REFLEXÃO

O alerta do Papa Leão XIV contra a lógica do poder

A crise global e o enfraquecimento das instituições

O Papa Leão XIV reflete, na sua Carta Encíclica, Magnifica Humanitas, sobre importante temática com aspectos muito relevantes quando se considera a cultura do poder decorrente da crise do sistema político-econômico global. Assiste-se a um enfraquecimento das instituições criadas para salvaguardar a ideia de um destino comum dos povos e de um bem comum mundial.

Ilustração em estilo vetorizado com fundo azul-turquesa mostrando dois homens de negócios correndo velozmente de perfil para o lado esquerdo, sugerindo uma competição ou corrida corporativa. Ambos vestem ternos escuros, camisas brancas e calçam sapatos pretos. O homem à frente usa uma gravata vermelha e o que está logo atrás usa uma gravata laranja; os dois carregam pastas de couro marrom na mão esquerda. Atrás deles, linhas e setas horizontais em tons de azul claro e branco reforçam a sensação de movimento e velocidade. Na extremidade esquerda da imagem, dentro dessas setas, há pequenos ícones brancos que remetem ao ambiente financeiro e empresarial: uma ampulheta, um gráfico de barras ascendente, um cifrão de dinheiro, um gráfico de pizza e folhas de relatório.

Créditos: TCMake_photo by Getty Images.

O Papa sublinha que, ao invés de se progredir com as conquistas e mudanças históricas do século XX, constatam-se retrocessos. A globalização econômica assumiu a referência mais importante, no entanto, desprovida de arquitetura política adequada capaz de sustentar o diálogo e a paz. Cegamente, elegeu-se os mercados com a tarefa de gerar bem-estar, democracia e estabilidade, não conseguindo a globalização gestar unidade e paz, mas, ao contrário disso, reações fundamentalistas, identitárias e nacionalistas.

Em lugar da consolidação do multilateralismo vê-se um multipolarismo desordenado e conflituoso, multiplicando desconfianças. As narrativas que são geradas podem justificar os vitimismos e as vinganças com simplificações primárias abrindo caminhos para decisões irresponsáveis e a briga fratricida de uma defesa de si em prejuízo do outro.

O falso realismo político

Prevalece sempre o direito do mais forte e os instrumentos usados são em nome da lógica do poder deixando de lado a cooperação para o desenvolvimento, desarmamento, prevenção de conflitos e construção da confiança mútua.

Os direitos humanitários, consequentemente, são deixados para trás, dando lugar a selvagerias, verdadeiros crimes e abusos de poder. Os cenários se constituem na privação de alimentos, água e de muitos outros bens essenciais à vida, constantemente desrespeitada, com tratamentos desumanos atingindo a todos, de modo perverso as crianças.

O Papa Leão XIV adverte ser este quadro fruto de cegueira espiritual e cultural como resultado de um falso pragmatismo por cortar as raízes da memória como se fosse possível inaugurar uma nova criação. Essa tendência efetiva caminhos que podem ensaiar a repetição de atrocidades do século XX, que não podem se repetir. Trata-se de um niilismo histórico perigoso, sobretudo pela priorização do equilíbrio armado e da dissuasão.

Há uma exacerbação dos conflitos produzindo guerras abomináveis. Guerras também alimentadas no âmbito econômico, financeiro e tecnológico. Os custos dessas disputas acabam sempre recaindo sobre os mais pobres, também pela redução dos investimentos e recursos para a saúde, educação e serviços sociais. A isso o Papa Leão XIV chama de um falso realismo por trás da lógica dominante da força, por meio de uma convicção cultural e antropológica que permite eleger a guerra como parte inevitável da natureza humana.  Até se justifica dizendo que sempre foi assim e assim será.

Papa Leão assevera que o problema já não é a paz, perdida como referência no horizonte internacional, mas sim como e quando agir militarmente, considerando como irresponsável a não preparação para o confronto. O Papa chama de irresponsável esta forma de realismo político por semear nas consciências e na cultura a resignação perante uma guerra inevitável, sobretudo por qualificar a paz e o diálogo como posições utópicas ou irracionais.

Do ensinamento perene da Igreja Católica se propala que a paz não é uma busca, fruto de ingenuidades, nem simplesmente uma ausência de guerras, mas alcançável como fruto da justiça e da paz. Agrava a situação o niilismo e o pragmatismo que justificam extremismos religiosos, fanatismos identitários aliados a um economicismo irracional, empurrando a política à facilidade da desinformação, à humilhação do adversário, dando espaço, consequentemente, à construção sistemática de medos e ressentimentos.

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O desafio da ética e a construção de uma sociedade que faça das diferenças uma riqueza

As diferenças não se articulam como riqueza, mas como ameaças que alimentam, patologicamente, o desejo de posse, a vontade do domínio, ambições hegemônicas, abusos de poder e o medo da diferença. Um teatro de selvagerias travestidas de modernidade e de atualidade, terreno fértil para novos e intermináveis conflitos. Essas guerras em pedaços são terreno fértil para novas e desastrosas guerras pela perda de todo limite ético. O Papa Leão XIV faz importante constatação, que precisa soar como advertência: o que era considerado como inaceitável no passado pode hoje ser posto em prática sem hesitação. Assim é, em razão de se decidir, exclusivamente, por cálculos econômicos, alimentados como verdade pelas ilusões midiáticas, euforias artificiais, diz o Papa, por sonhos efêmeros geradores de violências e frustrações.

As intolerâncias e a agressividade se tornam o lugar comum das práticas e tomam conta do coração das pessoas. Os atos de violência então se multiplicam, justificados, fazendo prevalecer a cultura do conflito, gerando graves problemas e até um instrumento de gestão cínica das dificuldades. Papa Leão focaliza a responsabilidade dos que atuam no mundo da pesquisa citando os protagonistas desta área como cientistas, empreendedores, investidores, autoridades acadêmicas e políticas, chamados a trabalhar numa lógica de transparência e responsabilidade, iluminados pela consciência viva do quadro mais amplo em que se inscrevem os avanços tecnológicos para os quais contribuem, incluindo os relacionados com a inteligência artificial.

Enriquecida assim a Doutrina Social da Igreja Católica, dá-se um passo no convite a reflexões mais profundas e efetivação de novos horizontes em vista da paz social e do respeito à justiça, apostando numa sociedade contemporânea não beligerante, mas construtora da paz assentada em diálogos que façam das diferenças uma riqueza e jamais matéria de disputas fratricidas e desfiguradoras da humanidade: na sua vocação e grande missão no tecer da história. Trata-se de uma advertência e de uma oportunidade.   


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br