Virtude da Temperança

Vamos refletir sobre a quarta virtude cardeal, que é a temperança

Como alcançar a virtude da temperança no dia a dia

Nessa semana, vamos tratar da quarta virtude cardeal, a temperança. Trata-se de uma virtude moral sobrenatural, que modera a atração para o prazer sensível, sobretudo para os prazeres do gosto e do tato, e o contém nos limites da honestidade.

O seu objetivo é moderar todo prazer sensível, sobretudo o que anda anexo às duas grandes funções da vida orgânica: o comer e beber, que conservam a vida do indivíduo, e os atos que tem por fim a conservação da espécie. E, precisamente, porque o prazer é atraente e nos arrasta facilmente para além dos justos limites, a temperança leva-nos à mortificação, ainda mesmo em certas coisas permitidas, a fim de que a razão prevaleça sobre a paixão.

Vamos refletir sobre a quarta virtude cardeal que é a temperança

Foto Ilustrativa: Kontrec / by Getty Images

A gula é um mal

A gula é o amor desordenado dos prazeres da mesa, da bebida ou da comida. A desordem consiste em procurar o prazer do alimento, por si mesmo, considerando-o explícita ou implicitamente como um fim. Ou em procurar com excesso, sem respeitar as regras que dita a sobriedade, algumas vezes, até com prejuízo da saúde.

Existem quatro modos de queda pela gula:

O primeiro seria comer antes de sentir necessidade, fora das horas marcadas para as refeições, e isso sem motivo legítimo, só para satisfazer a vontade de comer, que é diferente da fome.

O segundo modo é buscar iguarias esquisitas ou preparadas com demasiado apuro, para gozar delas. É um modo de comer sem necessidade, para satisfazer o prazer, ou até mesmo um vício.

A terceira forma de pecado pela gula é ultrapassar os limites do apetite ou da necessidade, enfartar-se de comida ou bebida com risco de arruinar a saúde.

Por fim, o quarto modo seria o de comer com avidez, com sofreguidão, quase sem mastigar, com tanta rapidez, que o corpo não tem tempo de indicar a saciedade, somente pelo prazer de estar comendo.

Quais os males da gula?

Para determinar com precisão os males da gula importa fazer uma distinção.

A) A gula é falta grave​: quando resulta em excessos, tais que nos torna incapazes, por longo tempo, de cumprir os nossos deveres de estado ou obedecer as leis divinas ou eclesiásticas; por exemplo, quando prejudica a saúde, quando dá origem a despesas loucas, que põem em risco os interesses da família, quando leva a faltar as leis da abstinência ou do jejum.

Pode ser grave também quando ela abre portas de intemperanças, tais como a incontinência dos olhos e dos ouvidos, que criam o interesse em notícias pecaminosas; incontinência nos pensamentos, que busca prazeres nas recordações maliciosas; e quando cria maus pensamentos eróticos, leva o coração a aspirar afeições carnais, que arrastam a vontade em busca de prazeres nos sentidos.

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A intemperança da mesa leva à intemperança da língua: comentamos os segredos que havíamos prometido guardar, morais, profissionais, onde expomos colegas, amigos, familiares à maledicência.

Quando a gula abre as portas para as faltas contra a justiça e a caridade: maledicência, calúnia, detração que se comenta com uma liberdade maligna;

E quando gera faltas contra a prudência: tomam-se compromissos que não serão possíveis guardar sem ofender as leis morais.

B) A gula não passa de falta venial, quando alguém come demais, mas sem cair em excessos graves, sem se expor a infringir qualquer preceito importante.

C) Sob o aspecto da perfeição, a gula é um obstáculo sério: deixa-nos moles para fazer mortificações, cedendo aos prazeres carnais, os quais, pouco a pouco, vão nos conduzir aos prazeres de pecado grave; no beber excessivo, leva-nos à dissipação, alegria excessiva, brincadeiras de mau gosto, falta de recato e modéstia, abrindo assim a alma à ação do demônio.

Como vencer a gula?

Para lutar contra a gula é preciso ter, no coração, que o prazer não é o fim, senão um meio, e, sendo assim, deve ser subordinado à reta razão iluminada pela .

Com intenção reta e sobrenatural, que nos faz perceber que não fomos feitos para nos lançar por sobre os alimentos como um animal, irracionalmente, mas sim com humildade, percebendo que em nosso estado decaído e miserável, não seríamos dignos de ter o pão de cada dia, mas, ainda assim, o Senhor nos ajuda. Que nos alimentemos para dar glórias a Deus e para nos pormos a trabalho.

Com esta pureza de intenção, poderemos guardar a sobriedade ou a justa medida. Se comemos somente para cumprir nossos deveres de estado, vamos evitar assim todo o excesso que pode nos prejudicar a saúde. Se comemos para viver, comamos então para sadiamente viver. Devemos nos levantar da mesa com a sensação de leveza e vigor, seguindo sempre as orientações médicas particulares.

Ao buscar a sobriedade, temos mais força para as práticas de mortificação, pois estas nos ajudam a desembaraçar o espírito da servidão dos sentidos, dando-lhes mais liberdade para a oração e para o estudo, e evitam-se muitas tentações perigosas.

Outra excelente prática é a de fazer pequenas mortificações em cada refeição, abstendo-se de comer algo apetitoso ou forçando-se a comer algo que não goste. As almas boas animam essas mortificações com um motivo de caridade. Deixam um pouquinho para os pobres, sempre o mais apetitoso e, por conseguinte, para Jesus, que vive nos pobres.

Entre as mortificações mais úteis, ressaltamos a que se referem às bebidas alcoólicas. Em si, o uso moderado do álcool ou dos licores espirituosos (vinho, bebidas alcoólicas à base de frutas) não é pecaminoso. Abster-se dessas bebidas, por espírito de mortificação ou para dar bom exemplo é indubitavelmente digníssimo de elogio. Por isso, muitos que são exemplos de espiritualidade deixam de usá-los para levar outros a não usar álcool também.

Há casos em que é preciso a abstinência devido à propensão hereditária, como também os casos de alcoolismo inveterados.

Nossa jornada ainda não acabou. Temos outras virtudes ligadas à temperança, que vamos tratar uma a uma.

Até semana que vem!


Roger de Carvalho

Roger de Carvalho, natural de Brasília – DF, é membro da Comunidade Canção Nova desde o ano 2000. Casado com Elisangela Brene e pai de dois filhos. É estudante de Teologia e Filosofia.
Autor do blog “Ad Veritaten“.

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