A saúde deixa de ser bem-estar e vira uma obrigação de hiperprodutividade
Não resta dúvida alguma de que a prática regular de atividades esportivas é fundamental para o bem-estar físico, psíquico e social. Ela fortalece a função cardiovascular, ajuda no controle de peso, no ganho de massa muscular e no robustecimento da estrutura óssea. O corpo fica revigorado. Além disso, gera benefícios psíquicos, tais como, redução do estresse, liberação de hormônios, por exemplo, endorfina e serotonina, que trazem sensação de alegria e calma. A mente é estimulada. Acrescente-se, ainda, que as atividades esportivas contribuem bastante para socialização, uma vez que possibilitam a formação de grupos de amigos e aprendizado de tralho em equipe.

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Entretanto, aqui cabe um alerta. A sociedade contemporânea, muitas vezes, tem transformado dietas e treinos em exames de moralidade, exigindo controle total do corpo e da mente. O culto ao corpo perfeito tornou-se uma espécie de dever moral diuturno. Aplicativos e métricas calculam cada caloria. Por sua vez, a tranquilidade mental fica, de alguma forma, também vinculada a esses resultados tabulados. A saúde deixa de ser bem-estar e vira uma obrigação de hiperprodutividade. A hiperprodutividade se caracteriza como um comportamento excessivo e compulsivo por produzir sempre mais, ignorando o descanso e os limites do corpo e da mente (Han, 2015). Essa hiperprodutividade pode até evoluir para um estado de completa exaustão física e mental, na medida em que as pessoas se cobram, sem limites, de resultados mais eficientes o tempo todo. Ela difere, pois, de um engajamento saudável em atividades esportivas, podendo acarretar riscos graves à própria saúde física e mental.
É nesse cenário de excessos, decorrente de toda essa hiperprodutividade, que a noção de virtudes cardeais pode ser evocada outra vez. E, aqui, indubitavelmente, Tomás de Aquino é uma referência a ser relembrada, sobretudo, pela excelência de suas lições sobre essas virtudes. O escolástico, de início, assinala cinco questões sobre as virtudes cardeais, a saber: – as virtudes morais devem ser chamadas de cardeais ou principais? Qual o número delas? Quais são elas? Diferem elas entre si? E pode-se dividi-las, acertadamente, em virtudes políticas, virtudes intermediárias e virtudes exemplares? (Aquino, 2010).
As características da temperança
Antes de trazer as respostas tomistas para tais questões, é importante assinalar que a palavra cardeal vem de “cardo”, que significa gonzo ou dobradiça, porque é em torno delas que giram toda as demais virtudes.
Quanto à primeira questão, quando se discorre sobre a virtude simplesmente, está se falando da virtude humana. A virtude humana, chama-se virtude segundo a perfeita razão do termo, aquela que exige a retidão do apetite, pois não só produz a potência de agir bem, mas causa também o próprio exercício da boa ação. Ao contrário, segundo a imperfeita razão do termo, chama-se virtude aquela que não exige a retidão do apetite, porque só produz a potência de agir bem, sem causar o exercício da boa ação. Ora, é certo que o perfeito é mais importante que o imperfeito e, por isso, as virtudes que asseguram a retidão do apetite são tidas como principais e este é o caso das virtudes morais.
Logo, é correto posicionar entre as virtudes morais as chamadas virtudes principais ou cardeais, quais sejam, justiça, temperança, fortaleza e prudência, sendo que esta última consiste na reta razão do agir (recta ratio agibilium), já que pertence ao intelecto prático e, como guia das virtudes morais, orienta a pessoa a discernir o verdadeiro bem em cada situação concreta e a escolher os meios adequados para realizá-lo (Aquino, 2010). É aqui que a temperança já dá sinais de sua primeira característica: trata-se de uma virtude moral cardeal, porquanto ela opera sempre com a retidão do apetite, vale dizer, da vontade humana.
