Entenda

Fique atento: o gnosticismo é um sério perigo para a nossa fé

Saiba a diferença entre gnose e gnosticismo

Caro internauta, nesses dois breves artigos, estamos nos aprofundando um pouco mais no conhecimento de uma corrente herética que remonta o início do cristianismo e, ainda hoje, influência o pensamento moderno: o gnosticismo.

No artigo anterior, vimos quem foi Santo Irineu de Lião, este grande “varão apostólico”. Vimos, também, o contexto histórico em que ele viveu e entendemos o significado da palavra “heresia”.

Fique atento, o Gnosticismo é um sério perigo para a nossa fé

Neste segundo artigo, abordaremos a diferença entre gnose e gnosticismo, e os pontos fundamentais de divergência entre o pensamento cristão e o gnóstico. Além disso, apresentaremos o pensamento de Santo Irineu no combate a essa doutrina herética.

A gnose e o gnosticismo

Embora o termo “gnose” e “gnosticismo” estejam estreitamente ligados entre si, os pesquisadores nos ajudam a entender melhor a distinção entre essas duas expressões. Nominalmente, o Novo Dicionário de Teologia informa que o termo “gnose” deriva da palavra grega “gnósis”, e quer dizer “conhecimento”.

Assim, de uma forma bem direta, gnose é um fenômeno geral que “designa uma tendência constante do espírito humano, que busca o sentido da vida no conhecimento”. Já o gnosticismo “é o movimento histórico que se desenvolveu nos séculos II e III […]” (SESBOÜÉ; WOLINSKI, 2005, p. 38). Ao contrário da gnose, este último trata-se de um fenômeno particular e restrito a um período.

O gnosticismo, portanto, é uma manifestação histórica da gnose. É um vasto conhecimento religioso, cujo desenvolvimento é contemporâneo das origens do cristianismo. É, em suma, uma doutrina que define a salvação pelo conhecimento.

As possíveis origens do gnosticismo

Embora a origem do gnosticismo não seja precisamente conhecida, pode-se mencionar uma pré-gnose grega e uma pré-gnose judaica. Do lado Grego, Platão pode ser considerado seu ancestral, haja vista a sua concepção de reminiscência.

Do lado judeu, a Palestina aparece como o possível berço desse movimento alavancado por seitas judaicas como os essênios e os samaritanos. E na confluência das tendências gnósticas gregas e judaicas, encontra-se a figura de Fílon de Alexandria (SESBOÜÉ; WOLINSKI, 2005, p. 39).

Em razão desse sincretismo, o Dicionário Teológico Enciclopédico ressalta que o gnosticismo não se consolidou como um movimento bem harmonizado, mas como um conjunto de escolas ou seitas distintas por culto, organização e doutrina. Além disso, no interior dessas mesmas escolas ocorriam mudanças doutrinais grandemente consideráveis, ou seja, elas não eram homogêneas.

A precisão de Santo Irineu ao identificar perigos nas concepções gnósticas

Como pastor, Irineu foi sensível à propaganda ativa das “seitas gnósticas” no seio do cristianismo, e identificou elementos que introduzia um conjunto de rupturas destruidoras da fé cristã. Pode-se citar, por exemplo, a “ruptura entre o Deus supremo e o Criador; entre a obra da criação e a obra da salvação; entre o homem e o seu universo; entre o corpo e a alma; entre o Antigo […] e o Novo [Testamento] […]” (LIÉBAERT, 2004, p. 61).

Na visão gnóstica, a Encarnação e o Mistério Pascal foram esvaziados do seu sentido. A própria fonte da era pervertida, pois não se encontrava mais na tradição eclesial que interpretava a Escritura, mas na tradição e nas escrituras secretas dos gnósticos.

O dualismo Gnóstico

Percebe-se, claramente, que a visão gnóstica a respeito do cosmo é dualista. Ela separa, no mundo, a luz das trevas, e, no homem, o princípio espiritual do material. É justamente essa forma de pensar que leva o gnosticismo à recusa da concepção judeu-cristã do único Deus criador, pois o dualismo cósmico exige dois princípios criadores.

Existe, portanto, a figura de um Demiurgo criador desse mundo. Ele é, geralmente, identificado com o Deus do Antigo Testamento. É, portanto, colocado em contraposição ao verdadeiro Deus “Pai do todos”. Segundo esse pensamento, este Deus é o Pai da Grandeza, e os textos gnósticos o descrevem como inefável e jamais alcançado por nenhum poder ou limite das criaturas.

