Sociedade

Masculinidade: algo natural ou uma construção da sociedade?

Ao emitirmos um questionamento como este do nosso tema, podemos tanto provocar reflexões quanto estabelecer uma insegurança conceitual

Contudo, não é esta a nossa ideia, mas sim a primeira. A masculinidade pode ser entendida como uma série de fatores reunidos, mas o ponto de partida para distinguir o que é próprio do masculino e aquilo que pertence ao feminino será o dado biológico. Aqui, já pensamos, certamente, em apresentar nossa conclusão lógica: se esta falta, não pensamos mais falar em masculinidade.

Crédito: anilakkus/GettyImages

A pergunta do nosso tema é, contudo, mais ligada às questões de identidade de gênero

Nesta busca de questionar paradigmas já preestabelecidos ao longo de séculos, distribui-se a intenção de explicar que o discurso binário é muito mais uma construção social do que algo natural. Pensadores contemporâneos trouxeram este tipo de questionamento à tona sem a intenção de explicar a possibilidade de que categorias masculinas e femininas estejam muito mais ligadas a dados culturais.

Porém, a distinção entre aquilo que é próprio do masculino e do feminino foi estruturada ao longo da história em dados primeiro biológicos, depois culturais, e não o contrário. Portanto, pertence ao âmbito da natureza das coisas, e não à sua construção cultural. A evolução das espécies, segundo o que Darwin propôs, descreve algumas características básicas, como o fato da adaptabilidade, mas também, no caso do ser humano, da colaboração. Eram os indivíduos do sexo masculino que, por suas características físicas, desempenhavam papéis de proteção e provisão.

Contudo, cabia ao feminino a gestão das disposições para o grupo social, pois isso requer menos esforço físico, característico do organismo feminino nas primatas. Essa realidade deu-se ao longo dos séculos em que o homem tendia a trabalhos braçais mais exaustivos, próprios de sua resistência, ao passo que as mulheres se dedicavam a outros menos exaustivos. Levamos em consideração a seleção de abordagens em indivíduos singulares; mas, em sua maioria, o comportamento humano dava-se assim. Essa realidade, sim, transportou-se de uma questão meramente física e natural para uma convenção social — não por força da educação, mas porque a realidade se exige.

Hoje, alguns aspectos ditos masculinos foram transportados para o âmbito feminino e vice-versa

Por exemplo, principalmente o sapato de salto alto era próprio do masculino; hoje, culturalmente, é impensável que um homem use tais calçados. Ou, em muitos casos, os homens passaram a depilar os pelos de seus corpos, principalmente por questões relacionadas a esportes como a natação (uma prática principalmente feminina), bem como passaram a usar produtos de beleza e perfumes.

Mas todos esses exemplos estão no âmbito da cultura, porque dispensar o uso de desodorante, em muitos povos africanos, é considerado uma prática tanto feminina quanto masculina. Já para outros povos, nem para os homens nem para as mulheres é aceitável dispensar produtos que inibem os odores corporais. Mais um exemplo de práticas que independem da sexualidade.

Assim, o que é próprio do masculino diz respeito novamente às atitudes, neste caso menos delicado, como a disposição para o trabalho pesado e uma menor manifestação dos sentimentos — que são aquelas características ditas primitivas, mas que fundamentam a distinção partindo do dado biológico e da estrutura corpórea da pessoa. Ao constatar isso, não diminuímos a figura feminina nem exaltamos a masculina. Apenas as colocamos em seus devidos lugares e damos a cada um destaque para sua missão na sociedade.

Qual o carregamento de cada um?

Ao masculino cabe, principalmente, a defesa e a resiliência; à mulher, cuidar para que todas as gerações de pessoas possam ser bem educadas e que possam respeitar a todos em sua dignidade de pessoa. A construção cultural, é que podemos chamar assim, não parte de si mesma, mas vem da observação natural. Se assim não fosse, teríamos apenas uma utopia ou um discurso destacado da realidade, imposto apenas pela ideia humana, e não pela ciência, que é capaz de partir também da observação da natureza.

Quando trazemos esta reflexão para o âmbito da teologia, entendemos que ambos fazem parte da ideia forjada sobre a dama e o cavalheiro (Cf. Gomes, 2006). A primeira, gentil, casta e virgem, que aguarda o amado, como a Igreja que espera a chegada do seu Senhor. Delicada e que se enfeita com seus adornos de alegria, pronta para ser transportada, protegida e guardada. Ao passo que o cavaleiro é aquele capaz de lutar com toda a sua força e se entregar plenamente, fazendo o mesmo por causa de sua amada; que não mede esforços para que ela seja cuidada e santa; e que, através desta dedicação, também compreende sua missão de doador e de provedor.

Esta mesma reflexão remete ao homem que, após o pecado, teve de lavrar a terra para produzir seu sustento, ao passo que à mulher foram impostas as dores de parto. Quer dizer: cada um tem sua própria dor. A um é dado o dever do cuidado e da proteção — esta é a característica social principal da masculinidade —, à outra o de gestar e educar o perfil e administrar os bens fornecidos para o bem de todos.

Mas ainda em sentido profundo, é preciso, neste tempo de imensa mudança cultural, afirmar a masculinidade, assim como o fez Davi para com seu filho Salomão (1 Reis 2, 2), ao recomendar coragem e virilidade. São atitudes próprias dos homens. Biologicamente, o homem porta em si as características viris. Psicologicamente, precisa ser confirmado e afirmado. E, espiritualmente, o masculino tem um significado profundo no que diz respeito ao modo diverso de expressividade da fé entre o feminino e o masculino, tendo como característica masculina a racionalização desta.

Referência

GOMES, Romeu. A construção social da masculinidade. Cadernos de Saúde Pública, v. 22, p. 1118–1118, 2006.