O termo é forte e muito presente no dia a dia das redes sociais. No universo digital, excluir ou bloquear é o mesmo que decretar a “morte social” de alguém sem sujar as mãos.
A intolerância à existência do diferente
Era 30 de abril de 1945 quando Hitler tirou a própria vida ao lado da esposa em seu bunker – “Führerbunker”. A ordem de cremar o corpo partiu dele próprio aos membros de sua tropa. A cremação era a solução para evitar ser exibido como um troféu por seus oponentes da mesma forma como ocorreu com o seu aliado, Benito Mussolini – morto e pendurado de cabeça para baixo em praça pública na cidade de Milão em 28 de abril do mesmo ano.
Foram 12 anos e 3 meses no poder com um saldo de 6 milhões de judeus exterminados em campos de concentração, além da morte de milhares de opositores. Hitler se matou por ser totalmente dependente de reconhecimento social e do poder. Viver isolado, longe do glamour e dos holofotes, seria insuportável para alguém que criou para si próprio uma versão fictícia de “messias todo-poderoso” – afirmou o historiador inglês Thomas Weber em entrevista à BBC. A incapacidade de lidar com a rejeição artística na juventude, somada ao orgulho ferido, alimentou um desejo obsessivo em Adolf Hitler de moldar o mundo à sua própria imagem e semelhança, eliminando sumariamente qualquer elemento que representasse o contraditório ou a desaprovação. O autoritarismo, em sua gênese, nasce dessa fragilidade egóica: a necessidade absoluta de aplausos e a total intolerância à existência do diferente.

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Tribunal virtual e o cancelamento
Embora guardadas as devidas proporções históricas, esse mesmo mecanismo psicológico opera hoje, de forma silenciosa e atomizada nas nossas telas de celular. O desejo moderno por aprovação digital medido em curtidas, comentários e visualizações — estas ações digitais, inflam o ego e proporcionam o surgimento de “soberanos de um pequeno tribunal virtual”. E quando surgem críticas ou manifestações contrárias nestes ambientes, a ação mais fácil é “clicar” na eliminação desta pessoa – bloqueio ou exclusão. Rage Bait é o termo para tal ação e foi definida como a palavra do ano de 2025 pelo dicionário Oxford. De forma objetiva, a expressão significa: “isca de raiva”, ou seja, conteúdos feitos de forma proposital para gerar raiva e engajamento nas redes sociais.
Cristo ensina a quebrar o ódio e a exclusão
No Sermão da Montanha, Jesus nos recorda algumas atitudes que podem servir de remédio e busca de diálogo antes de banir alguém digitalmente: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! ” (Mt 5,7) e “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados de filhos de Deus! Bem aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus!” (Mt 5,9-10).
Se, no autoritarismo, figuras como Hitler nascem de um ego inflado que não suporta a rejeição e exige o controle absoluto do ambiente, o Evangelho nos aponta o caminho exatamente oposto. Jesus não ensinou a deletar os opositores, mas a amar os inimigos e a rezar pelos que nos perseguem (Mt 5,44). A cruz é o maior símbolo do antiautoritarismo: em vez de eliminar quem O contrariava, Cristo permitiu-se ser eliminado por amor, quebrando o ciclo do ódio e da exclusão.
Vencendo o genocídio do afeto
Vencer o genocídio do afeto nas redes sociais exige, portanto, uma profunda conversão do coração, que começa pela cura da carência de aplausos. Quando se compreende que o verdadeiro reconhecimento social e valor vêm de Deus, e não do número de curtidas ou da validação virtual, é possível abandonar a divergência como uma ameaça à existência. O outro deixa de ser um perigo para o ego e volta a ser um irmão a quem se deve prestar a caridade.
Antes de apertar o botão que decreta o apagamento do próximo na sua vida, faça um exame de consciência. Desça do seu trono digital e recorde-se da paciência que o Senhor tem com suas falhas. Lembre-se: todos os santos, por mais bonitos que transpareçam na foto ou imagem devocional, padeceram por humilhações, perseguições e falta de compreensão. Ofereceram todas as calúnias como sofrimento e amor a Cristo. Foram agentes promotores do bem e da paz.
A coragem do encontro, ir além do algoritmo
O ser humano é a mais perfeita criação de Deus, portanto, o meio digital não pode influenciar o modo de agir no mundo real. A intolerância propagada no ambiente virtual não pode impelir o modus operandi de me relacionar com outro ser humano tão amado e querido por Deus como eu sou. Na Encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV ressalta que as redes sociais e os algoritmos promovem uma “amizade desencarnada”, sem corpo, sem toque e sem olhar, enquanto o ser humano precisa da presença física para se realizar plenamente. Portanto, curar o tecido social e eclesial exige de nós a coragem do encontro e a renúncia à soberba.
Que, sustentados pela Graça, esvaziemos o orgulho para preencher as nossas redes — e as nossas vidas — com a verdadeira comunhão cristã, lembrando que será a Deus que todos nós, sem escapatória, prestaremos contas no fim da existência humana nesta terra.







