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Dom Quixote pode nos ensinar sobre nosso caminho de santidade?

São muitas as curiosas e divertidíssimas aventuras que Dom Quixote de La Mancha viveu em seus devaneios, pensando ser um cavaleiro andante, que estava no mundo para combater o mal e exaltar as leis da cavalaria e o nome da sua amada Dulcineia. Mesmo quem não conhece bem a história mais célebre contada por Miguel de Cervantes deve ter ouvido sobre a sua famosa batalha contra os moinhos de vento, que ele imaginava serem dezenas de gigantes malvados. São incontáveis, contudo, os episódios em que a incapacidade de Dom Quixote de avaliar a realidade o levaram a expor-se ao ridículo, como quando atacou um pobre barbeiro que vinha no caminho montado em sua mula com uma bacia de metal na cabeça, para proteger-se da chuva.

Dom Quixote estava convencido de que aquela bacia era, na verdade, o mítico Elmo de Mambrino, um artefato presente nos livros de cavalaria que protegia seu portador de todo mal. Em outras ocasiões, contudo, essa falta de noção de Dom Quixote fazia-o ser tremendamente injusto, como quando atacou e feriu padres que seguiam num cortejo fúnebre de um nobre, apenas porque, vendo-os no meio da noite de tochas na mão, julgou que estivessem fazendo algo de errado ou proibido.

Não à toa Dom Quixote é um dos maiores clássicos da literatura de todos os tempos. Sua história é ao mesmo tempo épica, engraçada e emocionante, mas, mais do que isso, há muitas camadas no livro, que, mesmo após mais de quatrocentos anos desde que foi publicado, permanece atual e nos leva a refletir sobre os mais variados assuntos.

Dom Quixote pode nos ensinar sobre nosso caminho de santidade?

Foto ilustrativa: zothen by Getty Images

Semelhança entre Dom Quixote e os cristãos

Uma das reflexões que proponho neste texto está diretamente ligada à vocação universal a que se refere a Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II: “cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade”, ou seja, todos somos chamados à santidade.

Eu e você, caro leitor, somos chamados a dedicar toda a nossa vida a uma missão superior, assim como Dom Quixote o fez. A diferença é que a nossa missão é o céu, é buscar viver no hoje em vista do amanhã que nunca termina, crescendo no amor, na fé, na esperança. É missão árdua, que exige atenção, sacrifício, disciplina, perseverança. Muitas vezes, seremos levados a querer desistir. Dom Quixote foi exemplo de tudo isso que enumerei. Ele estava sempre atento aos perigos, não tinha medo de sacrificar-se pela realização da sua missão, era extremamente disciplinado e perseverante.

Entretanto, ao observarmos sua conduta, não podemos chamá-lo de outra coisa que não louco. A intenção de Dom Quixote era reta. Ele nunca pretendeu fazer o mal, mas como estava distante de fazer o bem! O que faltou então a Dom Quixote que pode nos ajudar a compreender o que, muitas vezes, nos falta na nossa vida, para crescermos na santidade? Em uma palavra: juízo. Sim, faltou juízo ao nosso cavaleiro, assim como falta-nos juízo muitas vezes.

Quero abordar uma dimensão específica da falta de juízo, dessa falta da capacidade de julgar de que padecia Dom Quixote. Ele nunca desconfiava de si mesmo. Sempre que se deparava com o que ele imaginava ser uma nova grande aventura, a sua voz da razão, representada por Sancho Pança, o alertava: Não são gigantes, são só moinhos de vento! Não é o Elmo de Mambrino, é só uma bacia de barbeiro.

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O que Dom Quixote fazia então?

Calava a voz da razão à força de raciocínios vãos e de uma pretensa capacidade intelectual superior (“Eu sei o que estou fazendo, Sancho. Você é só um simplório que nada conhece do mundo”). Não é exatamente isso que fazemos repetidas vezes no nosso caminho para a santidade? Note que não estou falando de desconfiar de nós mesmos em relação aos outros. Estou falando do mais básico do básico: permitir que realmente ocorra um diálogo sincero dentro de mim, em que eu duvide das minhas razões, das minhas intenções e motivações.

