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Um tesouro com o brilho escondido não perde o seu valor

Há dois anos li uma reflexão apresentada pelo padre checo Tomás Halík, em seu livro Toque as feridas, que certamente nunca esquecerei. Quando analisamos cuidadosamente a história, diz ele, não podemos negar a suspeita de que, ao longo dos séculos, milhões e milhões de pessoas que professaram e praticaram de forma sincera a sua religião jamais foram “perturbadas pelo nascimento da fé como uma resposta voluntária e pessoal a um chamado divino pessoal”.

Em outras palavras, boa parte dos católicos, ao longo da bela história da nossa Igreja, foi privada de algo essencial à nossa fé, ou seja, da experiência de conversão, da metanoia, que acontece quando percebemos a nossa vida sendo transformada por um incentivo incessante de Jesus Cristo. Ao olhar ao nosso redor, essa realidade torna-se clara como o sol ao meio dia num céu sem nuvens. Não estou aqui falando de julgar o vizinho, mas sim de observar a conduta do “povo católico” em geral.

Pense na sua paróquia, nas pessoas que costumam participar das mesmas missas dominicais que você. Pense na sua família, naqueles que escolheram viver a fé católica. Pense em você mesmo. Quantos vivem essa perturbação do nascimento da fé e quantos vivem a religião com uma tranquilidade que constrange? Para muitas pessoas, a fé é aquele cobertor que você usa num dia levemente frio, em que você já está devidamente agasalhado, ou seja, crer em Deus apenas acrescenta um pouco mais de conforto a uma vida já confortável.

Um tesouro com o brilho escondido não perde o seu valor

Foto ilustrativa: Arquivo CN/cancaonova.com

Em busca da ilha do tesouro

Ao refletir sobre isso, sempre me vem à mente a figura do jovem Jim Hawkins. Não sabe quem é ele? Jim era um garoto de uns treze anos que vivia com seus pais, que eram donos de uma hospedaria numa cidade no litoral da Inglaterra. Sua vida era bem tranquila e agradável até ser sacudida com a chegada de um hóspede mais do que peculiar: um velho lobo do mar cheio de mistérios, histórias de piratas e tesouros escondidos. Depois de uma série de incidentes, Jim acaba com o mapa de um famoso tesouro pirata nas mãos. O que ele faz? Larga tudo – hospedaria, seus pais, sua segurança – e parte em busca da ilha do tesouro.

Jim fez questão de integrar a equipe de aventureiros que iria desbravar os mares, mesmo sem nunca antes ter entrado num navio, sem saber atirar, sem fazer a menor ideia de onde ficava aquela ilha e o pior: sabendo que haveria toda uma horda de piratas no seu encalço. Por que Jim tomou uma decisão assim? Porque ele sabia que o tesouro tinha um valor inestimável, um valor tal que depois que ele o descobriu, não tinha como fingir que sua vida poderia continuar a mesma.

Se Jim, que é só um personagem de um livro, largou tudo e arriscou sua vida para procurar um tesouro feito de moedas de ouro e joias preciosas, com que determinada decisão eu devo largar tudo para alcançar o tesouro que descobri, Jesus Cristo, morto e ressuscitado! A partir do momento que descobriu seu tesouro, Jim nunca mais viveu a sua vida com tranquilidade.

Como você tem vivido a sua fé?

Ele sabia que era urgente chegar até a ilha. Sua lista de prioridades tinha sido refeita. Não havia mais espaço para a vida pacata na hospedaria, era necessário viver em função do tesouro. Isso precisa me levar a pensar: quando foi que eu descobri Cristo na minha vida? Quando criança, já adulto, há um ano ou há vinte anos… Não importa. O que importa é: o que tenho feito da minha vida desde então? Tenho vivido uma fé formal, baseada só em ritos e costumes? Continuei na hospedaria da minha vida ou o encontro com Cristo me fez arriscar minha segurança e partir num navio rumo ao alto mar, à procura do tesouro?

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Professar a fé católica significa crer, dentre outras coisas que Jesus é o próprio Deus, único, eterno, Todo Poderoso, que se encarnou e se fez homem para resgatar a humanidade escravizada pelo pecado. Significa crer que Ele sofreu além das maiores dores que se possa imaginar por amor a mim, para me redimir da minha culpa, morreu humilhado numa cruz e ressuscitou ao terceiro dia. E deixou instruções bem claras sobre como eu deveria viver para alcançar a vida eterna:

“Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração”.

“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça”.

“Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”.

É preciso progredir constantemente na fé

Ora, não consigo conceber que mesmo crendo nisso tudo, eu relegue o seguimento de Cristo a uma parte periférica, secundária da minha vida. Um católico que não traz em si a intenção consciente de progredir constantemente na fé, na busca de uma vida de perfeição e de santidade não sabe ainda o tesouro que tem diante de si. É como aquele homem que está cavando a sua terra para plantar e encontra uma pedra de ouro, a maior que se possa imaginar. Mas ele está tão acostumado à labuta do dia a dia que nem se dá ao trabalho de tirar a lama que encobre a superfície do ouro e esconde o seu brilho. Julgando ter encontrado uma rocha ordinária, ele simplesmente continua a cavar mais adiante, preocupado apenas com quantos pés de milho aquela rocha tão grande terá “roubado” da sua plantação. O maior dos tesouros está diante dele, mas ele não percebeu e continuará a viver como antes.

O maior tesouro, o Santo dos Santos está dentro de nós, nós já o descobrimos, mas as preocupações da nossa vida esconderam seu brilho e continuamos os nossos afazeres. Jesus pode ter se tornado para nós apenas uma parte irrisória da nossa rotina, um pequeno “incômodo” com o qual temos que lidar aos domingos, quando estamos com coragem suficiente para irmos à missa.

Jim Hawkins poderia ter olhado para o mapa dessa maneira. “É só um mapa do tesouro. Não vale a pena deixar a minha vida para arriscar-me buscando uma ilusão”. Mas ele não titubeou, porque acreditou que o tesouro era real. A medida da nossa fé em Cristo está diretamente ligada a quanto nossa vida foi transformada desde que o descobrimos. Se nada tem mudado radicalmente em mim, é porque encontrei aquele tesouro escondido num campo, mas não o reconheci. Quando isso acontecer, alegremente venderei tudo o que tenho para comprar o campo e me apossar do tesouro.

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José Leonardo Nascimento

José Leonardo Ribeiro Nascimento é casado, pai de quatro filhos e membro do segundo elo da Comunidade Canção Nova desde 2007. Natural de Paripiranga (BA), cursou Ciências Contábeis na Universidade Federal de Sergipe e fez pós-graduação em economia por meio do Minerva Program, na George Washington University, nos Estados Unidos. Trabalha, há 18 anos, como Auditor Federal na Controladoria-Geral da União em Aracaju (SE). Ele e sua esposa trabalham, há muitos anos, com a evangelização de casais e de famílias, coordenando grupos e pregando em retiros e encontros.
Instagram: @leonardonascimentocn | Facebook: @leonardonascimentocn

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