1. A dor da ausência e a necessidade do perdão
A poesia de Carlos Drummond de Andrade e o impacto da perda
No encerramento do mês dedicado ao Setembro Amarelo, renova-se a reflexão sobre a prevenção do suicídio e os sentimentos daqueles que ficam. A poesia “A um Ausente”, de Carlos Drummond de Andrade, retrata com profundidade a saudade e a dor geradas pelo rompimento repentino da convivência. No poema, o autor expressa um misto de afeto e acusação diante do fim de um pacto implícito de viver, em que a partida antecipada viola as leis da amizade e da natureza. O ato definitivo priva os sobreviventes até mesmo do direito de indagar os motivos da partida, deixando uma lacuna irreparável na rotina e no afeto comum.
O perdão mútuo como caminho de cura
Diante de uma tragédia, torna-se essencial perdoar quem partiu, compreendendo que o sofrimento interno da pessoa era vasto demais para ser processado por ela mesma ou por quem estava ao redor. Da mesma forma, é indispensável praticar o autoperdão, libertando-se da culpa de não ter percebido os sinais ou de julgar não ter sido um bom pai, mãe ou amigo. O perdão é um ato de justiça e amor, pois a dimensão do ato ultrapassa a capacidade da culpa humana. Além disso, nos momentos de crise aguda, ocorre uma alteração emocional intensa na qual o indivíduo perde a consciência plena de seus sentimentos.
2. O sofrimento profundo e a sensação de abandono
O grito diante da solidão
A experiência do atendimento psicológico a um amigo sacerdote revela a beleza da divindade presente no ser humano, mas também a angústia dos momentos de isolamento absoluto. Quando a dor interna se torna insuportável, o grito surge como uma vazão física e emocional necessária para aquilo que o próprio corpo não consegue conter.
A dor do abandono divino e a falta de significado
Um dos episódios mais dolorosos da vida humana ocorre quando a pessoa vivencia a sensação de abandono por Deus. Conforme destacado no livro “Cura dos Sentimentos em Mim e no Mundo”, o neurocientista Bessel Van Der Kolk identificou que o sentimento de desamparo divino figura entre as maiores dores humanas, presente em episódios de traumas graves, acidentes e catástrofes. Esse estado gera um profundo vazio existencial, e a falta de significado para a vida se consolida como uma das maiores fontes de sofrimento.
3. O papel das amizades e a reconstrução do sentido
Os “amigos cabide” e o suporte nos momentos críticos
Cabe questionar se o abandono divino é um fato ou se é o cérebro — sob forte alteração neurobiológica — que perde a capacidade de sentir a presença de Deus. Nesses períodos de trevas, destaca-se o papel fundamental dos “amigos cabide”: pessoas que, com humildade, nos sustentam e nos carregam quando nos sentimos como um “corpo dilacerado”. São esses amigos genuínos que reconectam o indivíduo com a sua dimensão divina.
A sabedoria de Carl Jung: o divino no cotidiano
Na obra “O Livro Vermelho”, mantida em cofre em Zurique até 2012, o psiquiatra Carl Jung relatou como o espírito da profundeza o afastou da fé na ciência e na explicação puramente racional, forçando-o a se voltar para as coisas mais simples. Jung compreendeu que a divindade também se manifesta no cotidiano e nas coisas mínimas da alma humana.
4. Transcendência e a decisão por viver
A presença divina nos detalhes
A atenção aos detalhes revela a presença do Divino mesmo nos cenários mais difíceis. Essa percepção é exemplificada pelo florescimento paradoxal de orquídeas que, no momento em que pareciam prestes a morrer, mostravam-se ainda mais belas, atuando como um sinal silencioso da transcendência.
O abraço à dor e o sentido existencial
Ao atingir o próprio “nada” e o limite do sofrimento, o indivíduo é convidado a abraçar a dor de forma transcendente, associando-a ao abraço a Jesus abandonado. Nesse encontro com a essência, encontram-se as respostas para as perguntas fundamentais. Embora a mente humana não consiga abarcar a totalidade do mistério divino, é essa divindade que restaura a esperança e fundamenta a decisão diária de viver.