No tocante à segunda questão, o número de determinadas coisas pode ser estabelecido ou pelos princípios formais ou pelos sujeitos. Em ambos os casos, há quatro virtudes cardeais, porque o princípio formal da virtude aqui considerada é o bem da razão, que pode ser entendido sob duplo aspecto: ou enquanto consiste na própria consideração da razão e se terá então uma virtude principal, que se chama prudência, ou enquanto se afirma a ordem da razão em relação com alguma coisa. E isso será ou quanto às ações e se terá então a justiça; ou quanto às paixões e, nesse caso, é preciso que haja duas virtudes, pois para afirmar a ordem da razão nas paixões é necessário levar em conta a oposição delas à razão. Essa oposição pode se dar de duas formas: primeiro, quando a paixão impele a algo contrário à razão e aí é preciso que a paixão seja controlada, o que se chama de temperança; segundo, quando a paixão se afasta das normas da razão, como o temor do perigo ou do sofrimento e, nesse caso, é preciso se firmar, inarredavelmente, no que é racional e a isso se dá o nome de fortaleza.
Também em relação com os sujeitos chega-se também ao mesmo número, pois são quatro os sujeitos da virtude de que se está falando aqui, a saber: o racional por essência, que a prudência aperfeiçoa, e o racional por participação, que se divide em três, ou seja, a vontade, sujeito da justiça; o apetite concupiscível, sujeito da temperança e o irascível, sujeito da fortaleza (Aquino, 2010). O apetite concupiscível é a potência da alma sensitiva que move a pessoa em direção a um bem sensível e imediato, envolvendo as paixões, com seus desejos e prazeres. É aqui que a temperança apresenta sua segunda característica: constitui-se uma virtude de alta qualidade, porquanto ela é capaz de regular a conduta interna humana, refreando as paixões exageradas, subordinando-as à reta razão.
Com relação à terceira questão, é possível analisar as virtudes morais cardeais pela denominação que recebem do que é mais importante em cada matéria. E, nesse sentido, são virtudes especiais, distintas de outras virtudes. Por isso, são chamadas de principais, em razão da importância da matéria a que se referem, vale dizer, denomina-se prudência a que é preceptiva, enquanto transmite discernimento para deliberações entre bem e mal; justiça, a que diz respeito às ações devidas entre iguais; temperança, a que refreia os desejos prazerosos do tato; fortaleza, a que dá forças contra os riscos de morte (Aquino, 2010). É aqui que a temperança mostra sua terceira característica: ela é uma virtude moral que submete à reta razão os prazeres do tato, o qual se encontra na raiz de todos os outros sentidos corporais, cujo domínio é bastante difícil, mas não impossível.
No que diz respeito à quarta questão, as quatro virtudes são consideradas em suas especificidades, ou seja, cada uma delas está voltada para uma determinada disposição. E, nesse sentido, é manifesto que essas virtudes são hábitos diferentes, distintos entre si pela diversidade dos seus objetos. Nessa linha, a prudência não é senão um discernimento correto em relação a situações de escolhas na vida; a justiça, por sua vez, é a retidão do espírito pela qual se faz o que se deve, em qualquer situação; a temperança é a disposição do espírito que impõe medida a todo tipo de paixão e de atividade, para que não ultrapassem os devidos limites; e, por fim, a fortaleza é a disposição da alma que fortifica no que é racional, contra todos os ataques das paixões e todas as dificuldades no agir (Aquino, 2010). É aqui que se destaca a quarta característica da temperança: ela ajuda na determinação de observar em tudo o comedimento da reta razão, sem ultrapassar limites.
E, no que se refere à quinta questão, como o homem é, por natureza, animal político, as virtudes cardeais, enquanto nele existentes segundo as condições próprias da sua natureza, se chamam políticas, ou seja, praticando-as o homem procede corretamente na gestão das coisas humanas. Esse mesmo homem também procura aproximar-se o mais possível do divino, cujo alcance exige a prática das virtudes exemplares. Entretanto, entre as virtudes política e as virtudes exemplares existem as virtudes intermediárias. Essas virtudes intermediárias, por sua vez, têm suas distinções, tal como se distinguem um movimento e o seu termo. Assim, por vezes, elas atuam como virtudes da alma em purificação.
