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A relevância do Cristianismo para a formação da pessoa humana

Um dos fundamentos da República Federativa do Brasil é a “dignidade da pessoa humana”, como lemos no Artigo 1º da Constituição de 1988. Essa fundamentação foi juridicamente possível diante do fato de que a dignidade da pessoa humana encontra uma tranquila receptividade na nossa cultura. Porém, o valor que nós hoje damos à pessoa humana precisou de séculos para ser reconhecido. Pode-se então perguntar: “Quando e como foi formulado o conceito de “pessoa”? Quando e como esse conceito foi aplicado ao ser humano?”.

Os estudiosos concordam em reconhecer que a valorização da pessoa humana aconteceu graças ao Cristianismo. Antes, o homem era considerado apenas como membro da “espécie humana”, sem dar importância  a cada indivíduo.

A relevância do cristianismo para a formação da pessoa humana

Foto ilustrativa: Boonyachoat by Getty Images

Agora, o homem é pensado como pessoa em sua individualidade

Porém, a revelação cristã não está voltada ao gênero humano de modo abstrato, não diz respeito ao “homem em geral”, mas é dirigida a todos os homens tomados individualmente, enquanto que, cada um deles é filho de Deus, chamado à plena comunhão com Ele.  Nesta parceria entre Deus e o homem, o ponto mais alto encontra-se em Jesus de Nazaré, Deus-homem, homem-Deus. N’Ele, o próprio Deus estende a mão para a parceria e, ao mesmo tempo, proclama a infinita nobreza e a imensa dignidade de cada homem finito e particular.

Permitam-me uma lembrança da minha experiência no Burundi (África Central) nos anos 1971-73. Só os amigos, naquela cultura, bebem juntos no mesmo grande vaso de cerveja de banana, cada um com um canudinho. E eles, na liturgia, expressam a parceria de Deus com o homem, com a seguinte expressão: “beber junto com Deus”. Com tal frase, traduzem a palavra “Aliança”. Sim, Deus faz aliança conosco em Jesus.

Com esse horizonte cristão diferente, por exemplo, daquele do mundo greco-romano, estava colocada a premissa, a possibilidade e a necessidade da origem e do desenvolvimento do conceito de pessoa. Porém, o impulso imediato para esse processo exigiu tempo. A ocasião de tal reflexão ocorreu, principalmente, a partir das disputas teológicas acerca dos grandes mistérios da Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) e da Encarnação (o Filho de Deus que se fez homem), cuja solução contribuiu, de forma decisiva, à formulação exata do conceito de pessoa.

O primeiro exame rigoroso desse conceito foi realizado por Agostinho. A sua intenção era a de encontrar um termo que se pudesse aplicar distintamente ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Sem correr o risco, de uma parte, fazer Deles três deuses e, de outra, dissolver sua individualidade. Essa dupla virtude é expressa pelo termo latino persona (=pessoa), o qual “não significa uma espécie, mas algo de singular e de individual”. Analogamente, esse termo se aplica, também, ao homem, pois “cada homem é uma pessoa”.  Então, Santo Agostinho foi o primeiro a atribuir ao homem o conceito de “pessoa”.

O termo “pessoa” foi também fundamental para dizer quem é Jesus. Conforme a doutrina do Concílio de Calcedônia (451), a “pessoa” divina do Filho de Deus assumiu duas naturezas: a natureza humana e a natureza divina. De fato, se Ele não fosse homem, não representaria a humanidade na Cruz. E, se não fosse Deus, o sacrifício da cruz não teria valor infinito.

Mas então, antes desse uso, a palavra “pessoa” existia? E, se existia, qual significado tinha?

Sim, existia; e podia indicar a “máscara de teatro”. Pois, o mesmo ator usava uma ou outra máscara, conforme a peça que estava representando. Podia indicar, também, uma função social. E, assim, o mesmo indivíduo podia ter a função social de “senador” e outra de “proprietário”. Então, antes, “pessoa’ indicava as várias identidades que podiam ser aplicadas a um ser humano em diferentes situações, conforme o papel que precisasse desenvolver nessas situações. Mas, no vocabulário cristão, o termo “pessoa” passa a indicar a irredutível identidade e unicidade de um indivíduo.

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Se olharmos para nossas fotos, nas várias etapas da vida, podemos afirmar que somos a mesma pessoa quando crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos. E vamos aprofundar: eu era pessoa desde a minha concepção e serei pessoa, também, depois da minha morte. Eis porque nós rezamos aos santos e rezamos pelos falecidos: são “pessoas”; as mesmas que viveram e que, um dia, com a graça de Deus, esperamos reencontrar. Eis porque é pessoa o faminto, o sedento, o nu, o preso, o doente, o estrangeiro nos quais, misteriosamente, Jesus está presente. E Ele nos julgará conforme nossa atitude de misericórdia ou de indiferença diante das pessoas que encontramos na vida.

Vimos que o termo “pessoa” é importante para falar de Deus, de Cristo, dos santos. E, também, os anjos são pessoas; vivem juntos de Deus e nos ajudam. Eis porque São Tomas escreveu que “pessoa significa o que há de mais nobre no universo”.

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Lino Rampazzo

Doutor em Teologia pela Pontificia Università Lateranense (Roma), Lino Rampazzo é professor e pesquisador no Programa de Mestrado em Direito do Centro Unisal – U.E. de Lorena (SP) – e coordenador do Curso de Teologia da Faculdade Canção Nova, Cachoeira Paulista (SP).

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