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Veneração ou idolatria? O guia completo para entender a devoção católica 

Uma das objeções mais frequentes levantadas contra a fé católica, sobretudo pelos cristãos de tradição protestante, diz respeito à devoção aos santos. Muitos perguntam: «Se Deus é o único mediador da salvação, por que os católicos rezam aos santos?». A resposta a esta questão conduz-nos a temas centrais da nossa fé, e por isso merecem ser explicados com atenção.

Foto Ilustrativa: Bruno Marques/cancaonova.com

Para responder essas questões, é importante recorrer ao ensinamento do Catecismo da Igreja Católica, que apresenta, de forma clara, a distinção entre a adoração devida somente a Deus e a veneração dos santos, bem como o sentido autêntico da sua intercessão.

  1. Só Deus é adorado

A Igreja Católica ensina que a adoração (latria) pertence exclusivamente a Deus Pai, Filho e Espírito Santo. O Catecismo afirma: «Adorar a Deus é reconhecê-Lo como tal, Criador e Salvador, Senhor e Dono de tudo quanto existe, Amor infinito e misericordioso» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 2096). Por isso nenhum santo, anjo ou criatura pode receber a adoração reservada ao Senhor.

Os santos não são deuses, não possuem poder próprio independente de Deus nem ocupam o lugar de Cristo. Tudo o que veneramos neles é reflexo da luz da graça de Deus neles: por isso toda a oração de veneração – que não é de latria-adoração, que só a Deus se pode fazer – aos santos é também por si o reconhecimento das maravilhas que Deus realiza nas suas vidas, como na Virgem Maria, que pode agradecer jubilosamente: «O Todo-poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome» (Lc 1,49).

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  1. O católico se ajoelha diante de uma imagem de um santo não está a adorá-lo

Quando um católico se ajoelha diante de uma imagem de um santo, não está a adorá-lo. Da mesma forma que alguém pode ajoelhar-se diante da fotografia de um familiar falecido para rezar ou recordar a sua memória, também a imagem religiosa é um sinal visível que remete para uma realidade espiritual invisível. O próprio Catecismo esclarece: «O culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos. Com efeito, “a honra prestada a uma imagem remonta ao modelo original” e “quem venera uma imagem venera nela a pessoa representada”» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 2132). Assim, toda a glória e toda a adoração pertencem unicamente a Deus.

  1. O que significa pedir a intercessão dos santos?

Quando os católicos pedem ajuda aos santos, não lhes pedem que substituam Deus. Pedem apenas que intercedam por eles. A prática baseia-se numa convicção fundamental da fé cristã: a Igreja não é composta apenas pelos fiéis que vivem na terra. Existe uma profunda comunhão entre todos os membros do Corpo de Cristo, tanto os peregrinos neste mundo como aqueles que já alcançaram a glória celeste. Neste sentido, o Catecismo ensina: «E assim, de modo nenhum se interrompe a união dos que ainda caminham sobre a terra com os irmãos que adormeceram na paz de Cristo: mas antes, segundo a constante fé da Igreja, essa união é reforçada pela comunicação dos bens espirituais» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 955). Os santos vivem em Deus. Estão unidos perfeitamente a Cristo e continuam a amar a Igreja peregrina. Por isso, podem apresentar ao Senhor as necessidades dos seus irmãos.

  1. Acreditamos na comunhão dos santos

O Catecismo afirma: «A sua intercessão é o mais alto serviço que prestam ao desígnio de Deus. Podemos e devemos pedir-lhes que intercedam por nós e por todo o mundo» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 2683). Portanto, quando alguém diz: «Santo Antônio, rogai por nós», está a pedir que Santo Antônio apresente essa intenção diante de Deus, do mesmo modo que se pede a um amigo: «Reza por mim». O pedido de intercessão faz aprofundar no nosso coração a convicção de fé que professamos cada Domingo na Missa: acreditamos na comunhão dos santos. A Igreja é a família dos filhos de Deus, por isso contamos com os laços familiares e espirituais não só com os nossos irmãos na fé aqui no mundo, mas também com os nossos irmãos «mais velhos» que já estão na glória de Deus.

  1. A intercessão dos santos diminui o papel de Cristo?

Não. Pelo contrário, manifesta a eficácia da única mediação de Cristo. A Sagrada Escritura afirma: «Há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, um homem: Cristo Jesus» (1 Tm 2,5). A Igreja aceita plenamente esta verdade. Jesus é o único Mediador porque só Ele reconciliou a humanidade com o Pai através da sua morte e ressurreição.

No entanto, a própria Bíblia mostra que Deus deseja associar os seus filhos à obra da salvação. São Paulo pede constantemente orações aos cristãos e recomenda que rezem uns pelos outros (cf. 1 Tm 2,1; Ef 6,18-19). Quando um cristão reza pelo próximo, não concorre com Cristo; participa da sua única mediação. O mesmo acontece com os santos do Céu. O Catecismo explica: «A função maternal de Maria para com os homens, de modo algum ofusca ou diminui a mediação única de Cristo, mas antes manifesta a sua eficácia» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 970). Este princípio aplica-se analogamente a toda a intercessão dos santos: ela depende totalmente de Cristo e conduz sempre a Cristo.

