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Afinal, o que é a oração?

Dentre as várias passagens nos Evangelhos que recomendam a oração, podemos citar duas, a título de exemplo. Lucas 18,1 diz: “É preciso rezar sempre e nunca deixar de fazê-lo”; e Mateus 26,41 recomenda: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação”. Esta última, foi dita no contexto da advertência de Jesus aos Seus apóstolos que dormiam, enquanto ele suava sangue na dura batalha interior de Sua Paixão que se iniciava.

Se, por um lado, a recomendação é forte e constante, por outro, parece trazer embutida a certeza de que todos sabem o que é rezar, orar ou se colocar em oração. A prática, no entanto, demonstra muitas pessoas perdidas sobre o que é a oração. Podemos dizer que, como os discípulos, muitos estão adormecidos.

Afinal, o que é a oração

Foto Ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

Afinal de contas, o que é oração?

A primeira e mais simples resposta que encontramos, inclusive na Bíblia, é que a oração seria um pedido para Deus. Isso tem respaldo até mesmo em relação a Jesus, que diz “pedirei a meu pai” (Jo 14,16) e ao Espírito Santo, que vem em nosso auxílio, pois “não sabemos o que devemos pedir” (Rm 8,26).

A oração seria, então, um pedido a Deus motivado por nossos desejos. Seguindo esse princípio, poderíamos dizer que o desejo de algo nos motiva a rezar e, inversamente, na ausência de um desejo ou vontade, não é possível rezar. A oração seria, portanto, um pedido motivado pela nossa vontade. Será mesmo?

Argumenta-se ainda, para justificar essa definição, com a experiência comum que impele muitos a dizer que “não tem vontade de rezar”, que “perdeu a vontade de rezar” ou, não acredita no poder da oração, pois seus pedidos-vontades não foram atendidos por Deus. Segundo essa visão, a oração não passa de um pedir algo que se deseja a Deus, quando se precisa ou se tem vontade de fazê-lo.

O que é pedir a Deus?

Tão perto, no entanto, tão longe. Santo Tomás de Aquino nos lembra de duas verdades importantes sobre “pedidos”: 1. Se pedimos algo a alguém, só pedimos se considerarmos essa pessoa, de alguma maneira, superior ou mais capaz de realizar o que se pede do que nós mesmos. 2. Para pedir, precisamos nos aproximar de alguma maneira de quem pedimos, caso contrário, não somos nem ouvidos, muito menos atendidos.

Baseado nisso, entende-se que a oração é, em primeiro lugar, um aproximar-se de Deus. Se ele fosse material, chegaríamos perto fisicamente, mas como é puro Espírito, a oração é a maneira de nos aproximarmos espiritualmente d’Ele. São Dionísio sintetiza isso dizendo que “quando invocamos a Deus na oração, a Ele estamos presentes com o espírito descoberto”. Aproximo-me e, assim, vejo e também me deixo ver.

Claro que não podemos realizar isso sozinhos, então, o pedido-invocação é sim uma característica da oração. Só que o primeiro pedido-oração a Deus deveria ser sempre o de que possamos nos aproximar d’Ele, de que Ele permita que estejamos em comunhão espírito com espírito ou, como tão extraordinariamente revela o Salmo: “uma só coisa peço ao Senhor, e a peço insistentemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida” (Sl 26,4). Isto é, que eu possa me unir contigo, Senhor, e permanecer nessa união indefinidamente. Fato que precisa se realizar, hoje, e todos os dias da minha vida, como um treinamento para aquilo que, se Deus quiser, será realizado por todos os dias da eternidade. Uma vida eterna em união íntima com Deus.

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Como rezar?

Também precisamos lembrar que ninguém pede algo se antes não pensar nesse algo. O pedido passa, necessariamente, pela razão. A oração é, deste modo, e antes de mais nada, um ato intelectual não da vontade. Não se deseja, não se pede aquilo que não se pensa. São João Damasceno diz, por isso, que “a oração é a ascensão do intelecto para Deus”. E, sendo um ato intelectual ou motivado pela razão, fica claro, porque, quando o afeto não é movido, não existe a vontade de rezar.

Vamos a um exemplo: é um fato intelectualmente conhecido que existem milhares de acidentes de trânsito diariamente. Um deles só passa a me afetar e a me interessar particularmente quando alguém que conheço está envolvido, seja no próprio acidente, seja por meio de um familiar. Da razão conhecida intelectualmente, passa a atuar também o meu afeto ou vontade na situação. Caso contrário, o fato em si seria-me totalmente indiferente, um mero conhecimento intelectual. Do mesmo modo, se a oração não é própria da vontade, ela, naturalmente e por si só, não deve gerar vontade ou falta de vontade. A oração não rege e também não necessita da vontade. Tem-se a vontade ou não, quando se antevê uma vantagem na oração ou se já se recebeu um benefício ao rezar.

Parece ser uma discussão puramente teórica, mas entenda a partir disso, porque, na prática, às vezes (ou regularmente) não se tem vontade de rezar: seria como ter vontade de que dois mais dois dessem quatro, ou que a soma dos quadrados dos catetos do triângulo retângulo fossem iguais ao valor do quadrado de sua hipotenusa! Ninguém sente vontade de que o teorema de Pitágoras esteja certo. E, inversamente, não é a minha vontade de que esteja certo ou errado que o faz ser menos verdade. Pode-se dizer, pelo contrário, que o normal é não ter mesmo nenhuma vontade sobre as questões regidas pela razão. Pode-se, também, questionar que a oração “com vontade” vem sempre motivada por algo além do que o puro e necessário contato com Deus, o reconhecimento que Ele é a fonte, a razão e a meta de nossa existência.

Converse com Deus e se aproxime d’Ele

Na definição de Santo Tomás, portanto, a oração é a elevação da mente a Deus, em primeiro lugar para nos aproximar d’Ele, depois para reconhecê-Lo como Deus e, imediatamente, para louvá-Lo. Mas também para pedir coisas necessárias à nossa eterna salvação.

Embora esteja respondida a pergunta que motivou este artigo, sobre o que seria a oração, certamente outras perguntas agora surjam: se não é necessário ter vontade de rezar, por que rezar? O que são coisas necessárias para a salvação? E as outras “coisas” de que necessito e peço? Não são oração, não posso pedir a Deus?

Essas e outras perguntas buscaremos responder nos próximos artigos nesta série sobre a Oração. Por hora, pense nisso: se a oração é uma elevação da mente a Deus, temos ocupado parte da nossa vida nisso? Ou nossa cabeça vive ocupada com as coisas da Terra, rasteira no dia a dia, cheia das coisas que passam? Vivemos pensando em quê?


Flávio Crepaldi

Flavio Crepaldi é teólogo, casado e pai de três filhas. Além do bacharelado em Teologia, possui formação em Comunicação e especialização em Gestão, sendo colaborador da TV Canção Nova desde 2006. É o autor do livro “Santidade para todos: Descobrindo as Moradas Interiores”, em que, de maneira prática e descomplicada, ele explica o caminho espiritual pela busca da santidade.

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