📿 Sacerdócio

Ministério sacerdotal: a evangelização na era das redes sociais

A evangelização na era digital e o desafio das mídias 

A evangelização a partir do surgimento das mídias alternativas com a revolução da internet trouxe inúmeras possibilidades. Entre elas, destacam-se o maior acesso à informação e à formação, a ampliação da conectividade entre as pessoas e a rapidez com que o Evangelho pode ser anunciado. Contudo, ao lado dessas oportunidades positivas, surgem também riscos consideráveis: a busca incessante por curtidas, compartilhamentos, comentários, visualizações e validação social.

Créditos: AnnaStills by Getty Images.

As mídias sociais, assim como os afetos (as onze paixões) descritos por Santo Tomás de Aquino, não são boas nem más em si mesmas. Sua qualidade moral depende do uso que delas se faz, orientado pela reta razão e pela vontade, isto é, pelos vícios e pelas virtudes. Por isso, para que possam ser utilizadas de maneira verdadeiramente positiva, vale a pena refletir sobre elas com maior profundidade.

Os lugares privilegiados para preservar as relações humanas autênticas

Ao pensar nas mídias sociais, é importante recordar o próprio caminho de Jesus: desde a Encarnação até a Ressurreição, Ele viveu trinta e três anos. Desses, apenas três corresponderam à sua vida pública; os outros trinta foram vividos no escondimento de Nazaré. Essa escolha não é acidental. Jesus ensina, por meio dela, que o anonimato, a discrição e o último lugar são espaços privilegiados para a preservação das relações humanas autênticas. Ele assume o último lugar, muitas vezes carregado de cruz, e faz dele o caminho da redenção.

Se Deus é a realidade das realidades, o fundamento de tudo o que existe, então tudo aquilo que está abaixo d’Ele só encontra seu sentido quando aponta para Ele. Nesse sentido, pode-se afirmar sem receio: aparecer é, antes de tudo, uma prerrogativa que pertence a Deus. Por isso, ocupar o primeiro lugar é sempre um risco. Em determinadas circunstâncias, alguém precisará aparecer, mas, quando isso acontecer, a consciência deve permanecer integrada: este não é o meu lugar; é Cristo quem deve aparecer. Essa consciência protege a integridade de quem se expõe. Afinal, aparecer é um grande risco espiritual.

A mensagem de Jesus é o centro de tudo

As mídias sociais carregam consigo um jogo dialético constante entre aparência e realidade. Por isso, quando for necessário aparecer, é preciso fazê-lo com a própria voz, isto é, com sinceridade. A comunicação deve transmitir não apenas conceitos, mas presença de espírito. Muitos assumem personagens diante das câmeras e, fora delas, tornam-se pessoas completamente diferentes. Essa divisão interior corrói a alma.

A consciência de que aquele lugar não me pertence preserva a integridade do sacerdote. Ela permite-me aparecer sem máscaras, com humildade, como criatura dependente de Deus, e não como alguém que pretende ocupar o lugar que só a Deus pertence. A evangelização através das mídias sociais precisa partir de uma verdade fundamental: a mensagem de Jesus é o centro de tudo. Entretanto, quando se trata de comunicação, o mais eficaz é comunicar o Cristo encarnado na própria vida. Trata-se de testemunhar o Jesus que reina na inteligência e na vontade: uma inteligência que conhece a realidade e uma vontade que, iluminada pela graça, escolhe as virtudes em vez dos vícios.

A identidade e a pequenez do sacerdote diante de Cristo

O sacerdote que se expõe nas mídias sociais precisa estar profundamente consciente de que o fim do seu trabalho não são os likes, os compartilhamentos ou os comentários positivos. O objetivo é outro: a conversão das pessoas. Trata-se de ajudá-las, como serviço, a encontrarem Deus, a estabelecerem uma relação viva com Ele e a crescerem nessa amizade. O mais importante é a relação real com Deus, não as visualizações. É próprio do diabo querer ser visto e reconhecido.

