🕯️ Confiança

O 'sim' no escuro: a maturidade na fé de Maria

Maria não esperou entender tudo para confiar

Você já se sentiu completamente perdido diante de algo que Deus parecia estar pedindo a você? Já ficou olhando para uma situação da sua vida e se perguntou: “Senhor, onde o Senhor está nisso tudo? Por que está sendo tão difícil? Por que não me dá uma resposta clara?” Pode acreditar: você não está sozinho nessa. E tem alguém que passou por isso muito antes de você. Essa alguém se chama Maria.

Créditos: Arquivo CN.

Maria não foi uma figura distante, impassível, sempre com o rosto sereno e o olhar voltado para o céu. Ela foi uma mulher de carne e osso, que amou de verdade, que sentiu medo de verdade, que não entendia muita coisa que Deus estava fazendo na vida dela. E, mesmo assim, disse “sim”. Disse “sim” antes de saber o que vinha pela frente. Esse é o coração da fé de Maria: ela não esperou entender tudo para confiar. Ela confiou primeiro. E foi obedecendo que foi entendendo.

A maturidade da fé de Maria: escutar a voz do Espírito Santo e discernir

Pense bem no que aconteceu naquele dia da Anunciação. O anjo Gabriel chegou com uma mensagem que mudaria tudo na vida dela. E a proposta era, humanamente falando, impossível de entender. Seria mãe do Filho de Deus. Mas como? Sem ter conhecido homem nenhum (cf. Lc 1,34)? E José, o que iria pensar? O que as pessoas da aldeia iriam dizer? Quantas perguntas, quantas incertezas, quanto peso numa única noite! E ainda assim, a Palavra de Deus nos revela que Maria não fechou o coração. Ela perguntou, ela discerniu, e quando o Espírito Santo iluminou o seu coração, ela respondeu: «Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). Isso é fé adulta. Fé madura. Fé que custa.

E olha como a Escritura é honesta com a gente. Lucas diz que Maria «conservava todas estas coisas, meditando-as no seu coração» (Lc 2,19). Sabe o que isso significa? Que ela não entendia tudo de uma vez. Que havia momentos em que ela guardava dentro de si o que ainda não conseguia explicar. Quando perdeu o menino Jesus por três dias em Jerusalém, a angústia foi real. Quando o encontrou no Templo e Ele respondeu de um jeito que ela «não compreendeu» (Lc 2,50), a Bíblia não esconde isso. Ela não compreendeu. E continuou. Isso, meu irmão, minha irmã, é o que Deus está pedindo de você também: não que você entenda tudo, mas que você continue.

O momento mais alto da fé de Maria nasce na fidelidade no dia a dia da vida

Qual é o seu momento do “não entendi” hoje? Qual é a situação na sua vida que você tem rezado, pedido, clamado, e ainda não obteve a resposta que esperava? Talvez seja a saúde que não está bem. Talvez seja o relacionamento que foi embora. Talvez seja o projeto de vida que desmoronou. Talvez seja simplesmente o silêncio de Deus quando você mais precisava ouvir uma palavra d’Ele. E a pergunta que fica é esta: o que você vai fazer com esse silêncio? Vai deixar que ele apague a sua fé? Ou vai fazer como Maria fez: guardar no coração, continuar orando, continuar confiando, continuar caminhando?

O momento mais alto da fé de Maria não foi na Anunciação. Foi no Calvário. Ali, debaixo da Cruz, ela viu o Filho que o anjo dissera que reinaria para sempre (cf. Lc 1,33) morrer como um criminoso. Ali, tudo que ela tinha recebido por promessa parecia não fazer mais sentido nenhum. E João nos diz, com uma precisão que arrepia: «Junto da cruz de Jesus estava de pé a sua mãe» (Jo 19,25). De pé. Não caída. Não fugida. De pé. Isso não aconteceu por acaso. Maria estava de pé no Calvário porque aprendeu a ficar de pé em Nazaré, em Belém, no Egito, em Jerusalém. A nossa resistência espiritual nas grandes crises nasce da nossa fidelidade nos dias ordinários.

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Três meios para alcançar a maturidade espiritual como Maria

E como é que a gente chega lá? Como é que se constrói essa maturidade espiritual que Maria tinha? A vida dela nos ensina três coisas concretas:

  1. Primeiro: guarda no coração o que você ainda não entende. Não jogue fora a fé só porque Deus não explicou tudo. Maria meditava. Meditar é ficar com o mistério sem destruí-lo pela pressa.

  2. Segundo: confia na pessoa, não só no plano. Isabel proclamou: «Feliz aquela que acreditou» (Lc 1,45). Maria não acreditou num esquema. Acreditou num Deus que a amava.

  3. Terceiro: age mesmo dentro da incerteza. Imediatamente depois da Anunciação, Maria foi visitar Isabel (cf. Lc 1,39). Ela não esperou que as dúvidas sumissem. Caminhou com elas. E foi nesse caminho, com tudo ainda por resolver, que o Magnificat irrompeu. O louvor não veio depois das perguntas. Veio no meio delas.

O escuro não é a ausência de Deus, mas um convite para confiar melhor

Imitar Maria não é imitar uma imagem de vitral fria e sem história. É deixar que essa mulher corajosa, que disse “sim” antes de ver o caminho inteiro, nos ensine a confiar naquele que conhece cada detalhe da nossa vida.

Maturidade espiritual não é saber mais. É confiar melhor. É sair do «Senhor, explica-me» e chegar no «Senhor, não te solto». É isso que Deus está te convidando a viver hoje. E Nossa Senhora está aqui, como Mãe, para te ajudar nesse caminho. Eu o convido, agora, a levar essa situação que lhe pesa para as mãos dela. Pede a ela: “Mãe, me ensina a dizer “sim” no escuro, como você disse.” Ela vai te ouvir. E onde Maria está, Jesus também está.

O escuro não é a ausência de Deus. Para Maria, foi o lugar do seu “fiat” mais profundo. Pode ser o lugar do seu também.

A Profa. Carolline Pereira Muniz – especialista em Mariologia, ciência teológica sobre a Virgem Maria, esposa do Prof. Daniel Afonso e mãe de três crianças. Diretora do Instituto de Pesquisa em Mariologia Locus Mariologicus, dedica-se ao aprofundamento acadêmico, espiritual e pastoral do mistério da Bem-aventurada Virgem Maria no plano da salvação.

Seu trabalho se insere no horizonte da tradição viva da Igreja, buscando promover uma inteligência da fé que una rigor teológico, amor filial à Mãe de Deus e compromisso com a formação católica. À frente do Locus Mariologicus, contribui para a difusão dos estudos marianos, incentivando a pesquisa, a contemplação e a transmissão da doutrina mariana como caminho de maior conhecimento de Cristo e de adesão fiel à vida da Igreja.

Em sua trajetória, a dimensão familiar, acadêmica e espiritual se entrelaçam, expressando uma vocação marcada pelo serviço, pela maternidade e pela dedicação à missão evangelizadora da Igreja.