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Conheça mais sobre a oração mística e seus últimos graus

Quando se fala sobre vida mística, contemplação infusa ou dons espirituais, é muito comum que a confusão reine. Parece que os fenômenos ditos sobrenaturais (porque de fato são mesmo sobrenaturais) são subjetivos, inalcançáveis e até mesmo irreais. Esse preconceito estabelecido por aqueles que não conhecem o assunto e não procuram buscar fontes coerentes e fiéis ao magistério da Igreja não é verdadeiro.

Vimos, através de toda essa série sobre os modos de oração explicados por Santa Teresa D’Ávila, que existe uma ordem e uma gradação onde, somente nas aparências, reina o subjetivismo. E não foi apenas a doutora de Ávila que explicou de forma didática a sua experiência, mas também São João da Cruz, Santa Teresinha e tantos outros através dos séculos.

Chegamos, portanto, ao cume da vida espiritual ou vida de oração: a união transformativa. Recapitulemos rapidamente o que se passou para que tudo faça ainda mais sentido.

Foto Ilustrativa: by Getty Images / Davizro

As formas de oração mística

Existiu um primeiro momento ascético, onde a alma se esforçou para purificar-se de todos os apetites e vontades e, ao mesmo tempo, ligar-se a Deus através de um grande esforço de oração. Esse trabalho foi comparado por Santa Teresa ao de retirar, à força de braços, água de um poço profundo que, até mesmo, poderia estar seco (Vida 11,9).

Num segundo momento, também ascético, a oração de meditação faz com que “o tirar água do poço” seja um trabalho menos penoso e mais frutuoso, como se anexasse um sistema de roldanas e cordas ao balde (Vida 11,7). E, num terceiro momento, mistura de natural com sobrenatural, ou de ascético e místico, o próprio poço apresenta uma “água alta” (Vida 14,2). O esforço continua, mas, misteriosamente, o poço encheu-se através de uma fonte profunda que fez com que a água subisse e quase derramasse pelas bordas, facilitando em muito a retirada desta água.

Finalmente, o jardim da alma passa a ser irrigado por aquedutos ou canais (Vida 11,7). O rio vivo, que é o Espírito Santo, está sendo direcionado pelo próprio Deus a inundar a alma. Não só provê o necessário, não só inunda os canais preparados pelo treino e esforço da meditação, mas chega até a criar novos canais e acessar áreas até então desconhecidas. São os primeiros graus da oração mística ou contemplação. É o sobrenatural suplantando, conduzindo e conformando o natural a uma nova maneira de ser.

A esta fase conformativa da vida mística segue-se, agora, uma fase transformativa. Todo o trabalho realizado até esse momento pelo Espírito Santo, através da oração, visava conformar a alma a Cristo. Chegou, finalmente, o momento dela ser transformada em outro Cristo.

O regar do jardim da alma

Ocorre aqui um salto tão grandioso que Santa Teresa, sem dúvida alguma inspirada pelo próprio Espírito, faz uma última diferenciação quanto ao cuidado e rega deste jardim da alma. A água não vem mais, nem por esforço humano, nem pelos meios naturais do desvio e desnível de um rio ou córrego, mas do próprio céu através da chuva (Vida 11,7). O hortelão ou jardineiro que somos nós, não possui mais nenhuma capacidade de controle sobre essa rega. É o verdadeiro e único hortelão ou jardineiro, o próprio Deus, quem cuida, conserva e alimenta a alma a Ele dedicada. Deus, agora que gentilmente conquistou acesso total ao cuidado da alma, toma-a para Si e realiza o que para o ser humano é impossível por suas próprias forças: a Cristificação.

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Por causa do protagonismo absoluto de Deus nesta última fase da vida espiritual é que Santa Teresa utiliza a metáfora da chuva e, seguindo as Escrituras, tanto ela mesma quanto todos os outros santos também se utilizam da figura da esposa e do esposo, do matrimônio, coabitação e, por último, união em “uma só carne e um só espírito”.

