Lição da espera

A carta que ensina a esperar: reflexões sobre tempo e relacionamentos

O desuso das cartas e a cultura do imediatismo

Em pleno século XXI, o hábito de escrever cartas pode parecer estranhamento rústico, quase uma forma rudimentar de comunicação. Muitos talvez não tenham plena consciência de que, durante séculos, esse foi um dos principais meios pelos quais pessoas separadas por grandes distâncias mantinham comunicação, transmitindo notícias, compartilhando sentimentos e mantendo vínculos.

Da primeira carta ao e-mail: 4 mil anos de comunicação

A primeira carta conhecida remonta a cerca de 2031 a.C., feita em uma pequena tábua de argila. Já o primeiro e-mail, mensagem de natureza eletrônica mais próxima do nosso contexto de mensagens eletrônicas, foi enviado em 1971, ou seja, uma distância de 4.002 anos separou essas tecnologias de comunicação assíncronas. Houve, claro, vários aperfeiçoamentos, a invenção e o aprimoramento do papel, os diferentes sistemas de envio de correspondência, o telegrafo etc. Contudo, é nítido que o homem sempre buscou meios de superar suas limitações diante das grandezas do tempo e espaço.

O desuso das cartas e a cultura do imediatismo

Entretanto, não se pode diminuir o desuso das cartas ao abandono de uma forma de comunicação ineficiente; a perda deste hábito lança luz sobre nosso comportamento na contemporaneidade, em especial a maneira como passamos a nos relacionar com o próprio tempo e com o próximo.

O imediatismo se tornou o padrão de eficiência, tornando-nos cada vez mais incapazes de suportar a espera e cada vez mais propensos a ser consumidos pela ansiedade por respostas rápidas. Se uma mensagem, em poucos minutos, não é respondida, isso gera interpretações de desprezo, desinteresse e indiferença; a demora, ainda que justificável, converte-se em motivo de inquietação.

A democratização da tecnologia reduziu distâncias – podemos conversar, por exemplo, em poucos segundos, com alguém que se encontra fisicamente do outro lado do planeta. Mas, aquilo que deveria ser um meio pelo qual se facilita a comunicação, passou a ser o impositor de ritmo nas relações humanas, não basta mais receber uma resposta, ela tem que ser imediata.

Logo, a velocidade proporcionada pelos meios de comunicação não é apenas uma característica tecnológica, e sim um parâmetro capaz de moldar o comportamento de seus usuários. Nós passamos a pensar depressa, escrever depressa, responder depressa e, não raro, nos arrepender com a mesma rapidez pelos frutos desse imediatismo.

A ansiedade e a dificuldade de viver o presente

Essa inquietação não se circunscreve a esfera das mensagens instantâneas, ela revela uma dificuldade crônica em viver o presente. Nossas mentes vivem sendo consumidas pelo futuro, antecipando respostas, imaginando problemas que não aconteceram e sofrendo por interpretações que construímos se conhecer os fatos.

Nesse contexto, as palavras de Cristo no Evangelho mostram-se atuais “Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado” (Mateus 6,34). Note-se que a admoestação não é um incentivo a irresponsabilidade ou indiferença, mas uma advertência contra a preocupação desordenada e a negligência do presente, nos sobrecarregando com sofrimento de coisas que talvez sequer venham a existir.

É inegável que isso caracteriza perfeitamente nosso comportamento no contexto midiático.
Recebemos uma mensagem, se está é muito breve, deduzimos que estamos sendo rejeitados, se há demora em responder, imaginamos desprezo. Cultivamos então sofrimento por coisas que não aconteceram, mas preenchemos o vazio de nossa falta de paciência com as evidências imaginadas pela ansiedade.

Crédito: Johnce / GettyImages

A carta que ensina a esperar: lições do hábito de escrever

É curioso perceber o contraste com a cultura de escrever cartas, ela demandava uma disposição completamente diferente. Primeiramente era necessário separar um momento, ou seja, não era algo que se fazia ao andar ou fazer outras atividades, depois escolher o papel e, antes de escrever, organizar os pensamentos, pois não haveria uma opção de editar ou apagar, era necessário encontrar palavras capazes de transmitir aquilo que se queria dizer.

Contudo, o mais interessante é o que se dava depois que a carta era enviada: a espera. Um exercício de paciência que envolvia um intervalo de dias, semanas ou até que o remetente recebesse a carta e enviasse uma resposta. Logo, não havia opção, era preciso cultivar a paciência na expectativa de uma resposta. O tempo necessário não era interpretado como rejeição, era parte natural do processo de comunicação.

Hoje, contudo, a espera é uma falha, qualquer momento de silêncio deve ser preenchido com notificações. Há uma perturbadora dificuldade em esperar diante de qualquer coisa que não seja uma resposta rápida.

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A espera como respeito e aprendizado

Mas é importante meditar que a espera também educa, ela nos lembra que nem tudo está sob nosso controle, que o outro possui seu próprio tempo e que relacionamentos reais não se sustentam por uma disponibilidade permanente.

Assim, esperar significa reconhecer que o outro não existe apenas para responder às nossas demandas. Reconhecer que ele possui sua própria rotina, responsabilidades, preocupações e silêncios. A paciência, portanto, não é apenas a capacidade de esperar, mas uma demonstração de respeito.

 

Jonatas Passos é natural de Cruzeiro (SP), pai e colaborador da Fundação João Paulo II. Formado em Tecnologia, Informática e História. Pós-Graduado em Jornalismo e História do Brasil, com extensão em História da Religião, Pós-Graduando em Leitura e Produção de Texto.