como assim?!

Nós somos irmãos de anjos?

“E Disse Rafael: sou um dos israelitas teus irmãos e vim procurar trabalho” (Tb 5,4-5). Disfarçado de um simples viajante, o grande Arcanjo Rafael apresentou-se na soleira da casa de Tobit em um momento de profunda angústia e sofrimento. Ele apresenta-se como um dos irmãos israelitas, identificando-se como membro do povo de Israel. A saga da viagem começou. Um anjo e um homem caminham juntos em busca do cumprimento da promessa e vontade de Deus na vida do velho Tobit. Por que os anjos se relacionam conosco? Quem são eles? E por que, ao longo da história da salvação, eles estão presentes?

Hoje, iniciamos uma série sobre esses seres maravilhosos e enviados diretamente da presença do Senhor do Céu e da Terra para proteger-nos e conduzir-nos ao longo do caminho.

A palavra “anjo” vem do latim angelus e, por sua vez, do grego: ἄγγελος (ángelos), que significa, na sua etimologia, mensageiro ou porta-voz. A existência dos anjos constitui-se para nós uma verdade de fé, isto é, faz parte do patrimônio doutrinal da nossa Igreja1.

Nós somos irmãos de anjos?

Foto ilustrativa: querbeet by Getty Images

Relação com os anjos de Deus

Naturalmente, todo católico acredita na existência desses seres celestiais e de natureza espiritual; muitas vezes, porém, temos a dificuldade de nos relacionar com eles e, até mesmo, de nos lembrar da sua presença sempre solicita a nos cuidar e proteger. Mesmo sendo infinitamente mais perfeitos de toda criatura carnal2, os anjos não estão longe de nós. Ao contrário, ao criá-los, o Senhor os colocou não somente a nosso serviço, mas também em comunhão conosco3.

À luz do mistério da revelação divina, os anjos ocupam um lugar singular na própria criação e na história da salvação. Se, por um lado, eles possuem a missão de anunciadores e de enviados do Altíssimo, por outro lado, eles devem ser entendidos como seres pessoais, dotados de vontade e de liberdade. Sendo assim, podemos, então, entrar em relação com eles, à luz da dimensão da comunhão dos santos, que, na verdade nos faz, mesmo sendo peregrinos nesta terra e neste vale de lágrimas, cidadãos do céu4.

A existência dos anjos em nossa vida é, para nós, a prova do zelo e do cuidado de Deus que, sabendo desta nossa peregrinação terrestre neste mundo, assiste-nos com a Sua graça. Os anjos foram os primeiros seres criados por Deus. Chamados a adorar e a contemplar as maravilhas de Deus, os anjos do Senhor têm, em sua adoração, como
centro, o próprio Filho, que por sua vez é o Cordeiro Imolado.

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A sociedade de anjos e homens

Criado por Ele e para Ele (Cl1,16), regozijam-se em viver a serviço de seu Criador. Serviço, aqui, temos que entender que não se trata de um mero trabalho, mas de uma adoração prática. Assim como Deus é concreto em Seu amor, assim também a adoração dos anjos se constitui uma realidade viva, que se derrama ao serviço do outro.

Dessa forma, os anjos de Deus se alegram em poder servir aquela criatura pequena e inferior a eles, isto é, os homens. Uma vez que o homem é imagem e semelhança de Deus, esses seres espirituais se sentem honrados em poder servir a tão frágil criatura, uma vez que este, ao ser criado, foi, desde o princípio, orientado a ser imagem da Imagem, isto é, parecidos com o Filho feito Homem5.

Quando a segunda Pessoa da Santíssima Trindade se encarnou, Ele trouxe a realidade do Céu consigo. Mesmo depois da queda de Adão e da sua separação do seu Criador, Cristo, ao recapitular todas as coisas em si, faz que não exista mais distância entre Céu e Terra, e, assim sendo, entre homens e anjos. Logo, a família celeste se torna uma com a família terrena. E como dirá São Tomás de Aquino o grande doutor angélico:

“Existe uma só sociedade: a de Anjos e Homens”6.

Irmãos de anjos

Agora, portanto, entendemos por que o arcanjo, respondendo a Tobias sobre a sua identidade, diz que é um de seus irmãos. Por que isso? Porque os anjos se identificam com cada um de nós e se sentem parte da nossa vida. Eles podem viver conosco, mesmo sendo seres espirituais, porque participam da vida divina. Ora, a quem eles adoram e a
quem prestam culto? Ao mesmo Deus que você e eu adoramos, louvamos por todas as Suas maravilhas.

Por conseguinte, é em Deus que nos encontramos. A nossa vida está orientada para o centro, que é o Cordeiro na Jerusalém celeste, ou seja, o paraíso. Não é por acaso que o autor do livro do Apocalipse vê que a cidade santa é habitada por homens e anjos e, ao centro desta, está entronizado o Cordeiro Imolado. Em um coro único, os anjos de Deus o louvam pela salvação dada aos homens pela vida imolada. Eles, alegres, cantam para sempre:

“Digno é o Cordeiro Imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra a glória e o louvor.” (Ap 5,11-12)

Termino evidenciando que o anjo de Deus tem como centro de sua adoração Aquele que assumiu a nossa vida humana. Eles O adoram por tão grande feito. Como família, eles se alegram pela nossa salvação. É por isso que Jesus dirá que no Céu se faz festa entre os anjos por um só pecador que se converte (Lc 15,10). Se você se sente um pecador que foi alcançado pela misericórdia, saiba que também és a alegria dos anjos de Deus. Sê irmão de anjos e cidadão do Céu. Assim, andarás neste vale de lágrimas com a certeza no coração: tens uma família no céu!

Referências:

1 CIC, 328
2 PSEUDO-DIONISIO, Hierarcha celeste, VII.
3 TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologica, Q 50, a.1.
4 CARTA A DIOGNETO, V.
5 Cfr. ATANASIO, Risposte a Talassio, LX, 621 AB, p. 90.
6 TOMÁS DE AQUINO, Super Evangelium S. Mattthaei, 18,10, Marietti, Roma 1951, 1504.


Rafael Brito

Rafael F. de Brito é missionário do Movimento Aliança de Misericórdia. Professor e pregador, ele é mestre e doutorando em Teologia Dogmática pela Universidade Gregoriana de Roma, e mestre e doutorando em filosofia pela Universidad Pontificia de SALAMANCA. Casado, Brito é, atualmente, residente em Roma, Itália.

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