O dever inalienável dos pais na transmissão da fé
A fecundidade do amor conjugal não se reduz apenas à procriação dos filhos. Deve também estender-se à sua educação moral e à sua formação espiritual. O papel dos pais na educação é de tal importância, que é impossível substituí-los (15). O direito e o dever da educação são primordiais e inalienáveis para os pais (CIC – 2221)¹.
O Catecismo da Igreja Católica deixa bem claro que o amor dos cônjuges não se limita a ter filhos somente, mas em criá-los e educá-los na fé católica. É preciso ter essa consciência de que filhos são bênçãos, que são dom, mas também são tarefa. Muitos pais se preocupam com tantas coisas: com o sustento da casa, com a qualidade de vida, com a qualidade de ensino, com o vestuário, as dívidas mensais, entre outras coisas; e tudo isso é importante para a organização e o planejamento familiar.

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O que muitos pais não se preocupam é com a qualidade dos relacionamentos dentro do ambiente familiar. Muitas famílias terceirizam a educação dos seus filhos pagando pessoas para cuidar deles, ou colocando os filhos em escolas de tempo integral para que possam chegar somente no fim do dia — não que seja errado, pois alguns pais não têm outra opção porque precisam trabalhar para garantir o sustento financeiro da família e não têm com quem deixar seus filhos, e o tempo integral se torna a única opção possível e justa. Mas outros pais deixam seus filhos em escolas integrais para que eles não precisem ficar algum período em casa sob os cuidados paternos – isso é errado!
A construção das virtudes no âmago do lar
Os filhos precisam passar tempo com os seus pais, porque isso lhes fortalece vínculos familiares, criando memórias afetivas, trazendo segurança emocional para a criança, sarando possíveis traumas, criando um ambiente propício para a formação do seu intelecto e do seu imaginário ainda em construção. Como ensina o Catecismo, o papel dos pais na educação é de tal importância, que é impossível substituí-lo, não sendo possível terceirizar essa tarefa quando é possível ser realizada pelos próprios pais.
Os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos. Testemunham essa responsabilidade, primeiro, pela criação de um lar onde são regra: a ternura, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado. O lar é um lugar apropriado para a educação das virtudes, a qual requer a aprendizagem da abnegação, de critérios sãos e autodomínio, condições da verdadeira liberdade. Os pais ensinarão os filhos a subordinar «as dimensões físicas e instintivas às dimensões interiores e espirituais» (17). Os pais têm a grave responsabilidade de dar bons exemplos aos filhos. Sabendo reconhecer diante deles os próprios defeitos, serão mais capazes de os guiar e corrigir (CIC – 2221)².
Como os pais podem criar este ambiente favorável para a educação dos filhos
Um bom ambiente familiar começa com pequenas atitudes e pequenos gestos que os pais passam para os seus filhos: o modo de tratar a sua esposa ou o seu esposo, o amor recíproco entre os esposos, a forma de falar, de cumprimentar, a forma como pedir algo, mostrando educação e cordialidade, a forma como falar e se expressar. Sabemos que os filhos são como uma esponja: eles absorvem tudo o que nós, pais, fazemos, seja certo ou errado. Os filhos têm os olhos sempre voltados para as nossas reações.
“Os pais devem ser para os seus filhos, pela palavra e pelo exemplo, os primeiros mestres da fé.”³
Os pais precisam passar para os filhos como eles devem se comportar sem nunca serem ignorantes com as crianças; precisam mostrar as virtudes, porque bons comportamentos repetidos várias vezes se tornam virtudes, e vários erros repetidos muitas vezes se tornam vícios, e os vícios são pecados que desagradam ao coração de Deus. A arte de ensinar não é para todos; primeiramente, é preciso que a pessoa tenha aptidão para ensinar, tenha paciência, tenha a metodologia certa, a boa vontade de fazê-lo com maestria e não de qualquer jeito. Ensinar uma criança não é fácil; é muito difícil e exigente.