Segundo o Dicionário Teológico Enciclopédico, nota-se um dualismo entre o mundo espiritual e o mundo material, sendo este último considerado intrinsecamente mau. Existe a visão “de que o mundo material é fruto da degradação de um ser divino e foi plasmado pelos anjos” ou pelo Demiurgo identificado como o Deus veterotestamentário (Antigo Testamento).

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O perigo e as implicações do pensamento gnóstico no campo da ética e da moral

Esse dualismo que caracteriza o gnosticismo tinha reflexo, inclusive, no campo moral. Daí, resultavam duas concepções: uma caracterizada por um libertinismo descarado. Essa concepção era motivada pelo fato de o gnóstico ser, na visão deles, ontologicamente detentor de uma salvação que ninguém e nada lhe podem tirar. A segunda, em total antítese com este libertinismo, afirma-se no interior do gnosticismo uma ascese tão rigorosa que chega a desprezar qualquer expressão material do na pessoa.

Dessa forma, não resta dúvida que essa doutrina constitui para a comunidade cristã dos primeiros séculos um perigo, dos mais graves, tanto no âmbito doutrinal quanto no ético. Justifica-se, portanto, a forte tomada de posição de importantes personagens, não apenas Santo Irineu, mas também de Justino, Hipólito, Clemente de Alexandria, Orígenes dentre outros.

1º ponto – Reflexões e argumentos de Santo Irineu acerca do gnosticismo

O primeiro ponto que se pode mencionar a respeito da reflexão de Irineu está relacionado com o caráter sigiloso e reservado das especulações gnósticas. Para os gnósticos, o conhecimento da lei depende de um modo de interpretação, cuja chave é reservada apenas aos iniciados. Esses ensinamentos teriam sido transmitidos por uma tradição secreta de mestre a discípulo desde Simão Magno.

Irineu rebate essa maneira sigilosa e oculta de ensinamentos. Sua teologia é uma teologia da Tradição Eclesial, ou seja, uma transmissão ativa da fé, e, acima de tudo, pública. Além disso, essa transmissão era institucional, uma vez garantida pela sucessão do corpo episcopado desde os apóstolos.

2º ponto –  Reflexões e argumentos de Santo Irineu acerca do gnosticismo

O segundo ponto a ser rebatido por Irineu refere-se ao caráter dualístico do gnosticismo. A teologia de Irineu é uma teologia da unidade. Com isso, Irineu estava rejeitando todas as rupturas estabelecidas por esta heresia.

Irineu demarca alguns pontos muito importantes da fé cristã: a unidade da Revelação nos dois Testamentos, quer dizer, a “unidade de Cristo que, por sua encarnação, realiza, de fato, no próprio ser (‘verdadeiro Deus’ e ‘verdadeiro homem’), a comunhão de Deus e do homem; unidade do ser humano, enfim, corpo e alma, destinado à salvação na totalidade de sua natureza […]” (LIÉBAERT, 2004, p. 63).

3º ponto – Reflexões e argumentos de Santo Irineu acerca do gnosticismo

Uma terceira e não menos importante questão é o fato de a teologia de Irineu tratar-se de uma teologia da história da salvação. Salvação esta que não se realiza, para ele, fora de nosso espaço e de nosso tempo. Consequentemente, estava querendo afastar definitivamente a tentação de reduzir a Revelação a uma gnose atemporal.

Amigo internauta, com esses artigos espero ter contribuído, pelo menos um pouquinho, para o conhecimento da nossa fé e, consequentemente, seu fortalecimento.

Deus abençoe você
Até a próxima!

REFERÊNCIAS

DICIONÁRIO TEOLÓGICO ENCICLOPÉDICO. Lexicon. Tradução João P. Neto e Alda da A. Machado. São Paulo: Loyola, 2003.
LIÉBAERT, Jacques. Os Padres da Igreja: [Séculos 1 – IV]. Tradução Nadyr de Salles Penteado. 2 ed. São Paulo: Loyola, 2004.
NOVO DICIONÁRIO DE TEOLOGIA. Tradução Celso Márcio Teixeira et al. São Paulo: Paulus, 2009.
SESBOÜÉ, Bernard; WOLINSKI, Joseph. História dos Dogmas: o Deus da Salvação – (Séculos I – VIII). Tradução Marcos Bagno. 2 ed. São Paulo: Loyola, 2005.

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