festa da misericórdia

Muitas faces, a mesma misericórdia

As festas pascais se prolongam até o dia do presente, penhor dado por Cristo e pelo Pai, o dom do Espírito Santo. Com essa garantia, o tempo se torna breve e, ao mesmo tempo, desdobra suas ondas, de forma a assegurar que todas as gerações possam acolher os mesmos frutos do Mistério de Cristo, em sua Morte e Ressurreição. Durante o Tempo Pascal, Os Sacramentos, a Igreja, a Esperança, o Testamento de Jesus, a Missão e os Dons do Espírito serão desvelados pouco a pouco, com a novidade perene que só Deus pode oferecer.

Entretanto, ao completar a oitava de Páscoa, quando as aparições de Jesus nos são oferecidas como testemunho, para que a fé se espalhe por todos os recantos da terra, anuncia-se uma dimensão do Mistério de Cristo que alcança todos os seres humanos, vindo a significar de modo especial para a nossa geração, marcada profundamente pelas crises, divisões, crimes e pecados, além do drama sanitário em que nos encontramos. Trata-se da Misericórdia, cuja festa celebramos neste final de semana. Coube de forma especial a São João Paulo II lançar sobre esta dimensão do amor de Deus uma luz impressionante, sob a inspiração das experiências místicas de Santa Faustina Kowalska.

Muitas faces, a mesma misericórdia

Foto ilustrativa: Bruno Marques/cancaonova.com

Misericórdia infinita

Jesus misericordioso abre seus braços sobre os machucados corações humanos. Queremos contemplá-lo e desfrutar os vários aspectos de sua misericórdia infinita. O Evangelho do Segundo Domingo da Páscoa, Festa da Misericórdia, narra duas aparições de Cristo Ressuscitado (Jo 20,19-31), referência para nossa reflexão de final de semana.

Nestes dias cantamos com alegria: “Por sua morte, a morte viu o fim, do sangue derramado a vida renasceu, seu pé ferido nova estrada abriu e neste homem, o homem enfim se descobriu! Meu coração me diz: O amor me amou e se entregou por mim! Jesus ressuscitou! Passou a escuridão, o Sol nasceu, a vida triunfou: Jesus ressuscitou! ‘Jesus me amou e se entregou por mim’, os homens todos podem o mesmo repetir. Não temeremos mais a morte e a dor, o coração humano em Cristo descansou” (Dom Carlos Alberto Navarro e Waldeci Farias). O Senhor passa pelas portas fechadas. Aos discípulos ao mesmo tempo temerosos e alegres, mostra as mãos e o lado. Não há mais barreiras capazes de impedir o contato com Deus, pois ele mesmo desceu do Céu, entrou em nossa história. Indo até o mais profundo das misérias humanas, por elas se apaixonou com a Divina Misericórdia. A iniciativa pertence a Deus. Não se trata de uma humanidade humilhada, mas redimida! Face divina e humana da Misericórdia é a sua gratuidade
onipotente, que se oferece a todos, sem exceção. Não há pecado humano ou miséria que seja capaz de bloquear a força do amor de Deus. Somente a liberdade humana pode recusar-se a acolhê-la. Da parte de Deus, abriram-se as porteiras das verdes pastagens que o Bom Pastor oferece a todas as suas ovelhas (Sl 22).

As primeiras palavras do Cristo Ressuscitado são “A paz esteja convosco”, o que repete outras vezes com divina insistência. A Misericórdia que jorra da Cruz e da Ressurreição é a única fonte da paz verdadeira. Se assistimos a tantos conflitos ou nos sentimos confusos numa sociedade polarizada, nas quais o diferente é tratado como inimigo, temos a certeza, vinda da fé, que Cristo, e só ele, é a nossa paz. “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2,14), ouvimos e repetimos tantas vezes na Quaresma!

A Misericórdia que brota do Cristo ressuscitado, onde se veem as marcas da paixão, agora gloriosas, é o perdão oferecido e dado pelo ministério da Igreja. “Soprou sobre eles e falou: ‘Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, lhes serão retidos’” (Jo 20,22-23). A Misericórdia e o perdão estão disponíveis, e a Igreja tem a missão sacramental de oferecer a todos estes dons.

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Dom do Espírito

Quando Jesus morreu na Cruz, inclinando a cabeça, entregou o espírito (Jo 19,30). Muitos escritos reconhecem aqui o dom do Espírito Santo, aquele mesmo que foi derramado no Pentecostes, inauguração da Igreja (At 2,1-12). Após a Ressurreição, nós o vemos soprando sobre os Discípulos e infundir neles o Espírito (Jo 20,22). A partir daí, a Misericórdia se faz missão, pois o mesmo Cristo que foi pelo Pai enviado ao mundo faz com que seus discípulos e a Igreja, conduzidos pelo sopro do Espírito escancarem os horizontes aos confins da terra, até que venha o Senhor, no fim dos tempos. A nós a responsabilidade de dizer, com a palavra e a vida, que há lugar para todos. Ninguém se julgue no direito de fechar portas ou estradas, para que muitos e todos se acheguem ao Coração Misericordioso de Jesus, que tanto amou o mundo. Todos aprendamos a identificar as sementes do bem que o Espírito Santo plantou no coração das pessoas.

De fato, a Misericórdia alcança, desde os primórdios da Igreja, os que estão distantes. Jesus Misericordioso, Morto e Ressuscitado, aparece de novo e acolhe Tomé, homem da dúvida e da profissão de fé! Quantas pessoas se perdem no mundo, cheias de vida imortal, só porque num caos tão profundo, não tiveram a luz de um farol. O Apóstolo que pronunciou palavras tão profundas – “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28) – nos oferece a oportunidade para, em nome do Senhor, ir ao encontro das dúvidas e inconstâncias de tantas pessoas, pois somos chamados a ser apóstolos da Misericórdia, pois até recebemos um elogio do Senhor: Bem-aventurados os que não viram, e creram!” (Jo 20,29).

“Não sei se descobriste a encantadora luz no olhar da mãe feliz que embala o novo ser, nos braços leva alguém em forma de outro eu, vivendo agora em dois se sente renascer. A mãe será capaz de se esquecer ou deixar de amar algum dos filhos que gerou? E se existir acaso tal mulher, Deus se lembrará de nós em seu amor. O amor de mãe recorda o amor de nosso Deus, tomou seu povo ao colo, quis nos atrair, até a ingratidão inflama seu amor. Um Deus apaixonado busca mim e a ti!” (Missa “Um Deus apaixonado”, Dom Carlos Alberto Navarro e Waldeci Farias). As palavras e o canto brotaram naturalmente em meu coração, ao contemplar as muitas faces da Misericórdia de Deus. Sua face materna suscite em todos nós a descoberta de muitos outros modos com os quais o Senhor Misericordioso nos alcança.


Dom Alberto Taveira Corrêa

Dom Alberto Taveira foi Reitor do Seminário Provincial Coração Eucarístico de Jesus em Belo Horizonte. Na Arquidiocese de Belo Horizonte foi ainda vigário Episcopal para a Pastoral e Professor de Liturgia na PUC-MG. Em Brasília, assumiu a coordenação do Vicariato Sul da Arquidiocese, além das diversas atividades de Bispo Auxiliar, entre outras. No dia 30 de dezembro de 2009, foi nomeado Arcebispo da Arquidiocese de Belém – PA.

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