Depois dos seis graus de oração já explicados nos artigos anteriores, surge a oração extática: o influxo de união da alma a Deus é tão completo e extenso, que não só une a vontade, a memória e a inteligência (como na oração de união), mas toma conta de todos os sentidos corporais. Assim, aquele que é absorvido nesta oração, não vê mais nada além de Deus, não sente nada exterior nem tem posse sobre seu corpo e sentidos. Ocorre uma suspensão onde todo o ser se volta para Deus e somente para Ele.

Na história da Igreja e dos santos, encontramos várias narrativas sobre esse fenômeno (ou êxtase) que, após Santa Teresa, percebeu-se tratar de um tipo especial de oração mística. Entre outros detalhes, a pessoa se torna insensível a estímulos sensoriais, podendo ser queimada, espetada, provocada de diversas formas sem nenhuma reação aparente. Pode permanecer horas na mesma posição, sem se mexer e, por vezes, a temperatura corporal desce muito e até os batimentos cardíacos passam a ser imperceptíveis.

Trata-se de um encontro íntimo com Deus

Que não sejamos enganados: não são fenômenos espetaculares buscando uma plateia. Trata-se de um encontro íntimo com Deus que, para aprimorar e passar a transformar profundamente esta alma em santidade, faz como um bom cirurgião e suspende as reações do paciente para melhor operá-lo.

Essa oração traz comunicações intensas e poderosas sobre Deus, Seus desígnios e Sua vontade. Uma delas reflete um novo grau de oração mística: o desposório espiritual. Este é o oitavo grau de oração, onde o próprio Cristo assume a alma em processo de santificação como noiva e promete prepará-la para a união plena. Essa promessa costuma trazer graças especiais e introduzi-la na última e definitiva purificação, a “Noite Escura da Alma”. Como na parábola das virgens prudentes e imprudentes, ela precisa esperar pelo noivo no meio da noite, pois ele virá sem hora marcada.

Finalmente, o último grau de oração que sela todo esse ciclo propriamente místico é o matrimônio espiritual. O jardim está finalmente pronto não só para receber o autor de todas as coisas como visitante, mas como morador e Senhor. A alma transformada num novo Cristo pode estar em perfeita união com a Santíssima Trindade. É um perfeito conhecimento da Trindade, de suas pessoas, de sua unidade enquanto Deus e diferenças enquanto pessoas, que a alma finalmente pode saborear. O conhecimento teórico passa a ser prático, vivido, experimentado. A partir daí, quanto tempo ainda permaneça viva neste mundo, permanecerá em contato íntimo e constante com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

União com o Senhor

Tão verdadeiro e sensível é esse encontro, essa entrada no último estágio da vida espiritual, que Santa Teresa também chamou de sétima morada, que podemos identificar na vida dos santos exatamente a data em que isso ocorreu com cada um deles. Trata-se, portanto, de um acontecimento tão real quanto mensurável. Tão profundo quanto inegável.

No próximo artigo, veremos um pouco da prática do que é esse encontro íntimo dos últimos graus de oração através dos exemplos de outra santa carmelita: Santa Elisabete da Trindade. Que esta santa que prometeu: “No céu a minha missão consistirá em atrair almas, ajudando-as a sair de si mesmas para unirem-se ao Senhor”, possa nos ajudar a sermos cada vez mais unidos a Deus e preparar um maravilhoso jardim para que Ele encontre suas delícias!

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Flávio Crepaldi

Flavio Crepaldi é teólogo, casado e pai de três filhas. Além do bacharelado em Teologia, possui formação em Comunicação e especialização em Gestão, sendo colaborador da TV Canção Nova desde 2006. É o autor do livro “Santidade para todos: Descobrindo as Moradas Interiores”, em que, de maneira prática e descomplicada, ele explica o caminho espiritual pela busca da santidade.

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