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Quais as partes de uma oração?

Vimos, no artigo anterior, que rezar é uma necessidade para a alma tão grande quanto é necessário para o corpo respirar ou se alimentar. Engana-se, tremendamente, quem acredita que pode se manter espiritualmente saudável e perseverante na fé sem se dedicar à oração, tanto como, uma pessoa que tem uma doença silenciosa em evolução acredita que goza de perfeita saúde.

Como é a alma quem contém o corpo, e como, além disso, a alma sobrevive sem o corpo, não o contrário, Santo Tomás dizia que “bem sabe viver aquele que sabe rezar bem”. E se já vimos em outro artigo quais são as quatro condições para que a oração seja sempre atendida por Deus, cabem aqui outras perguntas: Quais as partes que devem compor minhas orações? Existe um roteiro para uma oração completa?

Antes de responder essas perguntas, preciso deixar claro que não se trata de buscar moldes para engessar a oração. Nem tampouco motivos para se penitenciar por não haver feito uma oração “perfeita”, muito menos se ensoberbecer por “ter feito tudo certinho”. O objetivo dessas reflexões sobre a oração é que, aprofundando o verdadeiro sentido do que é rezar, do como rezar e buscando compreender os que os santos e doutores orientaram sobre o assunto, possamos crescer em intimidade com Deus (o grande sentido da oração) e nos entregar, cada vez melhor, a essa obra que, como vimos, é a maior e a melhor que podemos realizar para (e com) Deus.

Quais as partes de uma oração?

Foto ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

A oração é uniforme?

O monge João Cassiano, ao entrevistar os padres do deserto, no século V, em busca de orientações espirituais, ouviu da boca do Abade Isaac que “as orações se modificam a todo instante, segundo o grau de pureza a que cada alma ascende e segundo a natureza da disposição em que cada uma se encontra. (…) Por isso, é absolutamente certo que a ninguém é possível fazer sempre orações uniformes: rezamos de um modo quando estamos alegres; de outro, quando somos oprimidos pelo peso da tristeza ou do desespero; de outro, quando nos sentimos fortes com os êxitos espirituais; de outro, quando estamos deprimidos pela violência das tentações; de outro, quando pedimos o perdão dos pecados; de outro quando pedimos a aquisição de uma graça ou de alguma virtude ou mesmo a extinção de qualquer vício; de outro…” E segue mostrando as múltiplas situações que afetam a nossa oração.

É claro que mesmo algo tão vivo quanto a oração pode ser estudado e pedagogicamente descrito. Foi isso que fez Santo Tomás de Aquino em dois momentos. Primeiro, determinando que, para o ato de rezar, são necessários três requisitos:

  1. Aquele que reza se aproxima de Deus! A oração é um ato de intimidade como vimos no primeiro artigo desta série. Mais para frente, nos artigos futuros, discutiremos a qualidade desta aproximação: Deus me ouve se estou distraído? E se estou em pecado? Isso porque existem maneiras e maneiras de se aproximar de alguém e de ser digno, ou não, de estar em sua presença.
  2. Que se faça um pedido! Embora ainda não tenhamos tratado, neste artigo, de qual é o melhor pedido para se fazer quando se reza, é interessante notar que Santo Tomás se preocupada em nomear, especificamente, cada tipo de pedido. Assim, se peço algo determinado, sabendo, exatamente, o que quero, esse pedido é uma postulação. Se não é determinado, mas um pedido de ajuda ou socorro a Deus em geral, é uma súplica, e, finalmente, chama-se insinuação quando procuro narrar algo que provoque ou ocasione uma reação por parte de Deus. Neste caso, o melhor exemplo é a mensagem que Cristo recebe sobre seu amigo Lázaro de Bethânia: “Senhor, aquele que tu amas está doente” (Jo 11,3).
  3. Que se dê razões para o pedido! Essas razões, segundo Santo Tomás, muito além das justificativas que conhecemos para o que pedimos, têm duas formas essenciais: Da parte de Deus, ou, melhor dizendo, qual a razão para pedir a Deus? E a razão só pode ser Sua santidade e misericórdia sem limites, retratados em trechos primorosos da Bíblia como: “Senhor, a quem iríamos nós? Só tu tens palavras de vida eterna. E nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69). A razão da parte do ser humano é a ação de graças pela qual reconhecemos que tudo está sob a tutela e providência de Deus. Em outras palavras, a razão por que rezo é porque sei que serei ouvido e minha alma se rejubila com isso.

Partes internas da oração

Em um segundo momento, Santo Tomás trata das partes internas da oração e, para isso, recorre à autoridade de São Paulo Apóstolo que diz a Timóteo: “Recomendo-te, pois, antes de tudo, que se façam obsecrações, promessas, súplicas e ações de graças” (1Tm 2,1). Assim como os padres do deserto, nas conferências de João Cassiano, e Santo Agostinho, o doutor angélico também entende que São Paulo nomeia quatro partes distintas na oração: obsecrações, promessas, súplicas e ações de graças! Não se trata de redundância de palavras, mas de ações distintas e complementares.

Faço uma ressalva que uma consulta a diversas traduções da Bíblia resulta em alguns nomes similares para os três primeiros como súplicas, orações e intercessões. Por isso, vamos utilizar as palavras em paralelo para não perder as proposições originais do Abade Isaac (através de João Cassiano) e de Santo Tomás de Aquino.

