parte 1

Anjos querubins: guardiões da adoração

“Fez ainda um querubim numa extremidade e o segundo na outra, formando uma peça só com o propiciatório. Os Querubins tinham asas estendidas para cima, cobrindo com elas o propiciatório. Estavam com as faces voltadas uma para a outra, com o rosto voltado para o propiciatório”. (Ex 37, 8-9)

A palavra querubim vem do hebraico כְּרוּב (keruv), que significa “aquele que é propício” ou “abençoador”. De fato, a tradição bíblica sempre ligou esses seres celestiais à dimensão da adoração em relação direta ao trono de Deus e da Sua presença gloriosa. A primeira citação desses nossos irmãos se encontra em Gn 3,24, onde o Senhor os coloca na entrada do paraíso, com uma espada de fogo que gira, impedindo o homem caído de entrar.

O que podemos falar desses seres angelicais é que eles possuem a dimensão da adoração em forma comunitária e, estando em comunhão uns com os outros, ao adorarem, trazem em si a presença do fogo da glória de Deus. Então, se os serafins queimam na presença do Senhor e se tornam abrasadores, os querubins, por sua vez, carregam a presença de Deus no meio deles (Ez 10, 6-9). Esse fogo que eles guardam em si mesmo nada mais é do que a presença do Senhor, que se manifesta em forma de fogo, que ilumina e purifica a noite e o dia.

Anjos querubins: guardiões da adoração

Foto ilustrativa: jgroup by Getty Images

Referências sobre os querubins

A referência mais conhecida que temos dos Keruvim é a imagem dos dois sobre a tampa da arca da Aliança. Vejamos os detalhes do texto sagrado:

Estão ajoelhados um de frente para outro, e formam uma só peça unidos pelos joelhos

Ao construir a arca, o Senhor ordenou a Moisés que erigisse sobre a tampa desta (propiciatório) dois querubins feito de ouro maciço. Estar um de frente para o outro demonstra a dimensão da comunhão na adoração. Por isso, Nosso Senhor ensina que “onde dois ou três estão reunidos no meu nome eu estou no meio dele” (Mt 10,20), dando a cumprir a realidade de dois corações, unidos em comum acordo, ao entrar em relacionamento com o seu Deus. Eles adoram unidos, fazendo que se tornem pelos joelhos uma “peça” só, isto é, uma única oração.

Esses nossos irmãos do segundo coro da primeira hierarquia celeste estão profundamente em comunhão com o Senhor. Por tê-lo em meio a si, em forma de fogo devorador, estes entram em relação com Deus e este se faz conhecer, ensinando-os os mistérios e segredos mais íntimos. Por isso, a tradição teológica entende que os “abençoadores” são capazes de ter a ciência de Deus e de seus segredos e, por esse motivo, podem ensinar aos outros anjos e homens sobre os segredos da revelação divina. A este propósito nos ensina o grande Pseuso-Dionisio:

«Os Querubins designam aptidões a conhecerem e a contemplarem a Deus, a receberem os mais altos dons da Sua Luz, a contemplarem na sua potência primordial o esplendor divino, a acolherem em si a plenitude dos dons que
transmitem sabedoria e a comunicá-los em seguida às essências inferiores graças a expansão da própria sabedoria que lhes foi transmitida»1.

A sabedoria que os envolve, e o conhecimento próximo que estes possuem da visão beatifica faz sim que estes seres maravilhosos conheçam a profundidade de Deus e o seu Amor. Se os serafins ardem de amor, os querubins por sua vez são abrasados pelo conhecimento elevado e místico de Deus2. Não é por nada que em todas as referências em que se faz dos querubins, veremos sempre que estão em dois ou mais e no meio deles está a presença do Senhor.

A esse respeito, a liturgia católica nos ensina que, ao celebrarmos os santos mistérios, fazemos a experiência pessoal e comunitária de ter em nosso meio aquele que se dá totalmente em seu corpo e em seu sangue. Logo, o que vivemos enquanto corpo místico de Cristo, nada mais é que a experiência de adorar a Deus em um louvor que une muitas
vozes e corações, e ao subir ao trono divino como um incenso, chega a Deus como uma única oração de tantos santos (Ap 8,3).

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As asas estendidas para cima cobrindo o propiciatório

Um segundo elemento importante, que temos na mensagem simbólica da arca da aliança, é as asas dos querubins. Tais asas estão voltadas para cima e, ao mesmo tempo, a sombra destas protegem a tampa do propiciatório. Aqui, podemos aprender duas lições: a primeira é que as asas apontadas para o alto representam toda a elevação espiritual dos keruvins, que tem a sua liberdade voltada inteiramente para Deus; a segunda é o “cobrir” o propiciatório. Este nos ensina que as asas dos querubins além de os elevarem a Deus os fazem serem anjos protetores de quem está embaixo deles. Logo, querubim também é guarda não somente do paraíso, mas de cada adorador.

As asas, na linguagem bíblica e no mundo antigo, representam a proteção e, ao mesmo tempo, a liberdade3. É debaixo das asas do Altíssimo que o fiel encontra o seu refúgio nos tempos de tribulação (Sl 90/91). Jesus chorou sobre Jerusalém por causa da sua rejeição de não ter aceitado a proteção de suas asas que como uma galinha acolhe os seus pintainhos (Lc 13,34).

Interessante é o comentário de São João Crisóstomo a respeito dos querubins. Em sua homilia sobre os dois ladrões, ele nos ensina que, ao prometer o paraíso celeste ao ladrão na cruz, Nosso Senhor tirou a espada da condenação da entrada do Éden e abriu para nós a porta que antes tinha sido fechada. Os mesmos querubins que impediam a nossa entrada no céu, hoje são nossos irmãos que conosco adoram e louvam a Deus para sempre4.

Concluindo, podemos dizer que hoje é possível entrar em comunhão com estes irmãos, uma vez que a sua natureza está voltada completamente para os mistérios divinos. A beleza em tudo isso é que, se os querubins entram no mistério do conhecimento e ciência de Deus através das brasas e do fogo que queima no meio deles, nós, por excelência, na liturgia eucarística, temos em nosso meio o fogo devorador da Eucaristia, e ali encontramos prostrados os querubins que, junto conosco, adoram ao Cordeiro Santo que se dá no altar.

Seja querubim! Seja guardião da adoração onde você estiver. Busque ir além e verás que o paraíso, outrora fechado, agora, em Cristo, foi por nós aberto, e junto com nossos irmãos celestes, em comunhão com toda a Igreja podemos com eles cantar:

“Santo, santo, santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, Aquele que era, que é e que há de vir!” (Ap 4,8).

Referências:

1 PSEUDO-DIONISIO, Hierarcha celeste,BIBLIOTHECA PATRISTICA, VII, p. 14-15.
2 Cfr. SÃO TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologica II, Edições Loyola, São Paulo 2005, Q. 108, Art. 5, p.776.
3 Cfr. DICIONÁRIO DE FIGURAS E SÍMBOLOS BÍBLICOS, Paulus 2º edição, São Paulo 2006, p.18-19.
4 Cfr. SÃO JOÃO CRISOSTOMO, De cruce et latrone, hom. I, 1-2. PG 49,399-401.


Rafael Brito

Rafael F. de Brito é missionário do Movimento Aliança de Misericórdia. Professor e pregador, ele é mestre e doutorando em Teologia Dogmática pela Universidade Gregoriana de Roma, e mestre e doutorando em filosofia pela Universidad Pontificia de SALAMANCA. Casado, Brito é, atualmente, residente em Roma, Itália.

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