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Os cinco segredos para ser um cristão como Maria

Fiquei pensando se a mulher mais importante da história teria descoberto estes cinco segredos do amor. Desde o cristianismo nascente, ela é um símbolo, um ícone, uma figura exemplar, um território humano onde o céu uniu-se definitivamente com a terra. Ela é o endereço da salvação. É o lugar em que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”, na afirmação genial do Evangelho de João (1,14).

Os estudiosos de Maria concordam que o texto mais denso e detalhado sobre a Virgem de Nazaré é o capítulo 2 do Evangelho de Lucas. Essa página está escrita em milhares de histórias, poemas, pinturas e canções. Trata-se do encontro de Maria com o anjo Gabriel e, depois, o abraço em sua prima Isabel. Se prestarmos atenção aos passos deste poema, chegaremos à conclusão de que Maria digitou letra por letra os cinco códigos do amor. Vejamos:

Quais são os segredos da Virgem Maria?

1.Escuta com amor: a jovem estava em silêncio. Esta é a primeira palavra-chave: quietude. Sem essa predisposição, não existe escuta. Já vimos, de mil maneiras, que “amar é abrir”, e os ouvidos de Maria estavam bem abertos. Ela conseguiu ouvir uma voz do céu na metáfora do anjo Gabriel, mensageiro de uma Palavra do Pai. O céu se abriu e disse: “Alegra-te, cheia de Graça”. Essa Graça é o próprio Deus que se dá a Maria em forma de uma imensa alegria. O povo do interior costuma perguntar: “Qual é sua graça?” para significar “qual é seu nome?”. Nome é identidade, e a graça identifica o próprio Deus. Maria é agraciada com um dom do alto.

Créditos: Luis Echeverri Urrea / GettyImagens

Isso tudo acontece em uma simples casinha de Nazaré, diferentemente do solene anúncio a Zacarias, entre oferendas e incenso, no Templo de Jerusalém. Mas aquele sacerdote duvidou da voz de Gabriel. Por isso ficou mudo. Com Maria foi o contrário. Na simplicidade de um bairro de periferia, ela escutou com fé e em silêncio. Maria, em silêncio de fé, escuta. Zacarias fica em silêncio por sua pouca fé. Não escuta! Dois tipos de silêncio. Deus preferiu a simplicidade de Nazaré. Encontrou uma porta aberta na terra e fez dela a porta do céu. Pediu licença para entrar. E foi atentamente ouvido por aquela menina-moça. O silêncio atento foi o primeiro segredo do amor vivido por Maria.

Coração amoroso

2. Amar a Deus: o silêncio não basta. Escutar com amor também não é o suficiente. É preciso avançar para a “sintonia”. Maria ficou pensando no que o anjo havia lhe dito: “O Senhor está contigo”. Ficou pensativa e perplexa. A voz do céu mexeu com ela. Ela entrou em êxtase. Ficou encantada com a declaração de amor de Deus. Este é o segundo código: experimentar os encantos do amor de Deus. Antes de amar a Deus, é preciso fazer a experiência de que somos amados por Ele.

Maria está toda voltada para a proposta do céu que lhe diz: “Eis que conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó e o seu reino não terá fim”. A atenção amorosa à proposta de amor do céu deixa Maria inquieta. Ela não entendia “como” isso poderia acontecer. Por isso faz a pergunta: “Como acontecerá isso?”. Perguntar é um jeito de amar, e o encontro de Maria leva a essa sintonia de amor. O anjo explica todos os detalhes do projeto de salvação que aconteceria por meio dela.

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3. Sobre todas as coisas: o silêncio levou à sintonia, e essa, por sua vez, gerou a sinergia que deu forças a Maria para responder: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra.” Este “faça-se” parece ecoar o “faça-se” do poema da Criação, no primeiro capítulo do Gênesis: “Faça-se a luz… e a luz foi feita.” Pelo sim daquela menina, começava uma nova criação. Todas as coisas seriam refeitas em Cristo. Ela se tornava a primeira cristã, a jardineira do novo jardim de Deus. O paraíso perdido começava a ser restaurado no ventre da mulher que teve coragem de ouvir a voz do céu.