Primeira parte

A primeira parte da oração deveria ser dedicada à obsecração ou súplica. Obsecrar é implorar a Deus ou fazer uma petição de socorro pelos pecados cometidos, quer passados, quer presentes. Como vimos acima, súplica tem essa mesma conotação de pedido de socorro, mas sendo genérica, não reflete bem o que é esse implorar perdão a Deus pelos pecados cometidos que a palavra obsecração traz tão claramente. Segundo o apóstolo, os santos padres e o doutor da Igreja, deveríamos começar nossa oração pedindo a Deus misericórdia, porque somos pecadores.

Segunda parte

A segunda parte será uma promessa ou oração como trazem algumas traduções. Promessa, porque, logo depois de reconhecermo-nos pecadores, precisamos prometer abandonar o pecado e fazer um voto de servir a Deus. Prometer abandonar tudo que, no mundo, nos afasta de Deus e nos impede de viver em sua intimidade e avançar nas virtudes. Neste sentido, é que o Salmo (115,14) diz: “Cumprirei os meus votos ao Senhor” e Eclesiastes (5,3) recomenda: “Quando fizeres um voto a Deus, cumpre-o sem demora!”. Neste caso, Santo Tomás lembra que podemos chamar oração tanto as quatro partes juntas quanto somente esta parte. No caso desse trecho, oração seria somente a elevação da mente a Deus. Considero, no entanto, a tradução dos santos padres por promessa mais completa para um entendimento integral e exclui a duplicidade do termo oração.

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Terceira parte

A terceira parte, súplicas ou intercessões, é o momento onde pedimos também pelos outros. Mais à frente, o próprio São Paulo irá reforçar isso orientando que a oração seja “por todos os homens, pelos reis e por todos os constituídos de autoridade” (1Tim 2,1b-2). Esse é um detalhe importante, frequentemente negligenciado: somos um corpo, não somos sozinhos. Estamos unidos a Cristo e aos irmãos, somos Igreja. Quanto mais nos santificamos, mais a Igreja se santifica. Também quanto mais a Igreja se santifica, maiores são as graças sobre nós. Os santos reforçaram isso com argumentos bem simples sobre a oração dominical: não rezamos Pai meu, mas Pai Nosso! Pedimos o pão nosso, que não nos deixe cair em tentação. Por isso, as duas traduções se complementam: é, sim, súplica, mas é também intercessão, pois não é somente por quem reza que se suplica, é por todo o corpo místico da Igreja.

Finalizando a oração, em sua quarta parte, temos as ações de graças! É preciso agradecer a Deus todos os dons recebidos quando rezamos. Reconhecer os benefícios atuais e passados, agradecer pelas promessas futuras com alegria e dilatação do coração. Segundo Santo Tomás, citando a oração de coleta na liturgia da Missa, “damos graças aos benefícios recebidos, porque ‘dando graças pelos benefícios recebidos, merecemos receber ainda maiores’”.

Crescimento espiritual

Essas quatro partes da oração são retomadas em outro texto do próprio São Paulo (Fl 4,6) onde ele diz: “Mas em toda a promessa e obsecração apresentai a Deus os vossos pedidos com ação de graças” ou, na mesma passagem, em outra tradução: “Apresentai a Deus os vossos pedidos, em orações e súplicas, acompanhadas de ação de graças”.

Enriquece também a nossa compreensão da vida espiritual a observação do Abade Isaac a João Cassiano: essa trajetória das quatro partes da oração também acaba representando fielmente as fases do crescimento espiritual. A perspicácia do padre do deserto vê que os principiantes passam a maior parte do tempo em sua oração implorando a Deus para vencer seus pecados. Os espinhos das tentações e os vícios, ou suas lembranças, estão por demais presentes em sua vida.

Aqueles que já avançaram um pouco na vida espiritual, já começaram a desenvolver as virtudes com solidez e começam a progredir. Esses, naturalmente, acabam se detendo mais na segunda parte da oração: a promessa, os votos ou a busca das virtudes. Os que já estão avançados, são aqueles que não mais são atormentados pelos pecados no presente e, por isso, relembram brevemente os do passado, já tem virtudes sólidas e, desse modo, já cumprem os que se propõe e respeitam os votos que fizeram e, assim, têm determinação para pedir também pelos outros, detendo-se mais na terceira parte da oração. Por último, os que já têm o coração apaziguados e purificados pela contemplação de Deus enxergam, claramente, os benefícios constantemente recebidos e, assim, vivem em ação de graças, passando por todas as partes da oração num ato contínuo de agradecimento.

Sintetizando, poderíamos dizer que uma oração completa, segundo São Paulo e Santo Tomás de Aquino, seria aquela que, consciente de nossos pecados, desejando vencê-los e fazendo planos e promessas de mudanças a Deus, suplicamos por nós e pelos outros enquanto já agradecemos os benefícios recebidos, na certeza de que eles se multiplicarão pelas misericórdias do Senhor.

Na próxima semana, refletiremos se, como vimos que a oração é um ato de intimidade com Deus, é realmente adequado rezar também para os santos? Até lá, o que você pensa sobre essa questão?


Flávio Crepaldi

Flavio Crepaldi é teólogo, casado e pai de três filhas. Além do bacharelado em Teologia, possui formação em Comunicação e especialização em Gestão, sendo colaborador da TV Canção Nova desde 2006. É o autor do livro “Santidade para todos: Descobrindo as Moradas Interiores”, em que, de maneira prática e descomplicada, ele explica o caminho espiritual pela busca da santidade.

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