simplicidade

Jesus deseja que todos entendam a Sua mensagem

Era esta a preocupação de Jesus: fazer-se entender por todos e que todos voltassem para casa com uma mensagem para enfrentar a vida

São muitos os motivos para amar Jesus. Vamos só enumerar alguns que nos ajudam a compreender melhor a beleza da nossa : Jesus Salvador, que veio para nos doar novamente a plena amizade com Deus; amigo que caminha conosco e carrega os nossos sofrimentos; Mestre que nos ensina a ir ao Pai por um caminho novo, que é Ele mesmo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”; Filho de Deus que ao revestir-se com a nossa carne, nos revela o rosto de Deus e nos ensina a chamá-Lo de Pai; guia seguro que nos indica o caminho a seguir sem medo, porque Ele vai à frente e venceu o mundo; presença viva nas noites escuras; Aquele que, constantemente, repete aos nossos ouvidos: “Sou eu. Coragem! Não tenhais medo!”.

Uma característica que, cada vez mais, aprecio em Jesus é a Sua simplicidade em falar com uma linguagem “popular” de realidades tão altas e sublimes, que nos deixa maravilhados. Não precisa explicar uma palavra dita aos iniciados, nem diz coisas reservadas a poucos, mas todos os seus ouvintes, acostumados a trabalhar no campo ou no mar, entendiam-Lhe perfeitamente.

Jesus deseja que todos entendam a Sua mensagem

Foto ilustrativa: Paula Dizaró/cancaonova.com

Não era possível não compreender a parábola dos vinhateiros, aquela gente que lidava o tempo todo com videiras e sabia quanto era duro e difícil chegar a ter uma uva boa e depois transformá-la num copo de vinho dos melhores da Galileia. Ou quem não entendia a parábola da semente que, uma vez lançada na terra, mesmo que o semeador esteja acordado ou dormindo, ela, pela força própria, vai nascer, crescer e dar seu fruto? Ou quando Jesus falava na beira-mar, circundado por pescadores, sabia recorrer à linguagem da pesca e todos ficavam boquiabertos com tamanha sabedoria.

É necessário nascer de novo para ser de Jesus

Era este o jeito de Jesus e a preocupação dele: fazer-se entender por todos e que todos voltassem para casa com uma mensagem nova, animadora, para enfrentar a vida. Mesmo quando Jesus devia falar de “mistérios”, coisas altas e profundas, Ele tinha em si mesmo a arte de simplificar o mesmo mistério sem perder a profundidade. Queria falar do Espírito Santo para aquela cabeça dura e fechada na sua mentalidade, que era Nicodemos, o que Ele fez? Recorreu ao vento que sopra: nós o percebemos, mas não sabemos de onde vem e para onde vai. Esse vento novo é o Espírito Santo. E, Nicodemos, com um pouco de esforço (não porque era difícil o falar de Jesus, mas porque ele não queria compreender) chega à conclusão que é necessário nascer de novo para ser de Jesus.

Quando Ele quer falar do perdão alegre, jubiloso do Pai aos pecadores, Ele o faz com o toque delicado e comovedor de três parábolas: a ovelha perdida que o pastor ama tanto, até o ponto de deixar as noventa e nove e correr por montes e vales até que a encontre e faz uma grande festa; ou o dinheirinho suado e perdido que a mulher para reencontrá-lo revira a casa e, quando o encontra, convida a todas as amigas para dar a notícia e fazer festa; e fecha essa teologia do perdão com a parábola que está na boca de todos e no coração dos mais empedernidos no pecado, a parábola do filho que é recebido como um herói em casa pelo pai, porque depois de ter gastado tudo, volta à casa paterna. Não é prêmio porque pecou e fez besteiras por aí, mas porque não só se envergonhou dos pecados e da malandragem, mas voltou pedindo perdão. Jesus tem este jeito de dizer tudo para nos fazer entendê-Lo. Dá gosto ler o evangelho. Ninguém dorme, ninguém se cansa e ninguém necessita de dicionário para compreender.

Segredos da fé

Mas, hoje, as coisas andam diferentes. Quando muitos de nós, padres, abrimos a boca na Igreja, provocamos a quase todos os fiéis a levarem o dicionário para compreender o que dizemos. Aliás, dizer “linguagem de padre” já é dizer que são coisas difíceis. Mas, às vezes, nós, padres, caprichamos para que ninguém nos entenda e, ainda, achamos que temos razão e, ousamos pensar “é o povo que deve estudar mais para conhecer melhor os segredo da fé”.

Um dia, fui à Missa e a pregação do padre foi uma autêntica enxurrada de palavras difíceis. Eram palavras postas em hebraico e em grego, e essas, eram uma autêntica festa folclórica de palavras. Eu quase não compreendia nada, mas isso é normal, dada a minha pobre e pouca cultura. Era uma aula de teologia bíblica para os doutores.

Linguagem simples

Mas, afinal, quais palavras são difíceis e que deveriam não ser usadas? Será que o nosso povo e a maioria de nós, sabe o que é parusia, escatologia, kénosis, parrésia… e tantas outras palavras que entraram no linguajar de hoje e nas pregações? Duvido! Eu, às vezes, nem sei direito e devo recorrer ao dicionário para ver se consigo compreender algo. O povo não merece ser colocado a duro esforço linguístico. Devemos todos nós voltar às aulas com Cristo Jesus e aprender a linguagem simples do dia.

Quem sabe reinventar parábolas a partir do computador, de música, de tecnologia que está na compreensão de todos, microondas, fogão, carros e motores, e futebol. O Evangelho é sempre vivo, mas necessita ser encarnado no dia a dia. O que importa é deixar intacto o conteúdo da mensagem da Palavra de Deus. O resto deve ser apresentado com palavras novas, que fazem parte do nosso comportamento. Dizem os estudiosos que: Jesus em todo o evangelho, não usa nem 500 palavras diferentes. Para nos fazer compreender não é necessário recorrer às palavras difíceis.

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Um dia uma mulher “simplesinha”, dizia: “frei, eu gosto dos seus livros, porque o senhor não diz muitas coisas, mas usa palavras que todos nós entendemos, assim que é bom. Há gente por aí que diz muitas coisas, mas ninguém entende nada”. Contam que, um dia, São João Bosco preparou uma homilia maravilhosa e foi ler para sua mãe Margarita, que estava trabalhando no fogão. Depois que terminou de ler, João Bosco perguntou para a mãe: “a senhora, o que achou da minha pregação?”. E a mãe, Margarita, sem papas na língua, respondeu para o filho: “meu filho, porque tu não falas como tua mãe te ensinou e que todo mundo entende?”.

E, um dia, eu disse à minha mãe, Domênica, que me tinha ensinado a rezar o terço em latim: “mãe, o seu latim está todo errado”. Ela, com sua resposta rápida, não duvidou em dizer: “meu filho, você fica com o seu latim certo e sua mãe fica com a fé dela”. Nunca mais perguntei nada e compreendi que, quando falamos, é para sermos compreendidos por aqueles que estão interagindo conosco, quer sejam doutores ou analfabetos. Essa é a sabedoria de Jesus e deve ser a sabedoria de todo evangelizador.

Frei Patrício Sciadini, OCD

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