Agora, os pais são chamados a educar os seus filhos como sempre ouvimos neste ditado popular: “Educação vem de berço”. Esta frase diz muito nos dias atuais. Os pais, hoje, acham que ao mandar os filhos para a escola, eles voltarão crianças educadas; este é um erro crasso porque estamos confundindo ensino com educação. As escolas têm a obrigação de ensinar matérias, de ensinar conteúdos que estão em uma grade curricular onde não se olha a particularidade nem se contempla a individualidade; não há um olhar individual para cada criança.
A primazia da família sobre o Estado e a escola
Os pais, que transmitiram a vida aos filhos, têm a gravíssima obrigação de educar a prole, e por isso devem ser reconhecidos como seus primeiros e principais educadores (11). Essa função educativa é de tanto peso que, onde não existir, dificilmente poderá ser suprida. Com efeito, é dever dos pais criar um ambiente de tal modo animado pelo amor e pela piedade para com Deus e para com os homens que favoreça a completa educação pessoal e social dos filhos. A família é, portanto, a primeira escola das virtudes sociais de que as sociedades têm necessidade.⁴
Já a educação vem de casa e é uma tarefa dos pais. A Igreja ensina isto: os pais precisam educar os seus filhos no caminho das virtudes, da santidade. Somente e exclusivamente os pais poderão dar o embasamento da fé necessária. Não podemos transferir para outras pessoas aquilo que é exclusividade da paternidade. Somente os pais sabem o que é valoroso para a sua família, o que é importante para a educação dos seus filhos. Cada família sabe o que mais importa em uma educação. A Igreja norteia a sociedade com os valores religiosos e, por outro lado, a sociedade impõe valores sociais que também moldam o caráter dos nossos filhos. Cada núcleo familiar deve discernir quais valores serão mais importantes para a sua família. Por isso a educação nunca pode ser do Estado ou da Igreja. É um direito inviolável, garantido tanto na Constituição Federal quanto nos documentos e no Magistério da Igreja Católica.
O dever de educar, que pertence primariamente à família, precisa da ajuda de toda a sociedade. Portanto, além dos direitos dos pais e de outros a quem os pais confiam uma parte do trabalho de educação, há certos deveres e direitos que competem à sociedade civil, enquanto pertence a esta ordenar o que se requer para o bem comum temporal.⁵
A arte de educar e formar uma criança é como o ofício de um escultor: o artista pega uma grande pedra e começa a esculpir, a retirar lascas daquela pedra bruta, sem forma alguma. É um processo demorado, leva anos para começar a criar forma, até que um dia chegará no modelo que o artista pensou. Esculpir a alma de uma criança é um dom de Deus que somente consegue quem tem perseverança, quem decide, todos os dias, fazer esse trabalho duro e árduo, mas que, no final, vira uma linda estátua ou se torna uma linda obra de arte; isto é uma graça que Deus concede aos pais educadores.
O papel dos pais em relação à formação espiritual dos seus filhos é indispensável; quando, por qualquer motivo, os pais não assumem a formação espiritual dos filhos, eles ficam como um barco à deriva, sendo levados por quaisquer ondas. Em todas as outras religiões, o papel dos pais na formação religiosa é muito forte. Os judeus são guiados pela Torá e Tanakh, e todas as crianças são iniciadas desde muito cedo: os pais levam os filhos às sinagogas, ensinam as leis judaicas, ensinam a guardar o shabat, que é importante para o judeu. Da mesma forma, os filhos dos muçulmanos: os pais se fazem presentes na vida religiosa e espiritual das suas crianças.
Os católicos costumam deixar a educação espiritual ou religiosa para a Igreja ou para os catequistas. Não estou dizendo que isso é errado; a Igreja realiza um lindo trabalho de ensinar a Doutrina e inserir os filhos na vida religiosa. Os catequistas formam as nossas crianças para receber a primeira comunhão, para receber o sacramento da crisma, e isso é lindo e louvável. Mas a educação espiritual tem que acontecer no seio familiar; a criança precisa crescer vendo seus pais rezarem, tanto individualmente quanto em família. Os pais precisam testemunhar com a própria vida, viver uma vida correta, coerente com a sua fé, participar da Santa Missa, levar as crianças para fazer a adoração, recitar orações, ler a Palavra de Deus em casa, convidá-los a rezarem juntos, dar a catequese em casa para os seus filhos. Os pais precisam ser os primeiros catequistas dos seus filhos para que, quando eles forem para a Igreja para fazer a preparação para receber os sacramentos, eles já conheçam a doutrina da sua fé, pois esta foi alicerçada dentro de casa pelos seus pais. Pois isso foi a promessa que fizemos quando recebemos o sacramento do matrimônio, quando o padre diz: “Estão dispostos a criar e educar os filhos que Deus os conceder na fé católica?” E a nossa resposta foi SIM; então devemos nos empenhar em educá-los na fé.
