🙏 Devoção

O mensageiro invisível: quem é, de fato, o Anjo de Portugal?

A devoção ao Anjo da Guarda de Portugal

A Irmã Lúcia conta que, entre 1915 e 1916, ela e os seus primos, São Francisco e Santa Jacinta, tiveram visões de um anjo, que, em 1915, apareceu sem nada dizer. Em 1916, ele iniciou diálogo com os Pastorinhos por três vezes. Revelou-se como o Anjo de Portugal na segunda visão, no verão de 1916.

A devoção ao Anjo da Guarda de Portugal é muito antiga, tendo sido oficializada pelo Papa Leão X, em 1504, sendo celebrada com grande solenidade em muitas cidades e vilas portuguesas. Com as visões dos Pastorinhos, em 1916, e sua posterior divulgação, é uma devoção que ganhou novo impulso. O Papa Pio XII aprovou a inclusão da sua memória no calendário litúrgico de Portugal.

Créditos: Acervo pessoal.

Qual é a missão de um anjo?

Nas visões dos Pastorinhos recolhemos elementos não só muito interessantes, mas de forma particular oferecem materiais para uma reflexão profunda não só de qual é a missão de um anjo cujo dever é proteger uma nação, mas particularmente para aprofundar como se deve entender uma sociedade diante de Deus e no cumprimento do desígnio que Ele estabeleceu para cada povo.

As primeiras palavras do Anjo que Lúcia regista são: «Não temais. Sou o Anjo da Paz. Orai comigo». A manifestação angélica apresenta-se como paz: recorda a primeira aparição de Jesus ressuscitado, cuja primeira saudação é: «A paz esteja convosco» (Jo 20, 19.21.26). A paz é o primeiro sinal da presença de Deus e dos seus enviados. Também não nos devemos esquecer que quando o Anjo assim se apresenta, a Europa já está mergulhada na I Guerra Mundial: a guerra é uma realidade contrária a Deus e à sua vontade.

O Anjo de Portugal ensina um programa espiritual de vida

O Céu quer a paz, e só se pode encontrar a verdadeira paz através da comunhão com Deus, como outros anjos cantaram, anunciado quando do nascimento de Jesus em Belém: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado» (Lc 2, 14). Dar glória a Deus e obter a paz na terra são como que duas faces de uma mesma moeda. Por isso, a mensagem do Anjo, logo na primavera de 1916, ensina a adoração – e consequentemente, a fé, a esperança e a caridade – como caminho que prepara o coração daquelas crianças para acolher a vontade de Deus a seu respeito.

A oração que ensina: «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam», não é apenas uma expressão piedosa, é um programa espiritual.

O Anjo de Portugal ensina uma oração cujo centro é a adoração

Um ícone da humanidade naquela época é o navio de passageiros Titanic. Segundo se conta, dizia-se que nem Deus afundava aquele navio. Sabemos onde se encontram os seus destroços. É uma imagem da humanidade que virou costas a Deus, como sempre acontece, desde a construção da Torre de Babel. Quando o Anjo ensina uma oração cujo centro é a adoração, apresenta-nos o caminho que somos convidados a percorrer: só quando reconhecemos Deus como o fundamento transcendente não só da nossa vida pessoal, mas da nação e de todo o mundo, se encontram caminhos de verdadeira humanização e de reconhecimento da dignidade humana de todas as pessoas, sem exceção.

O Anjo de Portugal ensina que o verdadeiro poder e força se encontra no coração

No verão de 1916, quando as crianças se encontravam a brincar, o anjo mostra-se-lhes pela segunda vez e revela-se como o Anjo de Portugal. No que o Anjo diz aos Pastorinhos, é de assinalar como aprofundar um passo a mais: a ligação entre a adoração e a paz, quando pede que as crianças aceitem os sacrifícios que lhe forem enviados e que a aceitação dessas penitências atrairá a paz sobre Portugal. Disse o Anjo: «De tudo que puderdes, oferecei um sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores.

Créditos: Arquivo pessoal de Nilza Maia.

Atraí, assim, sobre a vossa Pátria, a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo, aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar». Aqui surge algo essencial: aquelas três crianças, pequenas, frágeis e analfabetas, recebem um desígnio por toda a nação. Mostra-se, uma vez mais, como é na pequenez e na simplicidade que se revela a força de Deus. Uma vez mais Deus mostra, neste plano de vida dos Pastorinhos, como o Senhor volta a alimentar uma multidão apenas com cinco pães e dois peixes (cf. Mt 14, 13-21).

O Anjo da Guarda transporta uma mensagem que ultrapassa as perspectivas materialistas: o verdadeiro poder e força encontra-se no coração e só a partir do coração se podem trilhar verdadeiros caminhos de paz.

Na adoração Eucarística, uma nação encontra a sua identidade, sua missão

A terceira visão do Anjo, no outono de 1916, oferece mais um elemento para compreender a missão do Anjo de Portugal: oferece misticamente a sagrada comunhão aos Pastorinhos, colocando no coração da nação a Eucaristia.

Desde a Idade Média, a Eucaristia era entendida como coração da vida social – exemplo disso são as grandes procissões eucarísticas no dia da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, em que todas as dimensões da vida social estavam presentes, seja o povo, o clero e a nobreza. Desse modo, na adoração de Jesus Eucaristia, uma nação encontra a sua verdadeira identidade, a sua missão e a sua própria organização.

O Anjo ensinou a seguinte oração: «Santíssima Trindade, Padre, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores».

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Crer, adorar e servir a Deus tem consequências sociais

A adoração, a reparação das ofensas a Deus e a conversão encontram-se no coração de toda a vida social. Reparemos que tudo isso significa entender a relação com Deus não apenas como uma realidade íntima e pessoal: acreditar em Deus, adorar a Deus e servir a Deus é uma função que tem consequências sociais. Por isso também as nações são chamadas a viver e a cultivar esta relação com Deus. Assim, entendemos porque há um Anjo de Portugal: para que seja o guarda e aquele que auxilia a nação portuguesa a acolher os desígnios de Deus e a vivê-los todos os dias.

Num mundo marcado pelo materialismo, pelo relativismo e pelo niilismo, importa muito voltar a escutar a mensagem do Anjo de Portugal. Há um outro caminho: nós não somos simples matéria, somos criados por Deus e constituídos, pelo Batismo, como seus filhos. Jesus Cristo é a Verdade, com maiúscula, e por isso não estamos sujeitos a andar à deriva entre filosofias e sabedorias humanas contraditórias. Somos chamados à vida eterna e à comunhão com Deus, por isso a nossa existência não se reduz ao nada e ao vazio. O Anjo da Guarda de Portugal mostra-nos o rumo: importa agora vivermos e abraçarmos esses desafios com toda a nossa vida.

Por Padre Ricardo Figueiredo