A visão das duas coroas: o chamado à pureza e ao martírio
Seu nome de batismo foi Raimundo Kolbe. Nasceu em 8 de janeiro de 1894 na Polônia. Desde criança, mostrou grande devoção a Virgem Maria. Aos 12 anos, teve uma visão de Nossa Senhora oferecendo-lhe duas coroas: uma branca (pureza) e outra vermelha (martírio). Ele aceitou ambas. A bandeira da Polônia Católica carrega estas duas cores.
Entrou na Ordem dos Frades Menores Conventuais (Franciscanos), em 1907, e recebeu o nome religioso de Maximiliano Maria. Estudou filosofia e teologia em Roma, onde foi ordenado sacerdote em 1918.

Créditos: Arquivo CN.
A milícia da imaculada: evangelizando através da comunicação
Em meio às perseguições contra a Igreja pelo comunismo e nazismo, e ao clima anticristão da época, fundou a “Milícia da Imaculada”, em 1917, com o objetivo de promover a consagração total a Virgem Maria, a conversão dos pecadores e utilizar todos os meios lícitos para a evangelização.
Seu lema era: “Conquistar o mundo inteiro para Cristo por meio da Imaculada”. Ele compreendeu muito cedo a importância dos meios de comunicação para a evangelização, e logo fundou a revista “O Cavaleiro da Imaculada”, que chegou à tiragem de 1 milhão de exemplares. Ele dizia que “pertencer à Imaculada é pertencer da maneira mais perfeita ao Sagrado Coração de Jesus”.
Criou também a “Cidade da Imaculada”, próximo a Varsóvia, que se tornou um grande mosteiro franciscano; centro de impressão, rádio e formação missionária; uma das maiores comunidades religiosas da Europa antes da Segunda Guerra Mundial.
Missionário no Japão: a providência em Nagasaki
Em 1930, partiu como missionário para o Japão e ali fundou um convento em Nagasaki e uma edição japonesa do “Cavaleiro da Imaculada”. Escolheu um terreno aparentemente inadequado para o convento; providencialmente, esse local foi poupado em grande parte da destruição causada pela bomba atômica de 1945.
“Só o amor cria”: o coração da espiritualidade de Kolbe
Os pontos centrais de sua espiritualidade são: a Consagração total à Imaculada; amor apaixonado por Jesus Cristo; obediência e pobreza franciscanas; uso dos meios modernos de comunicação para evangelizar; caridade levada ao extremo do dom da própria vida. Ele dizia que: “O ódio não é força criadora. Só o amor cria”. “A Imaculada deve conquistar cada coração, e por meio dela Jesus reinará no mundo”. O mesmo já tinha dito São Luiz de Montfort, dois séculos antes.
São Maximiliano é considerado o padroeiro dos jornalistas católicos e dos meios de comunicação; exemplo de evangelização missionária; testemunha da dignidade humana diante do totalitarismo; modelo de amor sacrificial, por ter dado a própria vida por um pai de família.
Sua vida une de modo extraordinário contemplação mariana, ardor missionário, criatividade apostólica e heroísmo da caridade, fazendo dele um dos grandes santos do século XX.
O prisioneiro 16670: o calvário em Auschwitz
Com a invasão da Polônia pelos nazistas, São Maximiliano acolheu refugiados, inclusive judeus; continuou exercendo a caridade cristã. Foi preso pela Gestapo em 1941 e enviado ao campo de concentração de Auschwitz, recebendo o número 16670.
O gesto heroico de São Maximiliano Kolbe: “Quero morrer no lugar desse pai de família”
Após a fuga de um prisioneiro, os nazistas escolheram dez homens para morrer de fome. Um deles, Franciszek Gajowniczek, chorou dizendo: “Minha esposa! Meus filhos!” São Maximiliano saiu da fila e pediu ao comandante: “Quero morrer no lugar desse homem”. O pedido foi aceito. Durante semanas, no bunker da fome, ele rezava, cantava hinos marianos, confortava os condenados.
As biografias de São Maximiliano atestam que os nazistas o agrediam duramente física e mentalmente apenas por vê-lo com as vestes sacerdotais e muitas vezes o forçava a negar sua fé; mas, pela Graça Divina e pela sua devoção a Imaculada Conceição, o grande mártir resistiu heroicamente. Testemunhou a Nosso Senhor Jesus Cristo mesmo subjugado pelas humilhações e agressões físicas e psicológicas infligidas pelos comandantes nazistas.
Como ainda permanecia vivo, foi morto por uma injeção de ácido carbólico em 14 de agosto de 1941. Foi beatificado em 1971, por São Paulo VI e canonizado em 10 de outubro de 1982 por São João Paulo II, que o proclamou “Mártir da caridade”. Sua memória litúrgica é celebrada no dia de sua morte.
A prova viva: O reencontro entre o salvo e o santo
No dia de sua canonização, São João Paulo II disse: “Foi uma vitória semelhante à obtida por Nosso Senhor Jesus Cristo, porque foi uma vitória alcançada pelo amor e pela fidelidade à verdade”. O Papa também declarou: “Em Maximiliano Kolbe manifestou-se de modo particular aquela maturidade espiritual pela qual o homem se torna dom para os outros.”
Sabe-se que Franciszek Gajowniczek, salvo da morte pelo Santo, estava presente na Praça de São Pedro e participou da celebração da canonização como testemunha viva do sacrifício de Kolbe. Após a cerimônia, ele teve a oportunidade de encontrar-se com João Paulo II.
Em diversas entrevistas e testemunhos posteriores, Gajowniczek afirmou sentir-se incapaz de expressar plenamente sua gratidão e dizia frequentemente: “Durante toda a minha vida, procurei ser digno daquele dom de vida que recebi do Padre Kolbe.”
Ele também declarou em outras ocasiões: “Enquanto eu tiver fôlego, contarei ao mundo o que Maximiliano Kolbe fez por mim”.
São João Paulo II lhe teria dito: “O senhor é a prova viva de que o amor é mais forte que a morte”. Um Papa polonês, sobrevivente da ocupação nazista, reconhecia oficialmente a vitória do amor cristão sobre o ódio totalitário.
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Um legado para o século XXI: das redes sociais à eternidade
Analisar o martírio do Frei Maximiliano Kolbe é estudar a excelência daquele que atende à vocação para o sacerdócio com total fidelidade a Jesus Cristo e à Igreja.
Ele viveu o que disse São Paulo: “Completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja” (Col 1,24). E o que Jesus disse: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (João 15,13).
São Maximiliano foi chamado por São João Paulo II, de “mártir da caridade”, não só porque morreu pela fé, mas também pela caridade; e tornou-se um testemunho luminoso de que a fé cristã pode transformar a inteligência, a comunicação social e até mesmo o sofrimento extremo em instrumentos de amor.
Ele ensina que os meios de comunicação devem servir à verdade, à dignidade humana e à evangelização. Isso é muito importante para nos servir de guia e exemplo nesses tempos das redes sociais e da Inteligência Artificial. Seu gesto em Auschwitz mostra que a pessoa humana encontra sua plenitude no dom de si.






