde”.
Outro fato interessante foi o seguinte: havia um homem que assistia à missa celebrada pelo santo, mas saía da igreja logo que comungava. São Filipe ficou incomodado e, um dia, mandou que dois coroinhas acompanhassem o homem na rua, cada um com uma vela acesa, tão logo ele saísse da igreja. O homem ficou bravo e veio conversar com o santo, ao que ele disse ao homem: “As normas litúrgicas mandam acender duas velas quando Jesus está presente na Eucaristia”.
O Papa Gregório XIV quis fazê-lo cardeal, mas ele nunca aceitou. Ele foi grande amigo dos papas do seu tempo: Gregório XIII, Gregório XIV, São Pio V, Inocêncio IX, Clemente VIII.
Depois dos 75 anos, São Filipe limitou sua atividade ao confessionário e à direção espiritual. Possuía o segredo da simpatia e da amizade.
Antes de morrer, octogenário, queimou os manuscritos dos seus livros guardados na gaveta. Sobre o leito de morte, sentia-se culpado ao pensar que estava deitado numa caminha macia e limpa, enquanto Cristo morreu pregado na cruz. Após a morte, a 26 de maio de 1595, os médicos averiguaram, sobre seu tórax, uma esquisita curva das costelas, como a dar espaço maior ao grande coração do Apóstolo de Roma.






