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O perigo de comprar os filhos com presentes

Desde a infância, os pais estão definindo o futuro comportamento  dos filhos

O mundo moderno é exigente. Assim como o marido deseja uma mulher charmosa e atenciosa, o chefe espera por uma profissional competente; a esposa espera por um marido provedor; a empresa espera que o funcionário produza cada vez mais resultados e com menos recurso. Por todas essas cobranças, os pais contemporâneos têm de fazerem um esforço sobre-humano para desempenharem tais atribuições. Portanto, às vezes, tudo isso acaba produzindo, na família, o sentimento de culpa por não ter tempo integral para cuidar deles. Então, o resultado é claro: são pais que deixam de educarem os filhos e passam a “compensá-los” com coisas materiais para tentarem suprir a ausência deles.

Eles não se sentem no direito de desempenharem autoridade parental e passam a satisfazer as vontades dos filhos, tendo em vista o pouco tempo para passar com eles. Optam por não “brigar”, apenas proporcionar momentos de alegria. Ignoram algumas coisas erradas e abrem mão de corrigir os filhos, porque já se sentem culpados.

O perigo de comprar os filhos com presentes

Foto ilustrativa: Andréia Britta/cancaonova.com

Culpa, frustração e amor

É possível amar e corrigir. A culpa não é necessária. Inevitavelmente, os filhos passarão por frustrações que a vida os proporcionará. É preciso trabalhar as limitações e as impossibilidades que são grandes passos que os  preparam para lidarem com situações de difícil aceitação e, também, fazem parte do ciclo de amadurecimento emocional, tanto dos pais quanto dos filhos.

É papel dos pais incutir nos filhos o sentimento de gratidão, de conquista e de valorização das coisas da vida. Uma forma disso é controlar os presentes, porque aprendem a valorizarem e a gostarem daquilo que ganham. Observando as crianças atuais, percebemos que se desinteressam pelo presente num curto espaço de tempo e já estão de olho no próximo anúncio de brinquedo ou alguma moda lançada pelo mercado.

Os pais que ensinam o valor do dinheiro, a dificuldade para obtê-lo e os custos que o mundo consumista exige nos dias atuais, propiciam às crianças um entendimento da importância de poupar e, principalmente, a entenderem que o dinheiro não nasce em um “pé de árvore” e que cartão de crédito precisa ser pago. A falta desse ensinamento tem gerado adultos irresponsáveis que compram sem avaliar seu poder de pagamento. A cada ano crescem o número de pessoas inadimplentes, porque não aprenderam a usar corretamente seu dinheiro.

Dicas

Para pais cristãos, uma grande oportunidade é o Natal. Pois é quando podemos ensinar quem é o verdadeiro aniversariante, e é Ele quem merece receber presentes. Porque as crianças estão sendo criadas como se fossem merecedoras de tudo, pelo simples fato de existirem. Esse modelo educacional traz repercussões na vida adulta, quando não querem “batalhar” pois acreditam que merecem uma carreira rápida e coroada de elogios.

Um mecanismo usado é a mesada, que tem um papel educador, pois ensina o valor do dinheiro e, principalmente, o valor da escolha, pois as crianças terão de escolherem como e em no que usar o seu recurso. Esse entendimento de que os recursos são finitos precisam ser bem alocados para render soluções e não futuros problemas ou desperdícios.

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Outra consequência do excesso de presentes, assim como de comida e outros falsos mecanismos de redução de ansiedade, podem gerar pessoas que não enfrentam os seus sentimentos, e sim os camuflam usando “coisas” que preenchem o vazio emocional. Também, o excesso produz pessoas materialistas que enxergam apenas o consumo ou acúmulo como compensação de sentimentos não trabalhados adequadamente.

Portanto, desde a infância, os pais estão definindo o futuro comportamento dos filhos: se serão bons ou ruins. E uma grande parte da escolha do comportamento deles, será de acordo como foi aprendido por cada um.


Ângela Abdo

Ângela Abdo é coordenadora do grupo de mães que oram pelos filhos da Paróquia São Camilo de Léllis (ES) e assessora no Estudo das Diretrizes para a RCC Nacional. Atua como curadora da Fundação Nossa Senhora da Penha e conduz workshops de planejamento estratégico e gestão de pessoas para lideranças pastorais.

Abdo é graduada em Serviço Social pela UFES e pós-graduada em Administração de Recursos Humanos e em Gestão Empresarial. Possui mestrado em Ciências Contábeis pela Fucape. Atua como consultora em pequenas, médias e grandes empresas do setor privado e público como assessora de qualidade e recursos humanos e como assistente social do CST (Centro de Solidariedade ao Trabalhador). É atual presidente da ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos) do Espírito Santo e diretora, gerente e conselheira do Vitória Apart Hospital.

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