⛪ Reflexão

A Igreja que caminha: identidade, missão e diálogo com a atualidade

Uma Igreja que caminha na história

“Uma Igreja que caminha na história da humanidade”, assim sublinha o Papa Leão XIV na Carta Encíclica Magnifica Humanitas sobre a identidade e a missão da Igreja Católica.

A instituição não pode ser confundida com um clube de amigos, considerada uma organização não governamental nem simplesmente uma associação beneficente. Trata-se de uma instituição bimilenar presente no mundo todo, sinal de unidade para a família humana.

A Igreja reconhece nas questões e nos desafios da atualidade o lugar onde deve exercer a sua vocação à escuta, ao diálogo e ao serviço. Ela se deixa interpelar por tudo o que diz respeito à existência dos homens e das mulheres na contemporaneidade.

Basílica de São Pedro, na Cidade do Vaticano. Foto: Alexandre Fagundes/Getty Images.

Reconhecer a identidade e a missão da Igreja ajuda a compreender o horizonte largo, luminoso e desafiador confiado por Jesus a seus discípulos. O Mestre quis a sua Igreja e por ela se imolou no alto da cruz para regenerar o gênero humano e iluminar o sonho de Deus: uma magnífica humanidade.

A missão da Igreja tem, pois, alcance histórico e ajuda a definir a maneira como são tecidas as relações sociais. O ensinamento papal ressalta, portanto, que essa missão não pode se fazer alheia às dinâmicas que moldam o rosto da sociedade.

Ao invés disso, precisa se sensibilizar com as alegrias, os sofrimentos e as angústias que a afligem. O Pontífice evoca o Papa Francisco que, por várias vezes, recordava com veemência a dimensão histórica da missão eclesial.

Francisco advertia que a religião não pode ser relegada à intimidade secreta das pessoas ou, como se diz, “ao escondido das sacristias”.

O compromisso social e a autonomia política

A Igreja é perita em humanidade, mesmo quando sofreu as consequências de vicissitudes humanas e limites históricos.

Por isso, a partir do Evangelho de Jesus, com sólidos fundamentos e ensinamentos, deve sempre promover uma ação incisiva na vida social, sendo interpelada a se pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos.

O ponto de partida da ação eclesial não é partidário ou restrito a âmbitos ideológicos. É a disponibilidade para caminhar com a humanidade — a humanidade magnífica, imagem e semelhança de Deus Criador; humanidade pela qual foi derramado o sangue do Filho Amado de Deus para a sua regeneração e salvação.

A participação e a inserção missionária da Igreja, obviamente, não ferem a legítima autonomia da sociedade civil. Ao contrário, colaboram para que essa autonomia seja qualificada e promova o bem comum.

Essa atuação ocorre com um olhar especial e preferencial pelos pobres e deserdados, vítimas de violências, exclusões e discriminações.

A distinção entre a comunidade eclesial e o Estado

Sabe-se que a Igreja, relembra o Papa Leão, está ao lado do mundo sem se sobrepor a ele, para que em cada circunstância humana possa germinar a promessa de justiça e paz que o Espírito Santo continua a suscitar no coração da humanidade.

O posicionamento da Igreja é, assim, iluminado pelo reconhecimento de que Deus acompanha a liberdade dos seres humanos no desenrolar da história, conforme bem ensina o Concílio Vaticano II ao sublinhar a distinção entre comunidade eclesial e comunidade política.

O Concílio salienta que cada uma delas deve agir em completa autonomia. Quando há mistura, corre-se o risco de confusão e enfraquecimento, seja da comunidade eclesial, seja da comunidade política.

A Igreja não busca assumir as funções que competem ao Estado. Ao contrário, reconhece a sua autonomia, que deve ser exercida a partir do compromisso fundamental com o bem comum.

Reconhecendo essa autonomia, quando necessário, ela denuncia negligências e parcialidades. Por missão, a Igreja não pode distanciar-se dos sofrimentos humanos e do compromisso de partilhar tesouros humanísticos, contribuindo para consolidar valores e princípios essenciais à humanidade.

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Diálogo com as ciências e a Doutrina Social da Igreja

A história comprova que a presença eclesial ajuda instituições, governos e segmentos da sociedade a se aproximarem e a cuidarem das feridas que afligem homens e mulheres. O Papa Leão focaliza esse aspecto essencial: o dever de inspirar caminhos de conversão pessoal e comunitária, apoiar a promoção de reformas de estruturas e novas formas de testemunho na vida pública.

São muitos os caminhos para a efetivação da missão da Igreja, como aponta a Carta Encíclica ao citar, por exemplo, o diálogo com as ciências humanas à luz da Palavra de Deus, fonte inesgotável e inspiradora de sabedoria. Afirma, pois, que a Palavra de Deus oferece critérios confiáveis para orientar os caminhos da justiça e abrir vias de reconciliação e paz entre os seres humanos.

Reconhece-se que, por meio do diálogo fecundo entre Evangelho e ciências humanas, a Igreja aprofundou a sua Doutrina Social, um arcabouço de indicações éticas e morais com força para reorientar os rumos da sociedade, ajudando-a na superação de injustiças e de cenários que maculam a magnífica humanidade.

Ao caminhar com a humanidade, a partir de razões alicerçadas na fé, a Igreja contribui, inspira e se compromete com a inegociável busca por uma humanidade renovada. Uma humanidade movida por seu peregrinar rumo ao Reino definitivo, capaz de edificar uma sociedade mais justa e solidária.

Aprofundar a compreensão sobre a importância da missão da Igreja no coração do mundo é ajudar a cidadania civil a se qualificar, inspirando-se pela cidadania do Reino de Deus. Possibilita, desse modo, um alinhamento de propósitos e a conquista de uma indispensável lucidez, a partir da contribuição da comunidade eclesial: a Igreja que caminha com a humanidade.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br