Redes sociais e desafios

O algoritmo de Deus: por que a falta de curtidas não define sua missão

A ditadura das curtidas e a sede de reconhecimento

E quando as nossas publicações não recebem as reações esperadas? Por trás de cada postagem no Instagram, no TikTok ou em outras redes sociais, reside o desejo humano de ser reconhecido; a expectativa das curtidas, que alguém comente ou compartilhe um conteúdo: seja um vídeo de bastidores, uma receita ou uma reflexão.

Crédito: Georgijevic / GettyImages

Afinal, a lógica das redes sociais é pautada pelo engajamento. No entanto, quando uma publicação não gera interação, surge um sentimento de vazio e desvalorização, quase como se a pessoa pensasse: “Ninguém me nota, ninguém me valoriza”. Sobre essa busca por glória humana, o saudoso Papa Francisco nos adverte na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: “A vaidade espiritual consiste em procurar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal” (EG, 93).

O caminho da contracorrente: a autenticidade e as tendências

É preciso considerar que o algoritmo foi desenhado para incentivar uma produção constante, tornando o usuário, muitas vezes, refém dessa engrenagem. Frequentemente, na busca por métricas, somos pressionados a aderir a tendências passageiras, as “modinhas”, as “trends”.

Contudo, o caminho cristão é, por essência, um caminho de contracorrente. Para evangelizar, será realmente necessário seguir todas as tendências ou ser autêntico? O documento do Dicastério para a Comunicação, “Rumo à Presença Plena”, recorda que o cristão não deve ser um mero consumidor ou reprodutor de conteúdos, mas alguém que comunica a verdade com o seu próprio testemunho, sem se deixar escravizar pelas lógicas comerciais das plataformas.

Jesus, o modelo de missão sem aplausos

Lembremos que, ao pregar, Jesus muitas vezes não foi reconhecido, aclamado ou chamado de Mestre. Nem sempre houve aplausos, mas Ele persistiu ao anunciar a mensagem, denunciar as injustiças e proclamar o Reino: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Cf. Jo 1, 11). Mesmo diante da rejeição em sua própria terra, Nazaré, Jesus não mudou sua mensagem para agradar o público; Ele seguiu adiante na sua missão (Cf. Lc 4, 28-30).

No ambiente digital, estamos sujeitos à mesma realidade: podemos compartilhar uma mensagem valiosa e não obter retorno imediato. Jesus mesmo nos ensinou que a busca pelo louvor dos homens pode corromper a intenção do coração: “Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros, e não buscais a glória que vem do único Deus?” (Cf. Jo 5, 44). Isso não deve nos impedir de anunciar a verdade e sermos autênticos.

A semeadura silenciosa e a camada invisível

O mundo anseia por autenticidade. Muitas vezes, alguém visualiza o seu conteúdo, mas não interage; ainda assim, a semente foi plantada. O desfecho dessa semente dependerá do terreno em que ela cair (Cf. Mt 13, 1-9). Pense nisso: nem só de “curtidas” vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus, que é a verdadeira fonte de vida e vida eterna (Cf. Mt 4, 4).

O verdadeiro impacto da sua presença digital raramente se limita às métricas visíveis no seu painel. Na arquitetura das redes sociais, existe uma camada invisível, mas profundamente transformadora: a da retenção silenciosa. O Papa Bento XVI, em sua mensagem para o 45º Dia Mundial das Comunicações, afirmou que “o sentido e a eficácia da presença dos cristãos nestes meios não dependem apenas da competência técnica, mas da fidelidade ao Evangelho”.

Propósito eterno e a efemeridade do feed

Há pessoas que estão lendo seus textos, assistindo aos seus vídeos em silêncio e sendo alcançadas no momento exato em que mais precisavam de uma palavra de esperança. Se a nossa estratégia de conteúdo for guiada apenas pela vaidade dos números, corremos o risco de trocar o propósito eterno pela efemeridade de um feed que se renova a cada segundo.

Jesus foi claro ao dizer que não buscava a sua própria visibilidade, mas a vontade do Pai: “Eu não busco a minha glória” (Cf. João 8, 50). Construir uma presença relevante não significa ignorar as boas práticas digitais como clareza, boa iluminação, roteiro e consistência. Pelo contrário: usamos as melhores ferramentas e estratégias para servir melhor à nossa audiência, seguindo o mandato de São João Paulo II na Encíclica Redemptoris Missio, que chama os meios de comunicação de “o primeiro Areópago dos tempos modernos” (RM, 37).

A excelência para a glória de Deus

A diferença reside na nossa intenção principal. Quando colocamos a métrica no lugar do propósito, tornamo-nos reféns do algoritmo; quando colocamos o propósito no centro, o algoritmo passa a ser apenas um canal de distribuição para uma semente que já tem valor próprio.

Continue criando, educando, inspirando e evangelizando com excelência. Não meça o valor da sua missão pela instabilidade das métricas de vaidade. O engajamento mais valioso é aquele que transforma corações, mesmo que ele nunca se converta em um comentário público. Lembre-se do que Jesus disse aos seus discípulos sobre a verdadeira alegria: “Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, porque os vossos nomes estão escritos nos céus” (Cf. Lc 10, 20). No Reino de Deus, o que conta é a fidelidade, não a popularidade.

Por Adailton Batista