⛪ Missão

Leão XIV: o Papa que veio para carregar a cruz

Um aniversário marcado pela cruz

O Papa Leão XIV celebra seu aniversário em 14 de setembro, dia em que a Igreja comemora a Exaltação da Santa Cruz. Nascido em 1955, em Chicago, nos Estados Unidos, Robert Francis Prevost parece ter sua história marcada por essa significativa coincidência.

Papa Leão XIV sorri durante discurso ao microfone, vestido de branco e usando o crucifixo.

⁠Edgar Beltrán, The Pillar, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

A cruz recorda a missão árdua, mas também profundamente fecunda, confiada ao sucessor de Pedro. Na primeira Missa celebrada com os cardeais após sua eleição, Leão XIV afirmou que o Senhor o havia chamado “para carregar essa cruz e realizar esta missão”.

Desde o início de seu pontificado, o Papa também tem demonstrado que não deseja caminhar sozinho. Ao falar aos cardeais, disse saber que podia contar com cada um deles para seguir adiante como Igreja: “uma comunidade de amigos de Jesus”, chamada a anunciar a Boa-Nova e o Evangelho.

De instrumento de morte a sinal de vida

A celebração da Exaltação da Santa Cruz recorda a descoberta do madeiro em que Jesus foi crucificado, encontrada por Santa Helena em Jerusalém. A liturgia também nos conduz ao Evangelho de São João, quando Jesus explica a Nicodemos:

“O Filho do Homem deve ser elevado, a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3,14-15).

Naquele momento, Nicodemos talvez ainda não compreendesse plenamente o significado dessas palavras. Mais tarde, porém, depois da crucificação, ele ajudaria a sepultar o corpo de Cristo.

“Deus, para redimir os homens, se fez homem e morreu na cruz”, explicou Leão XIV. O Papa recordou ainda que Deus se revelou a nós como companheiro, mestre, médico e amigo, até tornar-se o Pão partido na Eucaristia. Para realizar essa obra de salvação, serviu-se de um dos instrumentos de morte mais cruéis já inventados pelo homem: a cruz.

Por isso, a Igreja não exalta a cruz por causa do sofrimento em si, mas pelo amor com que Cristo a abraçou. Em Jesus, a cruz deixou de ser apenas um instrumento de morte e tornou-se instrumento de vida. Ela anuncia que nada pode nos separar de Deus e que sua caridade é maior do que o nosso próprio pecado.

Uma cruz que anuncia esperança

O gesto de carregar a cruz também recorda que Cristo continua crucificado nos inocentes atingidos pela violência e pelas guerras. Como líder espiritual no mundo de hoje, Leão XIV deseja ser uma voz que proclama que Cristo ainda sofre nos pequenos e vulneráveis.

Por isso, ao ser eleito, desejou a todos a “paz do Ressuscitado” e convidou as pessoas de boa vontade a caminharem juntas como embaixadoras da paz.

Em continuidade com a tradição de seus predecessores desde o Concílio Vaticano II, o Papa escolheu uma férula — o bastão cerimonial utilizado pelo Pontífice em celebrações solenes — que une o mistério da cruz à glória da Ressurreição.

A imagem apresenta Cristo não mais preso aos cravos da Paixão, mas com o corpo glorificado, no momento de ascender ao Pai. Ainda assim, o Ressuscitado conserva as chagas da cruz. Elas já não são sinais de derrota, mas marcas luminosas da vitória.

A dor humana não é apagada, mas pode ser transfigurada pela esperança. A escolha dessa imagem recorda que a fé cristã tem seu fundamento em Cristo crucificado e ressuscitado.

Gravado no metal da cruz está o lema do pontificado: In Illo uno unum, expressão latina que significa “No único Cristo somos um”.

A cruz peitoral e a espiritualidade agostiniana

A cruz peitoral usada pelo Papa Leão XIV também possui um significado especial. Ela guarda relíquias de Santo Agostinho, de Santa Mônica — sua mãe — e de alguns beatos da Ordem de Santo Agostinho.

A peça foi confeccionada a pedido do padre Josef Sciberras, postulador-geral da Ordem, quando Robert Prevost, então bispo, recebeu do Papa Francisco o barrete vermelho de cardeal.

Produzida com tecido moiré e ornamentada com a técnica paperoles, muito utilizada na decoração de relicários, a cruz traz ao coração do Papa a memória de sua família religiosa e de sua caminhada espiritual.

Essas relíquias indicam a inspiração agostiniana de Leão XIV, marcada pela busca da verdade interior, pela caridade e pelo desejo de comunhão. Como escreveu Santo Agostinho:

“Fizeste-nos para ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti” (Confissões, I, 1, 1).

