A consagração que antecipou o céu
A Virgem Maria, imagem perfeita da Igreja-Esposa (cf. LG63; Ap 19,7; 21,1-4), sonhava em se entregar a Deus totalmente e, por isso, viver uma virgindade consagrada por toda a sua vida (cf. LIGÓRIO, p. 277). Isso de forma alguma desmerece a imensa dignidade da sexualidade segundo o projeto de Deus (cf. Gn 1,18; CEC 2235;2367), mas expressa que a Virgem Maria, assim como São Paulo, quis livremente entregar-se a Deus com o amor de um coração indiviso e esponsal (cf. 1Cor 7,7-40; CEC 2349).

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Porém, na época, Israel esperava o seu Messias, e como não haviam ainda compreendido bem as profecias do Antigo Testamento, era quase um preceito que todas as mulheres casassem e gerassem filhos, na esperança de que alguma delas fosse a mãe do Messias. Inclusive a esterilidade era vista, erradamente, como um sinal certo de maldição divina. Por isso, socialmente, a Virgem Maria precisaria se casar.
As meninas em Israel costumavam se casar entre os doze e quinze anos. Quando chegou o tempo do casamento da Virgem Maria, o protoevangelho diz que o anjo apareceu ao sacerdote Zacarias, enquanto orava por ela, e lhe disse que aquele sobre o qual o Senhor mostrasse um sinal em um cajado seria o escolhido de Deus (PEA VIII, 3). Uma pomba desceu sobre o cajado de São José, o carpinteiro. E Zacarias disse a ele: “José, José, coube a ti receber a Virgem do Senhor e tomá-la sob tua guarda” (PEA IX, 1).
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Uma vocação tecida pelo Espírito
Existem divergências históricas se São José era um jovem ou um ancião viúvo. Como estamos em um terreno especulativo, podemos supor uma ou outra possibilidade, de acordo com aquilo que fizer mais sentido para nós. Mas o que São João Paulo II afirma é que, assim como a Virgem Maria, é natural supor que São José também tivesse o sonho de viver uma entrega a Deus com o coração indiviso. Nesta perspectiva, eles conversaram e decidiram se casar, de acordo com a convenção social e o costume do templo, mas decidindo também, de comum acordo, viverem uma abstinência permanente das relações conjugais. Disse São João Paulo II:
Pode-se supor que entre Joé e Maria, no momento do noivado, houvesse um entendimento sobre o projeto de vida virginal. (…) O Espírito Santo, que tinha inspirado a Maria a escolha da virgindade em vista do mistério da Encarnação, e queria que esta acontecesse num contexto familiar idôneo ao crescimento do Menino, pôde suscitar também em José o ideal da virgindade. (…) Através da comunhão virginal com a mulher escolhida para dar à luz Jesus,
Deus chama-o a cooperar na realização do seu desígnio de salvação. (JOÃO PAULO II, 2017 , p. 98-99)
Aqui é preciso esclarecer que é vontade de Deus que o casal, no matrimônio, viva plenamente a sua sexualidade (cf. CEC 2348-2350) e, por isso, a Igreja não vê com bons olhos que um casal fique muito tempo sem viver a sua conjugalidade. No caso da Sagrada Família, foi uma situação muito específica, em vista de uma missão particular da Santíssima Virgem e do Castíssimo São José, como pai adotivo de Jesus. A esse respeito, disse também São João Paulo II: “O tipo de matrimônio para o qual o Espírito Santo orienta Maria e José só é compreensível no contexto do plano salvífico e no âmbito de uma alta espiritualidade” (JOÃO PAULO II, 2017, p. 99).
O casamento, em Israel, acontecia em duas etapas. Primeiro, havia uma cerimônia religiosa, em que o casal recebia uma bênção pública. Depois de algum tempo, iam morar juntos, onde passariam a viver concretamente como marido e mulher. A Virgem Maria e São José receberam a bênção no templo, e por isso, diante de todos, eram casados. Mas, antes de irem morar juntos, começa a linda história, tal como nós conhecemos. A jovem menina de Nazaré receberia a visita do céu que mudaria a nossa história para sempre.
O modelo de resposta à vocação
A vocação da Virgem Maria lhe foi revelada pelo Arcanjo Gabriel, quando este se manifestou a ela e lhe anunciou que seria a Mãe do Salvador (cf. Mt 1,18; Lc 1,26). O anjo entrou onde ela estava e pronunciou aquela sentença que, mais tarde, se tornou a primeira frase da oração da Ave-Maria: “Alegra-te cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1,28). Qual terá sido o sentimento de Nossa Senhora ao receber essa revelação do Anjo?
