Gestação

Milagres vividos na maternidade de uma UTI Neonatal

Testemunho: a dor de uma mãe ao deixar a maternidade sem seus filhos nos braços

Por Alessandra Borges

A maternidade trouxe para a vida da missionária da Comunidade Canção Nova Elisangela Brene, de 41 anos, batalhas físicas e a certeza de que Deus é capaz de agir em cada detalhe e nos mostrar que Ele não nos abandona nunca.

Casada há dez anos, mãe de André, 8 anos, e de Maria Júlia, 4 anos, Elisangela, natural da cidade de Londrina (PR), quando se casou, sonhava ter filhos. No entanto, nos exames pré-nupciais de seu esposo, Roger Carvalho, foi diagnosticado varicocele, problema que está associado à infertilidade masculina.

Segundo a missionária, apesar do diagnóstico dado a seu esposo, Deus a presenteou com dois filhos maravilhosos. E cada vez que ela olha para as crianças, sente um amor imenso. A mãe ainda se emociona ao lembrar-se da luta dos filhos para viver.


Foto: Daniel Mafra/cancaonova.com

Lutei pela minha vida e dos meus filhos

cancaonova.com: Vocês se casaram e a expectativa eram os filhos. Vocês imaginavam que poderiam ter dificuldades para engravidar e enfrentar problemas na gestação?

Elisangela Brene: Antes de nos casarmos, fizemos todos os exames pré-nupciais. O Roger, meu esposo, foi diagnosticado com varicocele, uma doença que causa baixa fertilidade. Logo, foi-nos recomendada a cirurgia, mas não houve alteração; então, o médico nos alertou que seria muito difícil engravidar. Jamais imaginávamos que poderíamos passar por qualquer dificuldade, qualquer problema na gestação!

Sempre sonhei em viver cada momento, tentar parto natural e amamentar. Durante os seis primeiros meses de gestação, foram sonhos e sonhos.

cancaonova.com: Na gestação do seu primeiro filho, ocorreu tudo bem até o sexto mês de gestação. Após esse período, quais foram as complicações?

Elisangela Brene: No sexto mês, comecei a apresentar um aumento de peso anormal, apesar de seguir uma alimentação equilibrada. Com isso, a médica pediu vários exames e todos deram normais, sem nenhuma alteração. No entanto, na madrugada do dia 22 de abril, comecei a passar mal em casa, sentia muita dor de cabeça e tive eclâmpsia (um diagnóstico grave que ocorre na gravidez, caracterizada por convulsões associadas à hipertensão arterial).

cancaonova.com: Houve algum momento em que você e seu esposo precisaram escolher entre sua vida e a do bebê?

Elisangela Brene: Não houve um momento em que pudéssemos escolher, pois só fomos informados pela equipe médica que eles salvariam primeiro a mãe e, depois, tentariam, de todas as formas, salvar o bebê, pois, na eclâmpsia, é muito difícil mãe e bebê resistirem, ainda mais tão prematuro.

Diante dessa nova situação que surgiu, a minha fé estava em salvar a vida do meu filho e a minha. Após exames, a médica optou por me deixar internada até o fim da gestação, pois não era possível definirmos datas, mas sim vivermos um dia de cada vez.

cancaonova.com: Como foi o nascimento do seu filho e quais complicações surgiram depois?

Elisangela Brene: Quando cheguei no hospital, no dia 22 de abril de 2013, fui logo encaminhada para a UTI. Fiquei lá por dois dias; depois, fui para o quarto e, ali, recebi todo monitoramento e fiz exames de ultrassom com doppler, pois era preciso observar e acompanhar como estava o desenvolvimento do André (nome que escolhei para o meu primeiro filho) e verificar os sinais para saber se não estava faltando oxigênio no útero.

Os dias foram passando e tudo se encaminhava dentro das previsões médicas. No entanto, no fim do dia 26, quando fiz novamente o ultrassom, foi diagnosticado que ele estava começando a dar sinais de sofrimento e que o oxigênio estava começando a faltar. Nesse momento, foi preciso realizar o parto de urgência. Até então, eu faria o parto e ficaria bem, pois, assim que o bebê nasce e a placenta é retirada, a mãe, geralmente, não tem mais nada, ou seja, o risco acaba.

Fui para o centro cirúrgico para a realização da cesárea, e assim que o André nasceu, foi emocionante ouvir o chorinho dele. Senti um grande alívio no momento; depois, só o vi passando pelo corredor do centro cirúrgico, já dentro da incubadora. Tudo aconteceu bem diferente do que eu, meu esposo e a médica pensávamos.