Cân. 774 — § 1. A solicitude da catequese, sob a orientação da legítima autoridade eclesiástica, compete a todos os membros da Igreja segundo a parte pertencente a cada um. § 2. Antes de todos, os pais têm obrigação de, com a palavra e o exemplo, formar os filhos na fé e na prática da vida cristã; semelhante obrigação impende sobre aqueles que fazem as vezes dos pais e sobre os padrinhos. (CIC 2225 – Cân 774)⁶
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Pais e o dever de criar para os seus filhos um ambiente propício para o recebimento da educação espiritual
Os pais precisam criar um ambiente propício para que os filhos recebam esta educação espiritual, que faz e fará sempre falta na vida de nossas crianças. Se hoje o mundo tem pregado tantas coisas opostas à Doutrina da Igreja e os pais não se posicionam, isso criará um vazio dentro dos nossos filhos, e, por vezes, este vazio será preenchido por coisas ou valores opostos aos nossos. Os filhos seguem o exemplo dos pais, eles replicam aquilo que veem. Os pais precisam ser a escola de santidade e de virtudes, precisam dar testemunho com a própria vida. Precisamos ocupar os espaços que são nossos por direito; quando eu abro mão da minha parte, outras pessoas acabam assumindo a vida espiritual dos nossos filhos, e eles serão atingidos por qualquer ideologia ou quaisquer outros ensinamentos que não condizem com os nossos familiares ou doutrinais. Isso é muito perigoso para a vida espiritual deles.
O lar constitui o âmbito natural para a iniciação da pessoa humana na solidariedade e nas responsabilidades comunitárias. Os pais devem ensinar os filhos a acautelar-se dos perigos e degradações que ameaçam as sociedades humanas.⁷
Tudo começa dentro de casa: a educação formal, mas principalmente a educação espiritual. Não podemos nos omitir diante dessa realidade; precisamos assumir como dom, mas também como tarefa, esse caminho de educação espiritual. Uma boa construção começa com uma boa base, um alicerce bem feito. O bambu só resiste aos fortes ventos porque possui uma base profunda e bem alicerçada, que não conseguimos enxergar, pois esta é tão forte que sustenta toda a planta. Assim precisam ser as nossas famílias: precisamos assumir todas as responsabilidades da formação espiritual dos filhos. Quando alguma criança precisar dar uma resposta diante das realidades que o mundo oferece, ela terá uma base sólida em relação a qualquer questão, seja ela de cunho profissional, moral, doutrinal ou religioso. Ela irá pensar: “meus pais me ensinaram assim”, “meu pai agiria desta forma”, “não foi isso que eu aprendi dentro de casa”. Tudo será mais claro porque tiveram uma base moral, afetiva, espiritual e religiosa dentro da sua primeira comunidade religiosa, que é a família. Por isso que eu afirmo: a família é a base de toda a nossa vivência espiritual, e os pais são os mais importantes nesta longa caminhada, que é a educação espiritual.
“Aquele que dá ensinamentos ao seu filho será louvado” (Eclesiástico 30,1-2).
¹ Catecismo da Igreja Católica – Parágrafos 2221. ² Catecismo da Igreja Católica – Parágrafos 2223. ³ Lumen Gentium (Constituição Dogmática sobre a Igreja), n. 11. ⁴ Gravissimum Educationis – Sobre a Educação Cristã. ⁵ Gravissimum Educationis – Sobre a Educação Cristã. ⁶ CIC 2225; Código de Direito Canônico (Cân. 774). ⁷ Catecismo da Igreja Católica – Parágrafos 2224.
Wesley Paulo
Membro da Comunidade Canção Nova




