7 cartas

Livro do Apocalipse: A carta ao anjo da Igreja de Esmirna

Esta carta, que fala de difamações e tribulações, não é dirigida apenas à Igreja de Esmirna, mas a todos nós

A segunda carta, sempre no capítulo 2 do livro do Apocalipse, é dirigida à comunidade cristã de Esmirna. Eis o texto a seguir:

“Ao anjo da igreja de Esmirna, escreve: ‘Eis o que diz o Primeiro e o Último, que foi morto e retomou a vida. Eu conheço a tua angústia e a tua pobreza – ainda que sejas rico – e também as difamações daqueles que se dizem judeus e não o são; são apenas uma sinagoga de Satanás. Nada temas ante o que hás de sofrer. Por estes dias o demônio vai lançar alguns de vós na prisão, para pôr-vos à prova. Tereis tribulações durante dez dias. Sê fiel até a morte e te darei a coroa da vida. Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor não sofrerá dano algum da segunda morte'” (Ap 2,8-11).

Foto ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

Igreja de Esmirna, uma comunidade perseguida

O problema da Igreja de Esmirna, capital da região da Lídia, é a perseguição. Essa cidade era famosa pelas competições esportivas de luta, nas quais quem ganhava recebia a coroa da vitória. Esmirna, que na guerra contra os selêucidas permaneceu fiel a Roma, tinha recebido, por isso, o título de “Esmirna, a fiel”. A carta à Igreja de Esmirna está cheia de alusões à situação concreta da cidade.

Cristo, que se dirige à comunidade, é o Primeiro e o Último. É aquele que, na sua morte, precisou sucumbir, aparentemente, à perseguição, mas vive graças à ressurreição. Olhando para Ele, os cristãos perseguidos encontrarão conforto e coragem.

A comunidade é perseguida pelos judeus que, na realidade, não são mais uma comunidade de Deus, mas uma sinagoga de satanás, e que, por isso, estão se opondo à Igreja de Cristo. A expressão “sinagoga de satanás” ressoa como extremamente dura na boca de um judeu cristão como João. Por ter se recusado a aceitar o Messias, a sinagoga oficial passou para o campo dos adversários de Deus, e não é mais a “comunidade de Javé”.

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A perseguição se exaspera por causa dos pagãos que colocam os cristãos na cadeia. Mas como, conforme o que escreve o profeta Daniel (1,14), os jovens conseguiram superar a prova de dez dias proposta pelo representante do rei e se tornaram mais belos e mais fortes, assim também a perseguição terá o efeito de tornar os cristãos mais firmes. Dessa maneira, a comunidade de Esmirna, que se apresenta pobre na sua fraqueza, é interiormente rica pela proteção de Cristo. E se, na perseguição, ela permanecer fiel, confirmando o título de Smyrna fidelis (Esmirna fiel), irá conquistar a vida eterna como coroa de vitória.

A primeira morte, que atinge apenas o corpo, tem pouca importância se o homem ficar livre da segunda morte. E o livro do Apocalipse, no final (20,14), irá falar expressamente dessa segunda morte.

Os cristãos de todos os tempos têm que suportar a perseguição na sequela de Cristo, como o mesmo Senhor a preanunciou a todos. Mas a fidelidade até a morte será premiada com a coroa da vitória da vida eterna.

Dois testemunhos de perseguições por causa da fé

Permito-me, aqui, apresentar dois testemunhos. O primeiro é de uma cristã do Iraque, que, nos dias atuais, vive uma experiência de perseguição. Por causa da guerra, os familiares estavam dispersos, até que, enfim, a filha dessa mulher encontrou a mãe e lhe disse, chorando: “Nossa casa ficou destruída, perdemos tudo”. E a mãe respondeu: “Não é verdade, não perdemos tudo, porque não perdemos a fé”.

Mais um testemunho. Nesses dias, acompanhei um programa na televisão italiana. Estava sendo entrevistado um médico que atua no Centro de Pesquisa do Hospital “Casa Sollievo della Sofferenza” (Casa Alívio do Sofrimento), fundado pelo Santo Padre Pio de Pietrelcina. Ele dizia o seguinte: “Nosso imperativo categórico, nas pesquisas que realizamos, tem como princípio o respeito absoluto à vida humana, que é sagrada. Mas quando nos apresentamos na comunidade científica, muitas vezes, somos ridicularizados pelo fato de pertencermos a uma Instituição ligada à Igreja”.

Sim, existem muitas formas de perseguição dos cristãos: alguns são martirizados, outros presos, outros ridicularizados. Faz parte do que Jesus já tinha preanunciado. Por isso, esta carta, que fala de difamações e de tribulações, não é dirigida apenas à Igreja de Esmirna, mas a todos nós.

Sejamos fiéis com a graça de Deus.


Lino Rampazzo

Doutor em Teologia pela Pontificia Università Lateranense (Roma), Lino Rampazzo é professor e pesquisador no Programa de Mestrado em Direito do Centro Unisal – U.E. de Lorena (SP) – e coordenador do Curso de Teologia da Faculdade Canção Nova, Cachoeira Paulista (SP).

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