  1. Alguns aspetos da intercessão relativa a Virgem Maria

Um recente documento do Dicastério para a Doutrina da Fé procurou esclarecer alguns aspetos da intercessão relativa a Virgem Maria e, consequentemente, dos santos, já que a intercessão de Nossa Senhora, ainda que mais eficaz e excelente, não difere quanto ao tipo em relação à intercessão dos santos. Afirma o documento: «Em sentido estrito, não podemos falar de outra mediação na graça que não seja a do Filho de Deus encarnado. Por isso é necessário recordar sempre, e não obscurecer, a convicção cristã de que “deve crer-se firmemente, como dado perene da fé da Igreja, a verdade de Jesus Cristo, Filho de Deus, Senhor e único salvador, que no seu evento de encarnação, morte e ressurreição realizou a história da salvação, a qual tem n’Ele a sua plenitude e o seu centro”» (Nota doutrinal Mater Populi fidelis, n.º 27).

Para a reflexão teológica, o referido documento prefere, então, falar de «mediação participada» e justifica: «Se partimos desta convicção de que o Senhor ressuscitado promove, transforma e capacita os crentes para colaborarem com Ele na sua obra, a participação de Maria na obra de Cristo resulta evidente. Isto não ocorre por uma debilidade, incapacidade ou necessidade de Cristo mesmo, mas precisamente pelo seu poder glorioso, que é capaz de nos assumir, generosa e gratuitamente, como colaboradores da sua obra» (n.º 29). Ora, «se isto vale para cada cristão, cuja cooperação com Cristo se torna cada vez mais fecunda quanto mais se deixa transformar pela graça, com maior razão se deve afirmar de Maria, de um modo único e supremo» (n.º 32). Assim sendo, fica claro como a intercessão não só não reduz o papel de Cristo como é ela mesma manifestação do poder de Cristo, como se reza no Prefácio I dos Santos na Missa: «Vós sois glorificado na assembleia dos santos e, ao coroar os seus méritos, coroais os vossos próprios dons».

  1. Os santos estão vivos?

Alguns argumentam que pedir a intercessão dos santos equivaleria a falar com os mortos. Contudo, Jesus ensinou precisamente o contrário. Referindo-se aos patriarcas, declarou: «Não é um Deus de mortos, mas de vivos» (Mc 12,27). Os santos vivem na presença de Deus. Participam da vida eterna conquistada por Cristo. Por isso continuam membros ativos da Igreja. O Catecismo afirma: «Os bem-aventurados, estando mais intimamente unidos com Cristo, consolidam mais firmemente a Igreja na santidade» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 956).

A morte física não destrói a comunhão entre os membros do Corpo de Cristo. O amor que os unia na terra continua e aperfeiçoa-se na glória. É sempre uma afirmação, com todo o coração, da ressurreição de Cristo, que está vivo e faz-nos participantes da vida. Pois, como exclamava São Paulo: «se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a vossa fé» (1 Cor 15,14).

  1. Por que Deus quer que recorramos aos santos?

Deus poderia conceder-nos todas as graças diretamente, sem qualquer mediação criada. Contudo, na sua sabedoria, escolheu fazer-nos participar na sua obra. Assim como conta com a colaboração dos pais para transmitir a vida, sacerdotes para administrar os sacramentos e amigos para nos ajudar nas dificuldades, também permite que os santos cooperem na distribuição das graças que procedem unicamente d’Ele.

A intercessão dos santos manifesta duas grandes verdades cristãs: como dissemos antes, a comunhão dos santos, pela qual todos os membros da Igreja permanecem unidos em Cristo; em segundo lugar, a fecundidade da caridade, que continua para além da morte. Os santos não afastam os fiéis de Deus; conduzem-nos a Ele. Toda a sua missão consiste em apontar para Cristo, como fizeram durante a vida terrena.

Conclusão

Os santos não são adorados, mas venerados como amigos de Deus e modelos de vida cristã. A adoração pertence exclusivamente a Santíssima Trindade. Quando a Igreja invoca os santos, não lhes atribui um poder divino, mas pede que intercedam junto do Senhor em favor dos seus irmãos peregrinos na Terra.

O Catecismo da Igreja Católica ensina claramente que essa prática nasce da comunhão dos santos e da certeza de que aqueles que vivem na glória celeste permanecem unidos a nós pelo amor de Cristo. Pedir a sua intercessão não diminui a confiança em Deus; pelo contrário, exprime a convicção de que toda a Igreja – no Céu e na Terra – forma uma única família reunida em Cristo.

Em última análise, toda a oração dirigida aos santos termina sempre no mesmo destino: Deus. Os santos não substituem o Senhor; levam-nos até Ele. Como a lua reflete a luz do sol, brilham apenas porque recebem tudo de Cristo, e para Cristo orientam todos os que recorrem a sua ajuda.

 

Padre Ricardo Figueiredo