🤔 Reflexão

Amigo ou pai? Onde termina a liberdade e começa a correção?

A paternidade deriva de Deus Pai e o amor não abdica da verdade

— Será que se eu disser “não”, meu filho vai deixar de gostar de mim?

Mesmo não verbalizada, parece ser uma dúvida que habita silenciosamente o coração de muitos. Vivemos em um mundo que valoriza relações horizontais, espontâneas e livres de conflitos, de modo que alguns pais até confundem proximidade e amor com ausência de autoridade, acreditando que a amizade é a fórmula para conquistar o afeto dos filhos.

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Acolhimento e presença são fundamentais, mas há sempre uma pergunta no ar: quando essa busca pela amizade começa a enfraquecer a missão da paternidade?

Ser pai não é apenas desempenhar uma função social, mas sim corresponder a uma vocação divina. A paternidade deriva de Deus Pai (cf. Ef 3,14-15), de tal sorte que a autoridade não se aparta da misericórdia, e o amor não abdica da verdade.

O filho precisa de um pai

A amizade entre pais e filhos é importante e interessante para o desenvolvimento, mas requer tempo para amadurecer. Até a adolescência, o filho precisa muito mais de alguém que lhe ofereça direção, estabilidade e segurança. Quando um pai abre mão de sua autoridade para ser apenas um amigo, deixa o filho sem os alicerces de sua formação.

  • Enquanto os amigos compartilham vivências, o pai apresenta critérios.
  • Os amigos acompanham; o pai é uma referência.

O Catecismo da Igreja Católica (CIC) lembra que os pais receberam de Deus a missão de educar seus filhos pelo exemplo, com carinho e autoridade (cf. CIC 2221-2231). A liberdade não consiste em fazer tudo o que se deseja, mas em escolher o que conduz ao bem. Os limites não são inimigos da liberdade, mas seus mestres. São Paulo nos apresenta esse equilíbrio com perfeição: “E vós, pais, não exaspereis os vossos filhos, mas educai-os na disciplina e na correção do Senhor.” (Ef 6,4). O Apóstolo rejeita tanto o autoritarismo que fere quanto a permissividade que desampara. A autoridade cristã nasce do amor e existe para fazer crescer.

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Participar da obra de Deus pela educação

O psicólogo Carl Rogers assegurava que o ser humano possui uma inclinação natural para o crescimento, à qual deu o nome de tendência atualizante. Essa propensão interior orienta a pessoa a se desenvolver e a transformar suas potencialidades em atos. Essa percepção concorre com a reflexão do jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, que via a criação inteira avançando para uma perfeição que encontra em Jesus Cristo seu sentido último. O ser humano foi criado para crescer sempre, integrando inteligência, liberdade, afetividade e espírito em resposta ao chamado de Deus.

A fé cristã, porém, acrescenta um ponto decisivo: esse dinamismo existe, mas foi ferido pelo pecado. Continuamos convivendo com forças antagônicas, do bem e do mal, que podem nos desviar da verdade. É nesse terreno complexo que Santo Agostinho ilumina a questão, recordando-nos de que a verdadeira liberdade não consiste em fazer o que se quer, mas em aderir ao bem.

Em suas Confissões, ele afirma que o coração humano só descansa quando se volta para Deus. Para ele, a liberdade sem verdade é a escravidão das paixões. “Ama e faze o que quiseres”, dizia Santo Agostinho, não para agir sem limites, mas afirmando que o amor orienta a vontade para o bem.

O pai não molda o filho segundo suas próprias vontades, tampouco observa de modo passivo o seu crescimento; pelo contrário, coopera com a graça, ajudando-o a ordenar seus afetos e a dirigir sua liberdade. Sua tarefa é como a de um jardineiro: considerando que a semente já carrega consigo a potência para ser árvore, o jardineiro não cria essa vida, mas prepara o solo, rega de acordo com a necessidade, retira o que pode sufocar, protege o que é frágil e acompanha o processo.

A correção não limita a liberdade, ela a preserva; não impede o crescimento, orienta-o. Como lembrava Viktor Frankl, o ser humano só se realiza quando encontra um sentido que transcenda seus desejos imediatos. Educar é ajudar o filho a descobrir que a verdadeira felicidade nasce da responsabilidade.

Corrigir é amar profundamente

Quem ama não se cala quando percebe a pessoa amada em risco, mas age e protege. Mas como corrigir sem magoar? O Evangelho ensina o caminho: escutar antes de corrigir, compreender antes de julgar e ensinar antes de punir. A correção deve atingir o comportamento, nunca a dignidade da pessoa.

A correção cristã nasce do amor. Quem corrige com raiva ensina medo, enquanto quem corrige com serenidade ensina responsabilidade. São João Bosco dizia que o jovem não deve apenas ser amado, mas precisa perceber que é amado.

Nenhuma palavra educa sem o testemunho. Os filhos observam mais do que escutam. Um pai que vive o que ensina, reza, tem disciplina, trabalha com honestidade, pede perdão quando erra e respeita a esposa, educa continuamente, mesmo em silêncio.

São José: a autoridade que nasce da coerência

Apesar de o Evangelho não registrar nenhuma palavra de São José, ainda assim sua autoridade é imensa. Protegeu sem dominação, conduziu sem imposição e obedeceu a Deus sem hesitação. Educou Jesus mais pelo exemplo do que pelas palavras. Sua autoridade brotava de sua coerência: era firme pela sua humildade; era respeitado porque servia.

A autoridade não se impõe pelo volume da voz, mas pela credibilidade da vida. Como ensinou o Papa Francisco na exortação Amoris Laetitia, educar exige equilíbrio entre acompanhar e corrigir. A missão dos pais não é controlar cada passo, mas preparar os filhos para a jornada, sustentados por virtudes e pela confiança em Deus.

Não apenas amigo

Há uma falsa pergunta que proporciona uma escolha incorreta: “amigo ou pai?”. O pai cristão é convocado a exercer sua autoridade no amor e na verdade, de modo que, quando o filho amadurecer, poderá perceber nele não somente o pai, mas também um conselheiro e um amigo precioso.

Um farol não evita o navegar da embarcação, nem navega por ela, mas permanece iluminando nas noites escuras. Assim é o pai que, com sua presença constante, impede que o filho perca o rumo. É provável que os filhos esqueçam muitos conselhos, mas não esquecerão quem permaneceu ao seu lado quando o mar ficou revolto.

Que São José, nosso pai e senhor, interceda por todos os pais, para que vivam sua missão com acolhimento, firmeza e humildade, conscientes de que educar[ um filho é participar da obra de Deus.

Antonio Siqueira 
Professor Doutor em Ciência da Religião (PUC-SP). Mestre em Tecnologia Ambiental; Especialista em Logoterapia e Análise existencial; Especialista em Counseling; Profissional da área de comportamento humano e aconselhamento terapêutico; Professor de pós-graduação; Diretor do Instituto Roko; Diretor da Prolab Ambiental.