Aprender a ouvir antes de querer opinar sobre tudo
Você já reparou como parece que, hoje em dia, precisamos ter uma opinião sobre tudo? Ouvimos alguém contar sobre algo e, automaticamente, vem uma vontade quase incontrolável de opinar. Claro que o direito de expressão e de manifestação do que pensamos é justo e digno.
É saudável para cada um de nós que tenhamos a liberdade de pensar com a própria cabeça e dizer o que sentimos. Mas basta olhar para a cultura do cancelamento e para os “fiscais da vida alheia” para notar uma dinâmica cruel: a tecnologia acabou dando voz (e poder) a uma legião de pessoas capazes de julgar e opinar sobre a vida de quem sequer conhece.

Crédito: sefa ozel / Getty Images.
Invadimos os perfis de pessoas desconhecidas por nós (pelo menos quando pensamos em intimidade) e damos opiniões: “eu faria diferente”, “isso é ridículo”, “você fala isso porque é rico ou pobre”. Essas e outras frases as encontramos aos montes nas redes sociais. Às vezes, nem percebemos o quanto fazemos isso. Parece natural. Como se ter uma opinião nos obrigasse, automaticamente, a compartilhá-la e, por vezes, até ofender o outro.
Ter opinião, evidentemente, não é um problema. Saber o que pensamos, reconhecer nossos valores e conseguir nos posicionar diante da vida é importante. A questão começa quando acreditamos que toda opinião precisa ser expressa, que toda escolha do outro precisa ser comentada ou que, de alguma maneira, precisamos mostrar às pessoas como elas deveriam conduzir a própria vida.
Muitas polêmicas causadas pelos questionamentos em redes sociais parecem ser uma voz que clama por algo, por mudança. Mas será que o verdadeiro ativismo consiste apenas em dar opiniões públicas? É um comportamento preocupante, muito amplificado pelas redes. Parece haver a crença de que ser implacável com os outros é uma forma de transformação. Mas limitar o engajamento a tuítes e cobranças pontuais não passa de uma falsa sensação de dever cumprido. É como se falar e dar opinião fosse uma forma efetiva de ação e de mudança do mundo, quando não é.
Quando confundimos a preocupação com controle
Talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer antes de falar seja muito simples: “Essa pessoa pediu a minha opinião?”
Pode parecer uma pergunta óbvia, mas ela muda completamente a forma como nos relacionamos. Quando uma pessoa nos conta algo, precisa, na maioria das vezes, ser ouvida, e atualmente, parece que há muita dificuldade em apenas ouvir, acolher as preocupações do outro, encontrar alguém para desabafar. E, quando respondemos imediatamente com conselhos, julgamentos ou críticas, podemos acabar interrompendo justamente aquilo que ela mais precisava naquele momento: ser acolhida.
Imagine, por exemplo, que alguém próximo diga: “Estou passando por uma fase muito difícil no meu casamento”. Antes mesmo de ouvir a história inteira, podemos pensar: “Você precisa se separar”, “Eu já tinha percebido que ele não era uma boa pessoa” ou “Se fosse comigo, eu não aceitaria isso”. Mas será que é disso que aquela pessoa precisa? Talvez ela só queira contar o que está vivendo. Talvez ainda esteja tentando entender o que sente, ou esteja confusa, ou ainda nem saiba que decisão tomar.
Quando alguém desabafa sobre uma crise, o impulso imediato costuma ser dar conselhos ou julgar a situação. No entanto, ouvir não significa concordar nem assumir a responsabilidade pelas escolhas do outro, mas oferecer escuta, presença e respeito. Lembrando que a nossa régua nem sempre servirá para o outro.
O problema é que frequentemente confundimos preocupação com controle. Queremos proteger quem amamos, mas esquecemos uma verdade essencial: não podemos viver a vida dos outros. Cada um deverá viver suas escolhas e aprender com elas. O que eu vivi nem sempre será molde para a vida do outro. E cabe uma boa pergunta: “estou ajudando ou apenas impondo meu ponto de vista?”
Amar e respeitar o outro não significa querer decidir por ele
Amar e respeitar o outro exige reconhecer os limites entre nós e ele. Nem toda crítica precisa ser dita, nem toda escolha alheia precisa da nossa aprovação, e saber quando escolher o silêncio é uma das maiores demonstrações de sabedoria.
Isso acontece muito dentro das famílias. Pais que continuam tentando decidir a vida dos filhos adultos, irmãos que acreditam saber o que é melhor para os irmãos, amigos que se sentem responsáveis pelas escolhas uns dos outros. A intenção, muitas vezes, pode até ser boa. Queremos proteger quem amamos, evitar que a pessoa sofra, impedir que ela cometa os mesmos erros que nós cometemos. Só que existe uma verdade difícil de aceitar: não podemos viver a vida do outro por ele.
E aqui existe uma reflexão ainda mais profunda: por que sentimos tanta necessidade de opinar?
Será que realmente queremos ajudar? Ou será que temos dificuldade em aceitar que alguém pense diferente de nós? Será que precisamos sentir que estamos certos? Será que ficamos desconfortáveis quando não conseguimos controlar uma situação? Será que acreditamos que, se não interferirmos, algo ruim necessariamente acontecerá?
Nem sempre a nossa necessidade de opinar tem relação com o outro. Às vezes, ela revela uma necessidade nossa de controle, de reconhecimento ou até de segurança.
Quando conseguimos perceber isso, começamos a desenvolver uma relação diferente com as nossas próprias opiniões. Não precisamos abandoná-las. Não precisamos concordar com tudo. Não precisamos nos tornar pessoas passivas ou indiferentes. O que precisamos aprender é que ter uma opinião e precisar expressá-la são duas coisas diferentes.
Essa diferença pode parecer pequena, mas faz uma enorme diferença nos relacionamentos.
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O valor da escuta é fundamental para um relacionamento de confiança e empatia
Imagine quantas discussões poderiam ser evitadas se, antes de responder, fizéssemos uma pequena pausa. Quantas conversas seriam diferentes se, em vez de imediatamente aconselhar, perguntássemos: “Você quer ouvir o que eu penso ou só precisa conversar?”. Quantas relações poderiam ficar mais leves se entendêssemos que nem toda diferença precisa ser corrigida?
Talvez uma das perguntas que mais podem nos ajudar, embora desconfortável, seja: “Eu estou dizendo isso porque realmente pode ajudar ou porque preciso que o outro pense como eu?”
No consultório, muitas vezes, percebemos o quanto essa dificuldade de respeitar o espaço do outro pode estar presente nas relações. E aprender a estabelecer limites não significa apenas dizer “não” quando alguém invade o nosso espaço. Também significa aprender a reconhecer os limites que existem entre nós e o outro. Cada um tem responsabilidade sobre suas próprias escolhas.
Expressar pontos de vista é saudável, mas o policiamento moral constante compromete o bem-estar e as relações. Nem toda opinião precisa ser compartilhada e nem toda a escolha das outras pessoas precisa da nossa aprovação.
Talvez a resposta para “Preciso opinar sobre tudo?” Seja simples: Não. Ter pontos de vista e discordar é natural, mas nem todo pensamento exige uma intervenção. Muitas vezes, o melhor a oferecer não é um conselho ou julgamento, mas escuta, presença e respeito. Afinal, uma das maiores demonstrações de maturidade é ter o que dizer e, ainda assim, escolher o silêncio.