São Lucas, em um primeiro momento, diz que ela ficou perturbada, pensando no que significava semelhante saudação (cf. Lc 1,29). A venerável Maria de Ágreda diz que a perturbação da Virgem Maria de forma alguma era motivada por medo do anjo, mas sim pelo fato de ela não se considerar digna de ser chamada daquela forma, sobretudo por um anjo (cf. ÁGREDA, 2019, p. 91). Mais ainda, não se considerou digna de ser a Mãe de Deus, logo mais, quando o anjo revelou:
Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um Filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono do seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu Reino não terá fim. (Lc 1,31-32)
O segundo motivo da perturbação de Maria foi em relação à promessa de virgindade que ela havia feito. Por isso mesmo, ela perguntou para o anjo como a concepção aconteceria. O Arcanjo respondeu: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra” (Lc 1,38). Sim, ela se tornaria a Esposa do Espírito Santo, como diz São Luís (cf. TVD 4;20;25;36;49;164;168;217).
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A resposta da Imaculada, menina apaixonada por Deus, que queria se entregar por inteiro, não poderia ser outra: “Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Muitas traduções preferem utilizar a palavra “serva” em vez de “escrava”, mas diz São Luís que, naquela época, não havia a distinção entre servos e escravos, pois havia somente escravos e livres (cf. TVD 72). Por isso optamos pela tradução literal. E foi assim que, no útero da Virgem Maria, “o Verbo se fez Carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).
Pouco depois, no encontro que veremos no próximo tópico, Santa Isabel chama a Virgem Maria de “Bem-Aventurada” (Lc 145). Este termo, na Bíblia, significa “Feliz”. De fato, a felicidade está na entrega a Deus. E isso que Jesus diz no Evangelho, logo após fazer o seu chamado ao jovem rico:
Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terra por causa de Mim e por causa do Evangelho, que não receba, já nesta vida, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições e no século vindouro a vida eterna. (Mc 9,29-30)
Este é o “cêntuplo”, isto é, o “cem vezes mais” que Jesus promete para aquele que entregar a sua vida por Ele. Evidentemente, o “cêntuplo” não se dá em bens materiais, mas em uma felicidade interior, que, em outras palavras, é a realização de estar fazendo aquilo para o qual foi criado. O problema é que o jovem rico não quis atender ao chamado de Deus, e saiu triste (cf. Mc 10,22). A jovem Virgem Maria, nesse sentido, é a antítese bíblica do jovem rico, pois ela sim, entregou tudo e se tornou feliz, bem-aventurada.
São Luís nos diz que nós não somos simplesmente chamados a honrar a Santíssima Virgem com atos externos, mas procurar imitar as virtudes da Virgem Maria: é preciso ser Maria, como uma cópia viva (cf. TVD 217). Por isso nós também somos chamados a viver a nossa vocação pessoal, seja ela qual for. E dentro do que Deus nos chamar, renunciar a algo e receber o cêntuplo, e por isso mesmo, sermos felizes:
- A Virgem Maria renunciou a todos os projetos humanos que tinha para ser a humilde escrava do Senhor, e foi coroada como Rainha do Céu e da Terra (cf. Ap 12.1-15).
- O homem que é casado renuncia a todas as mulheres do mundo pelo amor de uma única mulher. A mulher que é casada renuncia ao amor de todos os homens do mundo pelo amor de um único homem. E ambos realizam isso juntos, na abertura à vida, para construir uma família segundo o Coração de Deus (cf. CEC 1643-1654).
- Quem vive uma vida consagrada em uma vocação celibatária renuncia a uma esponsalidade humana para ser esposa de Cristo ou esposo da Igreja (no caso do sacerdote) com o “coração indiviso” (cf. 1Cor 7,7-40; CEC 2349), e renuncia a uma paternidade ou maternidade biológica para gerar filhos espirituais para o céu.
- Quem é membro de um carisma em uma congregação religiosa ou comunidade de vida e aliança renuncia a uma série de projetos humanos para, sem se desfazer da sua personalidade, individualidade e originalidade, ser sinal de um carisma na própria comunidade e no mundo.
Essa felicidade cristã não significa, de forma alguma, a ausência de problemas, provações e sofrimentos, assim como a própria Virgem Maria sofreu em sua vida, sobretudo no Calvário, quando uma espada de dor transpassou a sua alma (cf. Lc 2,35). Por isso o próprio Jesus adverte que será “com perseguições” (Mc 9,30).
Portanto, entreguemos a nossa vida a Deus, mas sem a pretensão de uma ausência de provações. Caso contrário, a consequência inevitável será a frustração. A felicidade plena não será aqui na terra, mas no céu. Aqui na terra, essa felicidade cristã se faz presente como realização do ser, mas nem sempre como a experiência humana demonstra.
A felicidade, nesse sentido, não pode ser diretamente buscada, mas aparece como um efeito à medida em que entregamos a nossa vida por algo maior do que nós.
Por isso a bem-aventurança da Virgem Maria tem a sua continuidade na nossa vida, quando vivemos o Evangelho:
Bem-aventurados os que têm coração de pobre (…) os que choram (…) os mansos (…) os que têm fome e sede de justiça ( os misericordiosos (…) os puros de coração (…) os pacíficos (…) os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. (Mt 5,3 – 11)
Texto extraído do livro: Segredos da Virgem Maria de Padre Francisco Amaral






