Desespero em esperança

O câncer foi um marco em minha vida

O maior milagre que recebi nesse processo não foi a cura do câncer, mas sim a cura do meu coração

“Deus é mais íntimo a nós que nós mesmos” (Santo Agostinho). No ano de 2002, começou minha história com o tratamento de câncer. A princípio, fui surpreendida com um nódulo no pescoço, mas não me dei conta da gravidade do problema, até que ele começou a aumentar. Ao procurar ajuda, descobri que esse pequeno nódulo já havia se transformado em metástase e sua origem estava no meu mediastino (centro do tórax); um tumor de 15 cm. No meu caso, um tipo de tumor maligno, chamado linfoma, localizado na cavidade externa entre o pulmão e o coração, migrando para o pescoço e o ombro. Diante desse diagnóstico, segui diretamente para o tratamento quimioterápico, que somaram 16 sessões ao todo. Foram dois anos de tratamento, sendo os nove primeiros meses mais difíceis: nove meses de quimioterapia, radioterapia, toracotomia, sofrimento e cura interior; um marco em minha vida.

Foto: Daniel Mafra/cancaonova.com

Consegui transformar o desespero em esperança

Quando recebemos a notícia de uma enfermidade grave, logo nos vem um sentimento de tristeza. No entanto, tudo aconteceu diferente dentro de mim, pois consegui transformar o desespero em esperança. O primeiro pensamento foi de que minha vida iria mudar, fui tomada por uma força de luta e uma certeza de que Deus tudo pode e Ele podia me curar.

Em minha oração, Ele me respondia que eu não morreria, mas não me pouparia dos sofrimentos. Em resposta àquilo que o Senhor me oferecia, optei pela fé e recebi o dom da alegria e a graça do bom humor. Tomei a decisão de aceitar o câncer e amá-lo, por isso dizia: “Ele não é de Deus, vou amá-lo tanto, que ele não aguentará e irá embora”.

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Convidei o Senhor para lutar comigo

Nessa caminhada de fé, convidei o Senhor para lutar comigo. O que me sustentava era o amor das pessoas e também “o ser paciente na enfermidade”; eu vivia a graça de esperar o tempo de Deus e o bem que Ele tiraria disso tudo. Assim, pude viver uma linda experiência de abandono em Deus. Durante essa jornada de cura, muitos sentimentos eu tinha de enfrentar e viver, como o abandono, a sensação de impotência e o mal-estar.

As sessões de quimioterapia me deprimiam psicológica e espiritualmente, sentia-me abandonada não por falta de companhia, mas porque ninguém neste mundo podia tocar naquilo que eu sentia, somente Deus. Por isso eu tinha de me agarrar a Ele. Nos momentos mais dolorosos, eu só conseguia repetir o nome de Jesus.

Disciplinei-me, então, no processo do tratamento, com paciência e serenidade, pois tinha a certeza de que o médico era para mim a boca de Deus, e ele traria a cura para minha vida.

O maior milagre não foi a cura do câncer

Acredito que o maior milagre que recebi nesse processo não foi a cura do câncer, mas sim a cura do meu coração. O câncer me tirou muitas coisas. Precisei não ter nada; a única coisa que possuía era Deus, e estar abandonada n’Ele foi para mim uma grande experiência de intimidade. Morrendo, a cada dia, nas sessões de quimioterapia, eu ficava fraca e frágil, mas, mesmo assim, louvava ao Senhor e via minha vida passar como um filme. Então, eu perdoava e pedia ao Senhor que curasse também o coração daqueles que um dia eu feri.

Temos dificuldades em lidar com a dor, mas recebi uma graça especial: diante do sofrimento, eu sorria. Isso é algo que somente pode ser vivido na graça, não existe explicação. Eu possuía força, coragem para encarar tudo com naturalidade, mas a confiança e a fé que realizava isso em mim era Deus e mais nada.

História de Jó, minha história

Finalizo fazendo uma analogia da minha vida com a história de Jó. Após saber que todos os seus bens lhe foram tirados, inclusive seus filhos, para piorar a situação recebeu uma enfermidade. Porém, mesmo com todo o sofrimento passado, descrito nos primeiros capítulos, Jó pronuncia: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei. O Senhor me deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1,21). “Se recebemos o bem de Deus, porque não iríamos receber também o mal” (Jó 2,10).

Somente alguém que tenha intimidade com o outro pode bendizê-lo. Jó sabia que tudo o que estava acontecendo tinha uma razão, pois seu Amigo íntimo – Deus – jamais o decepcionaria; eu também seguia nessa confiança.

O grau de sua intimidade com o Senhor determina até onde sua luta pode ir, porque Ele conhece cada coração. Assim, não termino a minha história, porque Deus me deu a chance de continuá-la. O câncer foi para mim a resposta do amor de Deus em minha vida e a certeza de que fui feita para Ele.

O tratamento foi uma gestação de nove meses. Em cada quimioterapia, eu morria para ressuscitar uma mulher curada. Deus não quis o câncer, mas o permitiu com o propósito de curar o meu coração e tornar-me íntima d’Ele. Em minha história, como na de Jó, que seja bendito o nome do Senhor! Amém.

Autora: Heloísa de Paiva Carvalho
Missionária da Comunidade Canção Nova

 

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