Nesse caso, a prudência busca se afastar das coisas mundanas, pela contemplação das realidades divinas. Já a temperança leva a esquecer, quanto é naturalmente possível, as exigências do corpo. A fortaleza, por sua vez, faz a alma não se apavorar com a separação do corpo nem com o acesso ao mundo superior. E a justiça conduz a alma a seguir plenamente o caminho deste propósito. Por outro lado, existem as virtudes dos que já conseguiram a semelhança divina e estas se chamam virtudes da alma já purificada. Nessas circunstâncias, a prudência só tem em mira as coisas divinas.
A temperança desconsidera os desejos terrenos. A fortaleza ignora as paixões. E a justiça associa-se para sempre ao pensamento divino, buscando imitá-lo (Aquino, 2010). É aqui que a temperança expõe sua quinta característica: como virtude intermediária entre o humano e o divino, ela ajuda no desprendimento, o quanto possível, com a devida moderação, das exigências excessivas do corpo, bem como contribui para o desapego, também de forma moderada, dos desmedidos desejos terrestres.
A pessoa virtuosa não pratica o bem apenas por obrigação externa. Aos poucos, o bem torna-se parte do seu modo de viver, de escolher e de reagir diante das situações. É por isso que a virtude está ligada à liberdade: quanto mais ordenada está a alma, mais livre ela se torna para agir corretamente, mesmo quando surgem tentações, dificuldades ou inclinações contrárias. Na tradição grega, existe o termo sophrosyne, frequentemente traduzido como moderação, domínio de si ou equilíbrio interior.
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Para os antigos, essa virtude era sinal de maturidade espiritual e liberdade, haja vista que o homem, incapaz de governar seus desejos, vivia submetido a forças que o arrastavam de um lado para outro. A palavra “temperança”, do latim temperantia, está atrelada à ideia de harmonizar, moderar e equilibrar. O próprio termo sugere uma ação de ajuste interior: forças distintas são colocadas em proporção justa para que não se aniquilem e nem se sobreponham indevidamente.
A temperança ensina a medida certa para cada necessidade humana. Cuidar do corpo e da mente exige atenção, e não sabotagem contra si mesmo. Viver em bem-estar é aceitar limites sem cair na rigidez ou no caos. A virtude da temperança, especificamente, é uma das virtudes mais mal compreendidas atualmente. Muitos associam a temperança apenas à repressão dos desejos, ao medo do prazer ou a uma visão negativa do corpo humano. No entanto, a temperança preserva a integridade da pessoa humana.
Ela impede que o homem se reduza aos próprios impulsos e o ajuda a viver seus desejos de maneira compatível com sua dignidade, sua vocação e seu fim último. A temperança é reguladora da conduta interna do homem, refreando suas paixões exageradas, na medida em que busca submetê-las ao controle da reta razão (Boehner; Gilson, 2000).
Afinal, por todas aquelas cinco características específicas, tão bem explicadas por Tomás de Aquino, pode-se concluir que a virtude cardeal da temperança é uma moderadora, sem culpa, dos excessos da vida humana, inclusive das atividades esportivas, as quais são inegavelmente saudáveis para o corpo e para a mente. E essas atividades esportivas podem ser bem mais saudáveis ainda se praticadas com a devidas moderações ensinadas pela virtude cardeal da temperança.
Marcius Tadeu Maciel Nahur
Natural de Lorena (SP), Coordenador do Curso de Filosofia da Faculdade Canção Nova. Formado em Direito, História e Filosofia. Mestrado em Direito com ênfase na Filosofia de Henrique Cláudio de Lima Vaz. Delegado de Polícia Aposentado.
Referências
AQUINO, Tomás de. Suma teológica. Tradução de Aldo Vannucchi et al. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2010. v. IV. 938 p.
BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã: desde as origens até Nicolau de Cusa. Tradução de Raimundo Vier, O.F.M. 7. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2000. 582 p.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. 138 p.




