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Posso rezar para os santos ou somente para Deus?

O bom senso dos fiéis, assim como em qualquer catecismo básico ou por ter sido criado num ambiente de família católica, deve fornecer uma resposta direta à questão: “É lícito pedir a intercessão dos santos?”. É claro que sim!

No entanto, como temos feito nesta série sobre a oração, tão importante quanto saber a resposta correta é entender o porquê dela ser a correta e quais são as dúvidas próprias que surgem quando essa questão é levantada. Assim, pelo que vimos até agora, a oração deveria ser feita somente para Deus, pois, antes de mais nada, é aproximação com Ele. Se devemos nos aproximar d’Ele, nada mais lógico do que se dirigir ao nosso objetivo sem desvios. Porém, nem tão lógico assim, pois, temos os santos que são intercessores que nos ajudam a aproximarmos d’Ele.

Veja bem: nossos amigos e conhecidos podem nos indicar para realizar um trabalho, atestam nosso caráter numa situação difícil e até servem de ponte para soluções que não estão ao nosso alcance, do mesmo modo são os santos, pois, por já terem adquirido o prêmio da bem-aventurança eterna, estão numa situação privilegiada junto a Deus para nos ajudar.

Além disso, é importante entender que os santos no Céu não rezam mais por eles mesmos, mas podem constantemente pedir por nós, que também fazemos parte do corpo de Cristo, para que alcancemos a bem-aventurança final que eles já possuem. Eles rezam para que os homens de boa vontade se salvem e, desse modo, concretize-se a obra de Deus no mundo, do modo que Deus quer e dispõe por sua providência e que, como vimos nos artigos anteriores, só se cumprirá por meio da oração.

Posso rezar para os santos ou somente para Deus?

Foto ilustrativa: sedmak by Getty Images

Os santos tem uma união com o Verbo Divino

Eles também já possuem uma união com o Verbo Divino que, nós que ainda estamos neste mundo ou mesmo aqueles que se encontram no purgatório, ainda não a têm. E se nós ainda podemos rezar uns pelos outros, isso não acontece com aqueles que padecem no purgatório, pois, se por um lado os homens e mulheres que estão nessa condição são superiores a nós porque não pecam mais, por outro lado são inferiores justamente por causa da pena ou justa purificação que sofrem. Nesse caso, não podem orar por nós, somos nós quem precisamos rezar por eles para que logo cesse o padecimento deles e, justificados e santos, também passem a interceder por nós.

Desse modo, podemos dizer que é correto pedir de dois modos: pedindo para que a pessoa conceda por ela mesmo o que pedimos ou para que essa pessoa consiga de um outro o que necessitamos. Se esse pedido é feito por meio da oração, só a Deus devemos pedir diretamente graça e glória, dons que só Ele pode nos dar, como está revelado no Salmo (84,12). Mas podemos rezar pedindo muitas outras coisas, utilizando-se da intercessão da Virgem Maria, dos anjos e santos. Esse pedido, por meio de “outros”, não é porque Deus não pode conhecer o nosso pedido se não for feito por meio deles, mas para que, pelos seus méritos conquistados enquanto viviam, nossas orações sejam ainda mais eficazes. Afinal, as próprias escrituras dizem que as orações dos santos sobem a Deus como um verdadeiro perfume de incenso (Ap 8, 3b-4).

Seguindo essa verdade, a Igreja reza unida para que Deus nos conceda Sua misericórdia e que os anjos e santos intercedam constantemente por nós. Ou, como bem nos exorta a própria palavra de Deus por meio do livro de Jó: “A qual dos santos te voltarás?” (Jó 5,1b). De maneira idêntica à Tradição, por meio de São Jerônimo, recorda que: “Se os apóstolos e mártires, ainda no corpo, podiam orar pelos outros, quando ainda deviam preocupar-se por eles mesmos, quanto mais o poderão após coroados, vitoriosos e triunfantes!”

Uma dúvida pode surgir

Assim sendo, é claro que podemos (e devemos) pedir a intercessão dos santos. Mas diante do exposto que nossos pedidos são reforçados pelos próprios méritos dos santos, pode surgir a seguinte dúvida: “Devo pedir a oração somente dos mais santos? Devo me concentrar naqueles que são reconhecidos por serem apóstolos, papas, ou doutores da Igreja?”.

Num primeiro momento, poderíamos pensar que sim, porque é fato que quanto mais perfeita é a caridade do santo no Céu, mais ele reza pelos que estão na terra que podem ser auxiliados pela oração. Quanto maior sua caridade, mais unido a Deus ele está e, por consequência, mais será ouvida sua oração.

Só que a resposta é: não! Parte da beleza da criação e da providência de Deus é que ela é ordenada de maneira que os inferiores participem em graça e em sabedoria do que vivem os superiores. Isso porque a ordenação divina está estabelecida para que os superiores iluminem os inferiores, como demonstra a Carta de São Paulo ao se referir do primeiro de todos, o Cristo (Hb 7,25).

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Questão de hierarquia?

No caso dos santos, Deus quer que os inferiores sejam ajudados por todos os superiores, por isso, é conveniente orar a todos os santos, não importa o que achamos ou sabemos sobre sua “posição” no Céu. E, é claro, se fosse somente uma questão de hierarquia, voltaríamos às considerações iniciais e deveríamos pedir somente à misericórdia divina, ou seja, ao próprio Deus.

No entanto, Santo Tomás de Aquino lembra que, não é raro acontecer que o pedido que recebe a intercessão de um santo que seja considerado “menor”, seja mais eficaz do que a oração direcionada àquele considerado “maior”. Isso pode acontecer pois, o santo considerado “menor” ou “mais recente”, pode implorar a Deus com mais devoção, mais propriedade sobre a matéria ou, até mesmo, porque Deus quer fazer conhecida a santidade dele e seu valor como intercessor.

Assim, não percamos tempo, peçamos a Deus por Sua misericórdia, pela salvação que tem reservada para nós, por todas as graças necessárias para a Igreja e para aqueles que conhecemos, sem nos esquecermos de recorrermos aos santos e sua intercessão! E, como rezamos no ato de contrição durante a Missa: peçamos a Virgem Maria, aos anjos e santos e também aos nossos irmãos e irmãs que intercedam por nós junto a Deus Pai, que está nos Céus!

Na próxima semana, refletiremos sobre qual seria o pedido adequado a se fazer na oração. Afinal, são inúmeros aqueles que consideram que o momento de rezar é aquele reservado para se abrir o baú das necessidades e chorar a Deus em busca de realizações extraordinárias. Será? O que devemos pedir quando nos colocamos em oração?


Flávio Crepaldi

Flavio Crepaldi é casado e pai de 3 filhas. Especialista em Gestão Estratégica de Negócios, graduado em Produção Publicitária e com formação em Artes Cênicas. É colaborador na TV Canção Nova desde 2006 e atualmente cursa uma nova graduação em Teologia com ênfase em Doutrina Católica.

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