Dignidade humana

Castidade, era digital e geração Z: um horizonte a ser redescoberto

O labirinto digital: quando perdemos a noção do tempo e de nós mesmos

A virtualidade mudou nosso jeito de viver. Alguns anos atrás, ouvir o rádio de manhã, acordar com o cântico dos pássaros e deixar o dia correr era o mais normal. Hoje, uma das realidades mais influentes é não saber em que tempo vivemos; se estamos acordando ou estamos indo dormir; se as horas passam e nós passamos com elas. O home office, a educação aberta e a distância; os inúmeros ambientes virtuais nos levam a perder a noção de que um dia só tem 24 horas; e que só dentro desse espaço podemos realizar as atividades que a jornada nos permite desenvolver.

Crédito: PeopleImages by Getty Images.

O tempo não é mais o mesmo, e isso nos levou a ter relações completamente diferentes. Não nos vemos em casa, na rua nem no restaurante; vemo-nos na vídeo chamada ou videoconferência, o vídeo-relação.

Castidade, o segredo para construir amizades reais em um mundo virtual

Para falar em castidade como experiência proposta pelo Evangelho à luz da vida que Jesus Nosso Senhor viveu; temos urgentemente que mudar nossa virtualidade pela presencialidade. O encontro concreto com o outro. A castidade como virtude moral nos permite estabelecer o belíssimo espaço da amizade. Só é capaz de compreender o valor da castidade quem possui amigos e amigas reais; não virtuais, muito menos desconhecidos. A castidade contribui para superarmos o egoísmo, o individualismo e, especialmente, para que em nós desabrochem sentimentos de doação, entrega e disponibilidade. 

Humanos ou máquinas, o desafio de preservar o coração na era da IA

A era digital tem nos ajudado muito a encurtar distâncias, agilizar processos e contribuir para que muitos tenham acesso à formação e comunicação; porém, não podemos esquecer aquilo que o Papa Leão XIV nos adverte na sua encíclica no número 15: “Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser eclipsada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, preservando com amor aquela magnífica humanidade que nos foi dada e manifestada em sua plenitude em Cristo, mas que nenhuma máquina jamais poderá substituir em seu esplendor. O verdadeiro progresso sempre nasce de um coração aberto ao outro, de uma inteligência pronta para ouvir, de uma vontade que busca o que une em vez do que divide.”

Coração aberto, a castidade como entrega e não como isolamento

Termos um coração aberto nos sustenta em todo tipo de relação humana; nos transforma em seres capazes de realizar em comunidade o projeto que O Senhor Jesus nos propôs de sermos e vivermos como irmãos. Não há castidade isolada, individualizada para alcançar um propósito pessoal. Ser casto é abrir-se ao humano e nele descobrir a riqueza de um amor que em Deus manifesta o caminho mais exigente em relação aos outros: entregar-se.

O exemplo de Jesus, uma humanidade que toca, chora e cura

A castidade não nos coloca dentro de uma cápsula para evitar tentações ou relações; a castidade não mutila nossos desejos; a castidade não impede que amemos. Bem mais do que uma normatividade, a castidade nos impele a sermos próximos do nosso próximo.

Jesus viveu a sua castidade sempre do lado dos seus irmãos. Fazendo a vontade do Pai, Ele lavou os pés dos discípulos e curou o cego de nascença; tocou nos ouvidos do surdo e chorou pelo seu amigo Lázaro só por um motivo: porque, sendo Deus, fez-se um de nós; porque era muito humano e sabia que só chegando perto dos outros pode-se demonstrar o verdadeiro amor.

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O horizonte do amor: a castidade é o maior valor da amizade

Hoje, jovens, adultos e adolescentes vivem à procura de muita aceitação, e isso é o que supera qualquer geração desde o ponto de vista cronológico. “Farmar aura” é uma expressão que se adequa claramente ao maior dos problemas que temos em relação aos nossos relacionamentos. Muitos pensam que estão dentro de um videogame e querem resultados imediatos, aplausos, reconhecimentos e pontos em quantidade. Estar numa sala VIP é mais importante do que estar em casa.

A castidade precisa ser proclamada através do amor incondicional que podemos oferecer por aqueles que podem até mesmo ser nossos inimigos, mas que em Cristo podemos amar.

A castidade jamais será uma proposta digital; sempre estará ao nosso alcance na medida em que somos de carne, temos um coração de carne e almejamos uma vida no Espírito.

Ser casto é o maior dos valores praticados na amizade, e só por essa amizade vale a pena descobrir o horizonte do amor.


Padre Rafael Solano

Sacerdote da arquidiocese de Londrina (PR). Mestre e doutor em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e pós-doutorado em Teologia Moral e Familiar pelo Pontifício Instituto João Paulo II de Roma, Universidade Lateranense de Roma. Atua como consultor da CNBB setor vida e família e como professor de Teologia Moral e Bioética na PUC (PR), Campus Londrina. Autor de livros publicados pela Editora Canção Nova.