Após esse momento, comecei a sentir muita dor de cabeça. A partir daí, já não me lembro de mais nada. Meu esposo conta que, quando já estava no corredor do centro cirúrgico, falei para a médica que estava sentindo as mesmas coisas que senti quando estava em casa, não estava mais enxergando e sentia muita dor de cabeça. Fui levada imediatamente para a UTI.


cancaonova.com: Como foi o período que ficou na UTI? Quais experiências de fé, esperança e coragem você viveu?

Elisangela Brene: Os momentos de UTI, muitas vezes, são bem confusos, pois você fica completamente dopada e vive horas de alucinações e horas de experiências com Deus.

Lembro que a minha situação se complicou muito, pois tive síndrome HELLP, que é o auge da gravidade da eclâmpsia. Quando fui diagnosticada com essa síndrome, as reações foram surgindo. Apresentei insuficiência renal e precisei fazer cinco sessões de hemodiálise. O número de plaquetas também ficou baixíssimo e com risco iminente de hemorragia.

A cada dia que passava, o quadro se complicava um pouco mais. Convulsionei várias vezes, e me recordo de que tive convulsão novamente na UTI. Lembro que, neste dia, queria muito conhecer meu filho; então, pedi à médica para me deixar visitá-lo, pois ele estava na UTI Neonatal. A médica autorizou minha visita, e eu poderia olhar para o meu filho após a hemodiálise, pois o sentimento que trazia comigo era o medo de morrer sem o conhecer.

No momento da hemodiálise, comecei a me sentir mal. As enfermeiras aferiram minha pressão e começaram a dar um remédio sublingual para baixá-la. Percebi que não estava muito bem e resolvi deixar para um outro momento a visita à UTI Neonatal.

Naquela noite, tive uma convulsão na UTI. Acordei, no outro dia, assustada, sem saber o que havia acontecido. As enfermeiras até brincaram comigo, dizendo que eu havia dado um show na madrugada. Lembro de ver minhas unhas das mãos cheias de sangue, e perguntei o que havia acontecido; elas disseram que, na crise de convulsão, arranquei o cateter que havia sido colocado por causa das sessões de hemodiálise, e elas precisaram, na madrugada, até lavar o meu cabelo, pois havia muito sangue.

Mais uma vez, a intervenção de Deus aconteceu na minha vida.

Nos momentos de lucidez, lembro que estava rezando o terço e vi um pendurado no meu leito. Perguntei à enfermeira quem havia deixado lá, e ela disse que não havia nenhum terço pendurado ali. Percebi, então, um grande sinal da presença de Nossa Senhora comigo.

Eu tinha muita dificuldade para rezar a Ave-Maria e o Pai-Nosso, mas rezava com muita fé: Jesus, eu confio em vós!

Graças a Deus, consegui me recuperar e sair da UTI, mas, durante todo esse tempo que vivi no hospital, lutando pela vida, pensava no meu filho, meu esposo e na minha família, que aguardavam minha recuperação. Pensei, em alguns momentos, em desistir de viver, mas Deus me dava forças para continuar lutando pela minha recuperação.

Lembro, com emoção, o primeiro dia que consegui ver o André na UTI. Foi às vésperas do Dia das Mães. Aquele momento ficou gravado em meu coração, e também o dia que peguei ele no colo pela primeira vez. Um sentimento único em minha vida.

cancaonova.com: Qual foi a experiência de ter alta, mas o André ainda permanecer na UTI Neonatal?

Elisangela Brene: Vivi uma experiência muito dolorosa, até mesmo porque ele nasceu muito prematuro, com apenas 26 semanas de gestação, e ainda não estava formado. Também havia a possibilidade de ele ter várias complicações a qualquer momento.

Todos os dias que íamos ao hospital, para visitá-lo, chegávamos cedo para ficar na capela rezando. Rezávamos o terço na ida e na volta do hospital, além das nossas orações durante o dia e, principalmente, à noite. O Senhor nos dava muitas palavras de conforto e a esperança de que tudo acabaria bem.

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cancaonova.com: Após 76 dias na UTI Neonatal, por ter nascido prematuro, existia a possibilidade de haver sequelas? Como foi o processo de desenvolvimento do André?

Elisangela Brene: Havia sim a possibilidade de muitas sequelas, por isso foram feitos vários exames. Nós o levamos ao oftalmo, otorrino e neurologista; fizemos o exame do pezinho duas vezes e, em cada consulta, em cada resultado de exame, nós experimentávamos a manifestação da Glória de Deus na vida do André. Sem nenhum resultado negativo, sem nenhuma sequela.

cancaonova.com: Depois dessa 1º gestação conturbada e o aparecimento da eclâmpsia, o que levou vocês a tentarem engravidar novamente?

Elisangela Brene: Com a situação da eclâmpsia e eu ainda no hospital, perguntei para a médica se poderia ter mais filhos. Eu me recordo que ela disse: “Não é a hora de pensar em outra gestação nesse momento”. Passaram-se dois anos. Ao retomar o assunto com a médica, fomos encaminhados a vários especialistas, e eles nos disseram que não haveria nenhum problema, pois a eclâmpsia acontece somente uma vez.