A cruz na Via-Sacra

Leão XIV também retomou uma antiga tradição: carregar a cruz durante todo o percurso da Via-Sacra da Sexta-feira Santa, no Coliseu, em Roma.

O último Papa a realizar esse gesto havia sido São João Paulo II em 1995. Desde o início de seu pontificado, em 1978, ele carregava a cruz durante toda a procissão. Depois de uma cirurgia no quadril, passou a conduzi-la apenas em parte do percurso.

Bento XVI carregou a cruz na primeira estação, dentro do Coliseu, e acompanhou a procissão até o encerramento, no Monte Palatino. O Papa Francisco, por sua vez, nunca carregou a cruz, mas participou da celebração até que o agravamento de sua saúde o impedisse.

Ao retomar esse gesto, Leão XIV recorda que o caminho da Igreja passa necessariamente pela cruz — não como destino de derrota, mas como passagem para a vida nova.

O grito de Jesus

Em uma catequese de 10 de setembro de 2025, Leão XIV refletiu sobre a morte de Jesus na cruz. O Papa chamou a atenção para um detalhe precioso dos Evangelhos: Jesus não morreu em silêncio.

“Então Jesus, soltando um forte grito, expirou.”

Esse grito reunia dor, abandono, fé e entrega. Não era apenas a voz de um corpo vencido pelo sofrimento, mas o sinal máximo de uma vida oferecida por amor.

Antes de gritar, Jesus perguntou:

“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”

Essa é a primeira frase do Salmo 22. Nos lábios de Jesus, porém, ela assume uma profundidade única. O Filho, que sempre viveu em íntima comunhão com o Pai, experimenta o silêncio, a ausência e o abismo. Mas, segundo o Papa, esse grito não representa uma crise de fé.

É a expressão sincera de um amor que se entrega inteiramente. É a confiança que permanece mesmo quando tudo parece silêncio.

Na cruz, explicou Leão XIV, Deus já não se revela atrás de um véu. Seu rosto torna-se visível no Crucificado. É naquele homem atormentado que se manifesta o maior amor.

O centurião, um pagão, não reconheceu Jesus por ter ouvido um discurso, mas porque viu a maneira como Ele morreu. Então professou:

“Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!”

Foi a primeira profissão de fé depois da morte de Jesus. O fruto de um grito que não se perdeu no vento, mas alcançou um coração.

Gritar também pode ser oração

Nem sempre conseguimos expressar nossa dor com palavras. Às vezes, o coração está tão cheio que só consegue clamar. E isso não é necessariamente sinal de fraqueza; pode ser uma profunda expressão de humanidade.

Para Leão XIV, o Evangelho dá grande valor ao clamor. O grito pode ser invocação, protesto, desejo ou entrega. Quando já não restam palavras, pode tornar-se uma das formas mais profundas de oração.

Jesus não gritou contra o Pai, mas para o Pai. Mesmo atravessando o silêncio, continuava confiando que o Pai estava presente. Assim, ensinou-nos que a esperança também pode gritar quando tudo parece perdido.

Gritar é dizer que ainda estamos vivos. É afirmar que não queremos desaparecer em silêncio e que ainda temos algo a oferecer. Gritamos quando sofremos, mas também quando amamos, chamamos e invocamos.

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.:O alerta do Papa Leão XIV contra a lógica do poder

O grito da esperança

Há momentos em que guardar tudo dentro de nós pode nos consumir lentamente. Jesus nos ensina a não ter medo de clamar, desde que nosso clamor seja sincero, humilde e dirigido ao Pai.

Um grito que nasce do amor nunca é inútil. Quando entregue a Deus, nunca é ignorado. Ele nos ajuda a não ceder ao cinismo e a continuar acreditando que um mundo novo é possível.

A mensagem de Leão XIV é um convite a aprender com Jesus o grito da esperança nos momentos de maior provação. Não um grito para ferir, mas para confiar. Não um grito contra alguém, mas a abertura do coração diante de Deus.

Quando é verdadeiro, o grito pode ser o limiar de uma nova luz e de um novo nascimento. Foi assim com Jesus: quando tudo parecia terminado, a salvação estava prestes a começar.

Unida à voz de Cristo, a voz angustiada da humanidade pode transformar-se em fonte de esperança para nós e para todos os que caminham conosco. Ao carregar a cruz, Leão XIV nos recorda justamente isso: a cruz não é a última palavra. A última palavra pertence à vida, à Ressurreição e à esperança.