Pais e filhos

Por que um irmãozinho?

Onde está a Margarida? Olê, olê, olá (2x)
Ela está em seu castelo, olê, seus cavalheiros (2x)
Mas o muro é muito alto, olê, olê, olá (2x)
Tirando uma pedra não faz falta, olê, olê, olá (2x)
Apareceu a Margarida, olê, seus cavalheiros

Cantiga de roda em música popular, cujo domínio é público. Essa era uma brincadeira do tempo que as meninas usavam saias rodadas, seguravam na barra da saia e iam largando, a cada pedra tirada, até aparecer a Margarida. (Lauria, Nair Spinelli – Quintal… saudade ou utopia?)

Vamos brincar de roda? Onde está a Margarida? Coitada! Dentro do castelo, e ninguém a pode visitar; afinal, o muro é bem alto, só receberá visita se pedra por pedra dele cair.

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Foto Ilustrativa: mdphoto16 by Getty Images

Tome uma decisão e dê um irmãozinho para seu filho

Neste momento, eu o convido a derrubar o muro do castelo que protege seu filho único. A sua Margarida está querendo conhecer quem está aqui fora, como são as ruas, as cores das lojas, a natureza. A Margarida, que aqui está representando os filhos únicos, querem conviver, ter com quem brigar e fazer as pazes. Querem ter com quem competir, dividir, brincar de casinha ou trocar os brinquedos e a roupa que vestem.

Margaridas, em sua maioria, não nasceram para viver em um castelo. Então, por que não um irmãozinho para o seu filho? Considerando a situação socioeconômica do nosso país, estamos ficando engessados diante dos nossos sonhos, mas será preciso o enfrentar, a fim de que não interrompamos os planos de Deus para a humanidade e para nossos filhos que precisam de irmãos. O ambiente escolar não é o suficiente para eles. É necessário a companhia de um irmão em casa. Os pais, para realizar essa função, precisam de mais um filho.

O que o impede?

Claro que não estamos determinando situações, mas fazendo uma reflexão crítica do fato que está determinando a criação: Medo. Medo de não ter um trabalho para criar, medo de não ter uma empregada, de não pagar uma boa escola… medo, medo, medo. Quanto medo! E a função do medo, quando fora da proporção natural, é o de paralisar o que e como pensamos para educar os nossos filhos, impedindo que alcancem bons amigos, experiência com Deus e se tornem profissionais de sucesso com autonomia intelectual e emocional.

Quando só temos um filho, ficamos sem saída e alimentamos a ilusão social de que o teremos para a vida toda; extinguimos o medo de perdê-lo, uma vez que estão tão protegidos. Nós o colocamos o maior tempo possível no castelo e mudamos os nossos papéis, afirmando não ter problema a falta do irmão, porque somos os verdadeiros amigos deles. A ausência do medo de perdê-lo tem feito com que os pais não busquem as melhores estratégias para criá-los.

Por que ter mais de um filho?

A situação piora com a falta de um irmão. O filho único está sempre sozinho, porque a vida da família continua, como se tivesse deixado em casa um filho em boas companhias. Os pais assumem a posição de defensores, fecham os olhos para suas fragilidades, dificilmente identificam os verdadeiros fatores que têm provocado mudança no comportamento do seu rebento. A ideia sempre é: “Quem conhece o meu filho sou eu!” E, assim, o reizinho vira tirano, sem ter um irmão para oportunizá-lo a ajustar seu comportamento.

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Os irmãos brigam, mas quase sempre se amam. Muitas vezes, os pais não prestam atenção nas relações entre eles, como se ainda a figura da mãe ocupasse o lugar central da família. Hoje, que a rotina dos pais começa cedo e termina tarde, o filho único, provavelmente, tem vivido os seus dias em frente à TV, desenvolvendo uma linguagem de meias palavras, ou na casa da vovó – muitos anos mais velha do que ele –, sendo reclamado o tempo todo, por mais que também seja paparicado. E mesmo com essa realidade, os pais querem retornar para casa e ver o filho feliz, contando tudo (não sei o quê nem com quem) o que fizeram durante o dia. Retornam como se estivessem criando seus filhos.

Trata-se de uma realidade dura, mas que exige posicionamento dos adultos diante dos seus desejos. A família contemporânea é um leque de arranjos familiares. Mas não tem por onde correr. Um irmão busca o outro. “Irmãos não se divorciam, não criam novas famílias e têm uma presença mais próxima e constante na vida uns dos outros, especialmente na infância, mas também ao longo da adolescência. Um estudo realizado pela Penn University, nos Estados Unidos, aponta que irmãos passarão 33% da vida juntos.” (Pesquisa: Noelly Russo, irmã de Nilza e Nelson 07.06.2013). A pesquisadora ressalta:

“São eles quem ensinam, na prática, a dividir, ainda que, às vezes, na marra, objetos e afetos. É com os irmãos que se tem contato com a dinâmica complexa de viver em sociedade, onde é necessário fazer concessões, perseverar, lutar por seus direitos; enfim, conviver. Caso contrário, as consequências podem ser desastrosas. Os irmãos não são escolhidos como os amigos. São as pessoas com quem você divide a casa e os pais sem ter pedido.”

Por que um irmãozinho? Para que você, pai e mãe, não virem os mesmos que salvam e perseguem. Para que vocês, ao ver seu seu filho crescer e deixar o ninho, não assumam a função das velhas vítimas que sempre dizem: “Fiz tudo, dei de tudo e agora estou sozinho. Antes, tivesse outro filho!”. Que a decisão de ter ou não mais um não esteja baseada apenas em questões econômicas.

Que tal, ao terminar de ler este texto, enviar uma mensagem de amor ou perdão para o seu irmão?

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Judinara Braz

Administradora de Empresa com Habilitação em Marketing.
Psicóloga especializada em Análise do Comportamento.
Autora do Livro “Sala de Aula, a vida como ela é.”
Diretora Pedagógica da Escola João Paulo I – Feira de Santana (BA).

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