Depois de todos os exames e opiniões médicas, decidimos engravidar novamente.

cancaonova.com: Quais foram as indicações e as recomendações médicas durante toda a gestação?

Elisangela Brene: O cuidado foi intenso com exames, aferição de pressão diariamente e controle bem de perto devido à gravidade que foi a primeira gestação.

cancaonova.com: Como foi a gestação do segundo filho? Teve complicações?

Elisangela Brene: A gestação da Maria Júlia, nome que escolhi para o meu segundo filho, começou a apresentar sinais preocupantes nos ultrassons com doppler, pois começaram a aparecer incisuras na artéria do útero. Essas incisuras precisaram ser acompanhadas, pois identificava o risco de problemas com a pressão arterial na gravidez.

Com 32 semanas de gestação, foi preciso realizar o parto da pequena Maria Júlia, pois minha pressão foi para 16/12, e a médica achou melhor não arriscar devido ao quadro de eclâmpsia que apresentei na primeira gestação. A Maria Júlia estava bem abaixo do peso, somente com 1,300 kg; logo, precisaria de cuidados especiais e ficaria na UTI Neonatal somente para ganhar peso.

cancaonova.com: Novamente, você e seu esposo estavam vivendo a experiência de sair da maternidade e deixar sua filha na UTI Neonatal. Como foi a experiência vivida nessa segunda passagem pela UTI?

Elisangela Brene: Eu ficava pensando e não conseguia acreditar que isso estava acontecendo novamente; mais uma vez, os sonhos foram por água abaixo, porque imaginava viver completamente o contrário, e desejava sair do hospital com minha filha nos braços e pode amamentar, mas precisei passar por essa via dolorosa novamente.

cancaonova.com: Quais foram as complicações que a Maria Júlia teve na UTI Neonatal? Como foi receber a notícia de que precisava se despedir da sua filha?

Elisangela Brene: Depois de 13 dias que a Maria Júlia havia nascido e estava se desenvolvendo muito bem, ela acabou pegando uma infecção.

Quando foi 2h30 da madrugada, a médica ligou, dizendo que havia uma intercorrência e eles estavam, desde as 22h, tentando estabilizar a Maria Júlia, mas não estavam tendo progresso nos procedimentos. Segundo ela, naquele momento, não havia mais o que fazer, e era importante a gente ir para o hospital.

Naquela hora, entendemos que deveríamos nos despedir da nossa pequena, mas, com confiança em Deus, fomos rezando até chegar ao hospital, e pedíamos: “Vinde Deus em nosso auxílio, socorrei-nos sem demora”.

Chegando ao hospital, com o coração aflito, fomos até a médica. A informação que recebemos é que ela havia se precipitado, pois eles conseguiram estabilizá-la; a partir dali, iriam fazer os exames para descobrir o que estava acontecendo.

Depois desse ocorrido, como cristãos, resolvemos batizar a Maria Júlia na UTI Neonatal, porque, de acordo a Igreja, em caso de morte iminente, pode-se realizar o batismo. Então, o Roger pegou um copo com água e batizou a Maria Júlia.

Sabemos que quem se precipitou foi Deus e nos livrou desse momento de morte. Meu maior medo, naquele dia, não foi perder a minha filha, mas sim minha fé, pois, se perdesse a fé, tudo estaria perdido, e nada mais faria nenhum sentido na minha vida.

cancaonova.com: A Maria Júlia ficou com alguma sequela após permanecer internada 42 dias?

Elisangela Brene: A Maria Júlia é uma criança considerada normal, pois é uma menina alegre e sapeca. O desenvolvimento dela acontece normalmente, graças a Deus! A única coisa é que ela precisa fazer acompanhamento com a fonoaudióloga, porque ficou com dificuldade na fala. Mas, diante de tudo o que aconteceu, isso é um obstáculo que vamos vencendo a cada dia com tratamentos e orações.

cancaonova.com: Como é para você e seu esposo verem que venceram esses obstáculos e ver seus filhos bem e saudáveis?

Elisangela Brene: Eu sempre fico emocionada quando olho para os meus filhos, pois consigo contemplar os milagres de Deus. Como pais, sempre temos nossas lutas, mas a alegria supera todo sofrimento e dor. Lembrar do passado nem sempre é fácil, pois a ferida e a cicatriz estão sempre ali, mas sabemos em quem colocamos a nossa confiança.

Deus não faz o milagre pela metade!

Mãe de UTI Neonatal

Rezemos por essas mães que, assim como a Elisangela, deixaram a maternidade sem seus filhos nos braços, mas que aguardam ansiosas por este dia.

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