Simpatia e serventia

4. E ao próximo: o silêncio gerou a sintonia que tornou possível a sinergia. Mas esta energia vital não poderia ficar em uma espiritualidade solitária. Maria está grávida de Deus. Mas não ficou em casa. O anjo havia lhe dito que sua prima Isabel estava grávida de seis meses. Morava a mais ou menos 120 quilômetros dali. Ela não tem dúvidas. Silêncio, sintonia e sinergia deveriam levar à simpatia, que significa sentir com o coração do outro. Ela saiu às pressas para levar o amor e a ternura a alguém que estava precisando. Esqueceu de si mesma e até do Menino-Deus que se formava em seu ventre. Não se preocupou com nada. A verdadeira serva do Senhor é serva do próximo — neste caso, um pouco distante! Mas não existe tempo nem distâncias para o amor. Tudo é aqui e agora quando a gente ama, e com Maria foi assim.

A cena do encontro é de uma beleza sem igual. Ela chega sem discursos, apenas com a disponibilidade para servir. Quando Isabel ouviu a voz de Maria, o menino que trazia em seu ventre estremeceu e ela ficou cheia de Deus. É impressionante que, quando somos amorizados, nos tornamos capazes de amorizar também. Isabel começou a rezar e louvar a Deus.  Chamou Maria de “bendita entre todas as mulheres”, porque a profecia encarnada em seu ventre se cumpriria. Poderíamos continuar imaginando os dias que se passaram naqueles três meses que faltavam para o nascimento de João Batista. As conversas, as alegrias, a simplicidade e a serenidade de quem vive na dimensão do amor.

Para a salvação de todos

5. Como a si mesmo: após silêncio, sintonia, sinergia e simpatia, o que poderíamos esperar mais? O quinto segredo do amor é descoberto por Maria sob a forma de uma grande “sinfonia”. Ela cantou repetindo os poemas das grandes mulheres de Israel: “A minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.” Aquele silêncio da escuta agora transborda sob a forma de canção. Somente quem ouve a voz do céu pode cantar os ecos criativos do Criador. A intimidade de Maria é íntegra e integrada. Ela tem vida interior. No seu coração habitam multidões.

Chama a atenção que o Magnificat comece nesta chave pessoal e termine em um plural maravilhoso: “Em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre, conforme prometera a nossos pais”. A fé de Maria não é intimista. Ela articula o céu com a terra, o espiritual com o social, o singular com o plural. Não vive uma egolatria. Equilibra a dimensão pessoal com a pluralidade que habita em suas memórias. Ela reconhece que não é tão singular assim. O mundo inteiro habita no seu coração.

Modelo de cristã

Mais do que isso. Sua prece é radical no louvor e extremamente realista no clamor. Ela pede que os poderosos sejam derrubados dos seus tronos. É uma canção revolucionária que seria proibida por muitos regimes totalitaristas. É mais do que uma poesia; é uma profecia.  Na canção de Maria, encontramos o modelo perfeito da prece cristã.

Depois desta canção, não encontramos mais muitas palavras de Maria. A Bíblia diz que ela “guardava todas as coisas no seu coração” (Lucas 2,51). Este é o quinto segredo: guardar as coisas no coração. Maria entendeu a lição. Viveu os códigos do amor e conectou a terra com o céu!

Trecho extraído do livro “Os cinco segredos de Maria”, de padre Joãozinho, sjc


Padre Joãozinho, SCJ

Padre da Congregação do Sagrado Coração de Jesus (Dehonianos), doutor em Teologia, diretor da Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP), músíco e autor de vários livros. Autor de livros publicados pela Editora Canção Nova.

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