Se sou uma pessoa de oração, que deseja retamente agradar a Deus, toda vez que eu tomar uma atitude no sentido contrário, o Espírito Santo iluminará a minha consciência, que soprará no meu ouvido que algo está errado, assim como Sancho Pança fazia com seu mestre. Acontece que somos arrogantes demais para desconfiar de nós mesmos e no mais das vezes gastamos tempo a inventar desculpas e justificativas, apenas para defendermos aquela decisão errada que nos afasta de Deus. O problema é que esse tipo de prática trava o nosso caminho para a santidade, porque com o tempo nós ficamos surdos em relação à voz da nossa consciência e, como um Dom Quixote, cavalgamos a toda velocidade fazendo o mal enquanto julgamos fazer o bem.

Na maior parte dos casos, contudo, desconfiar de si mesmo não diz respeito a situações óbvias, mas a sutilezas quase imperceptíveis que nos fazem enxergar um vício nosso como se fosse virtude. Um exemplo bem pessoal e concreto que já aconteceu comigo de diversas formas: Eu sou chamado a fazer uma pregação num grupo de oração para falar sobre a minha experiência com o amor de Deus. Eu percebo que tenho condições de fazer isso, pois falo bem em público e tenho um testemunho interessante para contar. Mas meu primeiro pensamento é o medo de me envaidecer justamente pelo fato de eu falar bem em público. Crendo que estou sendo guiado pela humildade, rejeito o convite. Qual a avaliação que eu posso fazer do meu caminho de santidade nesse momento? Posso me imaginar subindo um degrau, já que fui humilde o suficiente para abrir mão de pregar. Mas eu resolvo desconfiar de mim mesmo.

Auxílio do Espírito Santo

Rezo pedindo o Espírito Santo e passo um tempo refletindo sobre o que mais pode ter motivado essa minha recusa. E se não tiver sido a humildade? Após algum tempo de oração e de reflexão, o Espírito Santo ilumina o meu entendimento e percebo: Eu decidi não fazer a pregação não porque sou humilde, mas justamente porque sou vaidoso! Eu estava com medo de meu testemunho não ser “atraente” o suficiente para aquela plateia. Como sou muito vaidoso, o padrão que estabeleci para mim mesmo é altíssimo, por isso preferi não pregar, para não correr o risco de fazer uma pregação “mais ou menos”. Eu fui movido pela vaidade e não pela humildade! Que descoberta que me humilha diante de Deus! Eu me julgava virtuoso e me descobri levado pelo vício da vaidade. Como essa descoberta pode me ajudar na minha conversão? Basta que eu tome atitudes concretas: ligo para a pessoa que me convidou e digo que sim, eu aceito fazer aquela pregação.

Dom Quixote era também chamado de o Cavaleiro da Triste Figura. Triste figura é a nossa, quando lutamos contra moinhos de vento achando que estamos derrotando nossos pecados, ou, em nossa soberba, usamos em nossa cabeça a bacia da vaidade, achando que estamos usando o elmo da humildade.

Como eu afirmei antes, não dá para chamar Dom Quixote por outro nome que não louco. E a nós, que não desconfiamos de nós mesmos, que nome podemos usar que não também esse? Loucos que construíram sua casa na areia. Quando caírem as chuvas, vierem as enchentes e soprarem os ventos, aquela casa caíra e será grande a sua ruína.

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José Leonardo Nascimento

José Leonardo Ribeiro Nascimento é casado, pai de quatro filhos e membro do segundo elo da Comunidade Canção Nova desde 2007. Natural de Paripiranga (BA), cursou Ciências Contábeis na Universidade Federal de Sergipe e fez pós-graduação em economia por meio do Minerva Program, na George Washington University, nos Estados Unidos. Trabalha, há 18 anos, como Auditor Federal na Controladoria-Geral da União em Aracaju (SE). Ele e sua esposa trabalham, há muitos anos, com a evangelização de casais e de famílias, coordenando grupos e pregando em retiros e encontros.
Instagram: @leonardonascimentocn | Facebook: @leonardonascimentocn

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