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Qual a diferença entre deísmo e teísmo?

Para responder a pergunta indicada pelo título “Qual a diferença entre deísmo e teísmo”, começo citando um famoso texto do Evangelho de São Matheus (6,25-34).

25 Eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que
comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais
do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? 26 Olhai as aves
do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso
Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas? 27 Qual de
vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à
duração de sua vida? 28 E por que vos inquietais com as vestes?
Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem
fiam. 29 Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua
glória não se vestiu como um deles. 30 Se Deus veste assim a erva dos
campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais
a vós, homens de pouca fé? 31 Não vos aflijais, nem digais: Que
comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? 32 São os
pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe
que necessitais de tudo isso. 33 Buscai em primeiro lugar o Reino de
Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em
acréscimo. 34 Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de
amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu
cuidado.

Qual a diferença entre deísmo e teísmo?

Foto ilustrativa: MicroStockHub by Getty Images

O que é deísmo?

A partir dessas palavras do Evangelho, percebemos que Deus não se limitou a criar o mundo, mas o acompanha com a sua Providência: Ele até cuida dos lírios do campo e dos pássaros do céu. Mas cuida muito mais de nós seres humanos. Além disso, é preciso lembrar, para entender melhor quem é Deus, a profissão de fé do cristão: “Jesus, Filho de Deus, morreu e ressuscitou para a nossa salvação”. Este é o conteúdo principal dos discursos dos Apóstolos Pedro e Paulo relatados no livro dos Atos dos Apóstolos. Trata-se da pregação primitiva e básica da Igreja, expressa com o termo de origem grega ‘querigma’. Na tradição cristã, a palavra ‘querigma’ se tornou sinônimo do primeiro anúncio das verdades da fé.

Tudo isso mostra qual é a ideia que nós temos de Deus. Não se trata, apenas, de um Deus que fez o mundo e depois não se interessa mais do mesmo. Mas, pelo contrário, do Deus Providente, do Deus que cuida de todos os homens e que, a um certo momento da história, revelou-se de uma maneira especial através de Abraão, Moisés, dos sábios e dos profetas do Antigo Testamento, e ainda mais enviando seu Filho, que sucessivamente enviou o Espírito Santo e os apóstolos. E o Espírito nos conduz de volta para Deus Pai, na Ressurreição final.

Daí fica mais fácil explicar os dois termos. O ‘Deísmo’ é uma doutrina filosófica que admite apenas a existência de Deus, mas nega que Deus seja providente, e que se tenha revelado aos homens. Consequentemente, o deísmo acredita apenas o que a ‘razão’ humana pode mostrar. Trata-se de uma ‘razão sem a ’.

Este movimento foi desenvolvido particularmente por filósofos franceses e ingleses, nos séculos XVII-XVIII, como Voltaire (1694-1778) e Locke (1632-1704). Aos poucos, porém, esta corrente filosófic, acabou desembocando no
agnosticismo e o no ateísmo. No agnosticismo, Deus não é nem afirmado nem negado: apenas afirma-se que não dá para se posicionar se Ele existe ou não. E, no ateísmo, chega-se a negar a existência de Deus.

E o teísmo?

O ‘Teísmo’, pelo contrário, admite não só a existência de Deus, mas a sua ‘revelação’. E, neste sentido, são teístas não só os cristãos, mas também os judeus e os islâmicos, que acreditam numa Revelação de Deus aos homens.

A maioria das palavras da língua portuguesa provém do latim ou do grego, inclusive essas duas. ‘Teísmo’ provém do termo grego theós, que significa ‘Deus’. E ‘Deísmo’, provem da palavra latina ‘Deus’, que também significa ‘Deus’: neste caso, é a mesma palavra no latim e no português.

Mas, como vimos, estas duas palavras, que etimologicamente falam de ‘Deus’, na prática mostram uma ideia diferente de Deus.

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O cristão é chamado a testemunhar sua fé em Deus

Voltando ao conceito de ‘deísmo’, percebe-se que essa visão acaba negando a religião. De fato, afirma-se apenas a existência de Deus, mas de um Deus… distante do homem, que não se revelou e que não precisa, pois, ser reconhecido, adorado e amado.

Nós cristãos somos chamados a testemunhar a nossa fé em Deus, chegando até a chamá-lo de ‘Pai’. Essa simples palavra que Jesus nos ensinou nos revela quem é Deus, quem somos nós e como podemos viver de maneira digna do ser humano.

Gostaria de terminar com a belíssima citação do n. 2 do Documento Dei Verbum (= a Palavra de Deus) do Concílio Vaticano II, sobre a Revelação.

Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo
e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cfr. Ef. 1,9), segundo o
qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao
Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cfr.
Ef. 2,18; 2 Ped. 1,4). Em virtude desta revelação, Deus invisível (cfr.
Col. 1,15; 1 Tim. 1,17), na riqueza do seu amor fala aos homens como
amigos (cfr. Ex. 33, 11; Jo. 15,1415) e convive com eles (cfr. Bar.
3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele.

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Lino Rampazzo

Doutor em Teologia pela Pontificia Università Lateranense (Roma), Lino Rampazzo é coordenador do Curso de Teologia e professor nos cursos de filosofia e teologia da Faculdade Canção Nova, Cachoeira Paulista (SP).

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