Quando um sacerdote utiliza as mídias sociais para atrair atenção para si mesmo, buscando aplausos ou reconhecimento, corre o risco de ocupar o lugar de Jesus. E é preciso lembrar que os aplausos jamais preenchem o coração humano. O que verdadeiramente o preenche é a consciência da existência: Deus existe; eu existo porque fui criado por Ele; fui querido livremente não por necessidade, mas por amor; sou filho de Deus e ministro d’Ele. O mais importante é o encontro do meu coração com o Coração do Pai.

A autorreferencialidade encontra, nas mídias sociais, um terreno fértil

Muitos sacerdotes acabam mergulhando em vazios espirituais e psicológicos, porque gastam suas energias buscando aceitação social, quando deveriam empregá-las em perceber e acolher o amor de Deus presente na realidade. Alguns chegam ao extremo da exposição ridícula, transformando-se em caricaturas de si mesmos. Sob o pretexto de apresentar um cristianismo alegre, acabam traindo a seriedade própria do Evangelho.

A verdadeira alegria não exclui a seriedade; pelo contrário, nasce dela. Já a exposição destituída de seriedade frequentemente não passa de uma busca por validação social e por estados passageiros de euforia. A autorreferencialidade, tantas vezes denunciada pelo Papa Francisco, encontra nas mídias sociais um terreno fértil. Ela se manifesta na falta de consciência de que não sou o centro, de que não sou a referência e de que, muitas vezes, é melhor não aparecer. Quando isso acontece, inicia-se um processo de desgaste da própria identidade sacerdotal. No fundo, trata-se de uma falta de Jesus na vida do padre.

Profunda vida interior, desapego e consciência de que a referência é Cristo

Como afirmou o Papa Francisco na homilia da Quinta-feira Santa, celebrada na Basílica Vaticana em 17 de abril de 2014:

O sacerdote é o mais pobre dos homens, se Jesus não o enriquece com a sua pobreza; é o servo mais inútil, se Jesus não o trata como amigo; é o mais louco dos homens, se Jesus não o instrui pacientemente como fez com Pedro; o mais indefeso dos cristãos, se o Bom Pastor não o fortifica no meio do rebanho. Não há ninguém menor que um sacerdote deixado meramente às suas forças; por isso, a nossa oração de defesa contra toda a cilada do Maligno é a oração da nossa Mãe: sou sacerdote, porque Ele olhou com bondade para a minha pequenez (cf. Lc 1,48).”

A isso se soma o fato de que existem sacerdotes que acumulam multidões de seguidores e, posteriormente, envolvem-se em escândalos. Quando alguém aparece publicamente, torna-se responsável, de certa forma, por aqueles que o acompanham. Por isso, se já é necessária uma profunda vida interior, desapego e consciência de que a referência é Cristo para qualquer sacerdote, essa exigência torna-se ainda maior para aqueles que falam diariamente a milhares ou milhões de pessoas.

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O escondimento e o anonimato estão entre os melhores alimentos da alma

Além disso, por mais virtuoso que um sacerdote possa ser, a fonte, o centro e a referência permanecem sempre os mesmos: Jesus Cristo. Por essa razão, aparecer deveria ser, para o sacerdote, um peso e uma responsabilidade; mas também uma grande alegria quando é Cristo quem verdadeiramente aparece através dele.

Não é por acaso que Jesus, após realizar muitos milagres, frequentemente pedia que nada fosse contado a ninguém. Há nessa atitude uma profunda pedagogia espiritual. O escondimento e o anonimato estão entre os melhores alimentos da alma. Eles preservam o coração da vaidade, mantêm viva a humildade e recordam constantemente que o protagonista da evangelização não é o evangelizador, mas o próprio Cristo.

Padre Leandro Rodrigues dos Santos
Arquidiocese de Curitiba (PR)
Mestre em Teologia pela Universidade Salesiana de Roma
Reitor do Seminário Propedêutico São João Maria Vianney
Pároco da Paróquia Santíssimo Sacramento em Curitiba